Quem viveu o Brasileiro de 1996 se lembra de uma encrenca envolvendo Fluminense, Santos e um jogador santista chamado Usuriaga. Antes da partida entre os dois clubes, o Santos sabia que o jogador colombiano não tinha condições de jogo e mesmo assim o colocou em campo, pela quarta rodada, no dia 22/08/1996. O Fluminense acabou sendo derrotado por 1×0 num jogo em que, por uma questão de honra, nunca poderia ter perdido, pois foi o primeiro jogo entre os dois clubes depois da fatídica semifinal do Brasileiro de 1995.

 

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Acredito que esta seja a única foto que tenha sobrevivido de Usuriaga em ação nesse jogo do Santos contra o Fluminense pelo Brasileiro de 1996.

 

 

A propósito: você sabe quantos jogos Usuriaga disputou pelo Santos? Um jogo apenas. A sua primeira e última partida com a camisa do Santos foi justamente contra o Fluminense.

 

De uma forma geral, o que passou para a história é que o fidalgo Fluminense, presidido na época pelo fidalgo Gil Carneiro de Mendonça, teria se negado a correr atrás da anulação da partida e de seus pontos. Vi isso ser repetido muitas vezes por muitas pessoas. Inclusive, esse era o meu entendimento sobre o que havia se passado entre agosto e setembro de 1996.

 

Mas será que foi isso mesmo o que aconteceu? O Fluminense foi tão idiota, tão imbecil, tão estúpido a esse ponto?

 

Para chegarmos a uma conclusão, temos que remontar o contexto da época. Para isso, vamos analisar primeiro tudo o que foi publicado pelo Globo referente ao Caso Usuriaga.

 

 

O Globo

 

24/08/1996 9 (dois dias após o jogo)

Jorge Vieira tentará tornar o Flu mais ofensivo e ousado, Página 35

Ninguém do Fluminense comentou a situação do colombiano Usuriaga, que, segundo CBF, foi escalado de forma irregular. A entidade só espera a súmula do juiz Fabiano Gonçalves para determinar, num ato administrativo, ao qual não sabe recurso, que o Santos perca cinco pontos. O clube paulista escalou o jogador baseando-se numa informação pela Federação Paulista, que considerou regularizada a documentação de Usuriaga.

 

 

25/08/1996

Flu tem uma dura missão: se reabilitar em Criciúma, Página 61

(…)

Como o Santos escalou de forma irregular o atacante colombiano Usuriaga, o Fluminense vai tentar junto à CBF a impugnação da partida contra o clube paulista, disputada no estádio do Ibirapuera. Mas dificilmente alcançará o seu objetivo, pois o Santos deverá perder cinco pontos, num ato administrativo da CBF que não cabe recurso. Mesmo que isso seja confirmado, O Fluminense não será beneficiado. Não conseguirá a realização de uma nova partida e muito menos ganhará os cinco pontos que seus dirigentes julgam merecer.

 

 

10/09/1996

Renato festeja aniversário mas Flu ainda escolhe o presente, Página 35

(…)

Renato está agora empenhado em fazer com que a diretoria do clube consiga através da CBF marcar um novo jogo contra o Santos. Quando os dois times se enfrentaram pelo Campeonato Brasileiro, O Fluminense perdeu por 1×0, mas a equipe paulista escalou indevidamente o colombiano Usuriaga, cuja documentação de transferência estava irregular. Mas o Santos não deve ser punido porque o erro foi da CBF.”

 

 

Essas foram as únicas três reportagens do Globo sobre o Caso Usuriaga. Se vocês repararem objetivamente, o Globo utilizava uma explicação preguiçosa para o caso, que na verdade não explicava nada, dizendo que a “documentação de transferência estava irregular”. Ok, mas qual era, especificamente, o problema? O Globo nunca esclareceu. Para entender o que de fato aconteceu, temos que recorrer ao jornal Estado de São Paulo.

 

 

O Estado de São Paulo

 

22/08/1996 (dia do jogo)

Usuriaga ameaça ir embora se não jogar, Página E3

(…)

O atacante demonstrou, pela primeira vez, estar apreensivo com a situação. “Não sei se me querem ou não e, se não jogar esta partida por falta de inscrição, creio que voltaria à Colômbia.

(…)

 

 

27/08/1996

Santos tenta evitar perda de pontos na CBF, Página E1

Clube contrata advogado no Rio para acompanhar de perto o caso Usuriaga

(…)

Duas horas antes da partida, a diretoria do Santos foi informada a respeito de um fax que a CBF recebeu da Associação de Futebol da Argentina (AFA), pedindo o indeferimento da inscrição do jogador no Campeonato Brasileiro. A transferência do passe do atacante para o Santos foi feita diretamente do Barcelona de Guayaquil, no Equador, clube que o atleta vinha defendendo, por empréstimo. Mas o passe pertence ao Independiente, da Argentina, que não foi consultado da negociação.

 

Por precaução e para evitar a perda de mais cinco pontos, o atleta não foi escalado domingo, no Morumbi, quando o Santos foi derrotado por 2×1 pelo São Paulo.

 

 

29/08/1996

CBF adia decisão sobre o caso do jogador Usuriaga, Página E3

Diretor-técnico promete definir amanhã se o Santos será ou não punido pela escalação do colombiano

(…)

Depois de dizer, na semana passada, que a equipe paulista perderia cinco pontos e a renda da partida, além de pagar uma multa. Coelho (Gilberto Coelho, diretor técnico da CBF na época) recuou e preferiu manter o mistério com relação ao desfecho do caso Usuriaga. “Não quero antecipar nada”, comentou. “Vou aguardar a posição dos outros departamentos da entidade para definir a situação do jogador”.

(…)

O passe de Usuriaga pertence ao Independiente, da Argentina, que o havia emprestado ao Barcelona de Guayaquil. O clube equatoriano, por sua vez, o emprestou ao Santos sem autorização, segundo os dirigentes argentinos. O Santos o escalou contra o Fluminense, alegando ter recebido da Federação Paulista de futebol o cartão de cadastramento do atleta colombiano. Já o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, afirma ter avisado os dirigentes santistas de que o jogador ainda não tinha a situação regularizada.

 

 

12/09/1996 (dia do julgamento no STJD)

STJD decide hoje se o Santos perde os cinco pontos, Página E7

Escalação irregular de Usuriaga contra o Fluminense pode custar caro ao clube paulista

(…)

Se depender do parecer do procurador do STJD, Narciso Gonçalves dos Santos, a situação do clube paulista pode ficar complicada. Ele denunciou o Santos no Artigo 301 do Código Brasileiro Disciplinar de Futebol (CBDF), por “incluir em sua equipe atleta sem condição de jogo”, e pede a retirada de cinco pontos do infrator.

(…)

A omissão do Departamento Técnico da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que preferiu transferir o caso para o STJD aplicar a punição administrativa, conta a favor do Santos. O diretor-técnico da CBF, Gilberto Coelho, mudou de estratégia. Nas primeiras horas após o Santos ter utilizado Usuriaga, disse que a punição era inevitável. “O atleta foi escalado sem condições de jogo.” Depois, ao verificar que o Departamento de Registro da CBF autorizara o Santos a escalar o jogador, recuou.

(…)

O Departamento de Registro da CBF, que dera condição de jogo provisória ao atleta, decidiu suspender o registro momentos antes da partida contra o Fluminense. O Santos tinha um cartão de inscrição emitido pelo próprio Departamento de Registro e manteve a escalação, alegando depois não ter sido informado a tempo.

 

O Santos conta ainda com o apoio do Clube dos 13. O próprio presidente do Fluminense, Gil Carneiro de Mendonça, assinou o documento, irritando diretoria e jogadores.

 

 

13/09/1996

Santos não perde pontos no caso Usuriaga, Página E1

STJD decidiu que clube não teve má-fé e instaurou inquérito contra diretor da CBF

Rio – O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) considerou improcedente o pedido de retirada de cinco pontos do Santos por ter utilizado o atleta Usuriaga sem condições de jogo na partida contra o Fluminense, dia 22 de agosto, no Estádio Ícaro de Castro Melo, pelo Campeonato Brasileiro. Por 10 votos a 1, os auditores concluíram que não houve má-fé do clube paulista. Foi aprovada proposta para instauração de inquérito contra o diretor de registro da confederação Brasileira de Futebol (CBF), Luiz Gustavo, por ter induzido o clube ao erro.

(…)

Para Navega (Carlos Antônio Navega, auditor do STJD na época), o Departamento de Registro da CBF jamais poderia ter dado condições de jogo a Usuriaga sem que a Associação de Futebol Argentino tivesse confirmado a transferência do jogador colombiano. “A CBF não foi feita para errar, afirmou Zveiter.

 

Os auditores enalteceram a “honestidade” do presidente do Santos, Samir Abdul Haack, que prestou depoimento em plenário. O dirigente admitiu que foi informado pelo diretor jurídico da CBF, Carlos Eugênio Lopes, e pelo presidente da entidade, Ricardo Teixeira, por telefone, sobre a retirada da condição de jogo de Usuriaga, quando se dirigia em seu carro para o estádio no Ibirapuera. “Cheguei lá ante de o jogo começar, atravessei o campo e fui falar com o meu vice-presidente”, contou, referindo-se ao ex-jogador Clodoaldo. “Ele disse que o representante da CBF no jogo aceitara o cartão de inscrição do atleta e que estava tudo resolvido”.

 

Após ouvir o relato do presidente do Santos, o auditor Evaristo de Moraes Filho ficou surpreso. “Achei o dirigente de uma lealdade incrível, porque tinha quase certeza de que iria dizer que chegara ao estádio após o jogo ter começado”, comentou. “Pensava que ele tinha acabado com a própria defesa”. Em seguida, ao proferir seu voto, interpretou a atitude da CBF como “uma comédia pastelão”. Bastava que tivessem ligado diretamente para o representante da entidade no jogo ou para o juiz e informado que o Usuriaga não poderia ser escalado.”

 

O advogado do Santos, José Mauro Couto, pautou a defesa justamente no fato de o clube ter confiado no cartão expedido pela Federação paulista de Futebol, dando condições de jogo a Usuriaga, momentos antes da partida. “O que houve no contato entre os dirigentes da CBF e o presidente do Santos foi uma conversa entre amigos”, observou. Segundo ele, ficou claro que o Santos foi induzido ao erro pelo próprio representante da CBF na partida, Gustavo Caetano.

 

O voto do relator do processo, Marco Aurélio Pachá, foi favorável ao Santos. “Retirar a condição de jogo em cima da partida era impossível”, alegou, sendo acompanhando pelos demais auditores. O único voto contrário foi de Paulo César Salomão. Ele se disse surpreso com a decisão do STJD, porque considerava que o artigo 301 do CBDF (usar atleta sem condição de jogo) deveria ter sido aplicado. “O presidente do Santos soube na conversa com o presidente da CBF e com o diretor jurídico que o jogador estava irregular, mas mesmo assim foi consultar o representante da partida.”

 

Antes de a defesa começar a ser ouvida, o presidente do STJD Luiz Zveiter, indeferiu pedido do Fluminense, que queria participar como terceiro interessado. O presidente do Santos, Samil Abdul Haack, considerou o resultado “uma vitória do futebol brasileiro”.

 

 

Nos dias 12, data do julgamento no STJD, e 13, primeiro dia após o julgamento, o Globo não noticiou uma única linha relacionada ao Caso Usuriaga.

 

 

Conclusão

O Brasileiro de 1996 foi disputado por 24 clubes com uma Fase Classificatória em turno único e uma Fase Final no formato de torneio a partir das quartas-de-final. O Santos fez uma campanha tão ruim quanto o Fluminense, terminando na 20ª posição com 27 pontos. O Fluminense terminou na 23ª posição com 22 pontos.

 

Se a perda de pontos tivesse ocorrido, ela teria ocorrido entre a 9ª e a 10ª rodada, e não após o final da Fase Classificatória. Portanto, não é correto simplesmente tirar cinco pontos da pontuação final do Santos. Se esse fosse o caso, ele terminaria com 22 pontos, mesma pontuação do Fluminense. O problema é que o Fluminense teria sido rebaixado da mesma forma, mas pelos critérios de desempate: o Santos teve mais vitórias, 7×6; marcou a mesma quantidade de gols, 26, mas teve melhor saldo de gols, menos 5 contra menos 24 do Fluminense. Relembrando: se o Santos tivesse sido punido, ele perderia cinco pontos, nenhum deles seria repassado ao Fluminense e o resultado da partida teria sido mantido.

 

É impossível calcular as consequências da perda desses cinco pontos, mas posso dizer que a luta contra o rebaixamento teria sido reescrita. Para entendermos isso, temos que dividir o campeonato em três momentos: da 1ª a 9ª rodada, da 10ª a 16ª rodada e da 17ª a 23ª rodada.

 

Na 9ª rodada, o Santos tinha 14 pontos (4 vitórias, 2 empates e três derrotas), o Fluminense tinha 8 (duas vitórias, dois empates e 5 derrotas), o Criciúma tinha 9 (duas vitórias, três empates e quatro derrotas) e o Bahia apenas 6 (uma vitória, três empates e cinco derrotas).

 

Com a perda de pontos, o Santos teria ficado com 9 pontos no somatório, afundando de vez na briga contra o rebaixamento.

 

Da 10ª a 16ª rodada, o Santos iniciou uma sequência pavorosa de jogos com dois empates e cinco derrotas, somando dois pontos. O Bahia teve quatro empates e duas derrotas, somando quatro pontos. O Criciúma teve uma sequência igual à do Santos com dois empates e cinco derrotas. O Fluminense se saiu melhor: duas vitórias, dois empates e três derrotas, somando 8 pontos.

 

O Fluminense chegou à 17ª rodada com 16 pontos, contra 11 do Criciúma e 10 do Bahia. O Santos teria chegado com 11 pontos.

 

Nas últimas 7 rodadas, o Fluminense teve 5 derrotas seguidas, selando seu destino no campeonato, e duas vitórias nas últimas duas rodadas, quando já não dependia mais de si. O Santos teve 3 vitórias, dois empates e duas derrotas, somando 8 pontos; o Bahia teve três vitórias, um empate e três derrotas, somando 10 pontos, e o Criciúma teve quatro vitórias e três derrotas, somando 12 pontos. Contudo, não podemos nos esquecer do Flamengo entregando seus jogos para Cricúma e Bahia, o juiz inventando um pênalti para o Bahia derrotar o Vasco (21ª rodada) e o Atheltico-PR entregando para o Criciúma.

 

O Santos, que fez uma péssima sequência da 10ª a 16ª rodada, poderia ter chegado às últimas sete rodadas do campeonato extremamente pressionado pela possibilidade de rebaixamento, afetando assim o seu desempenho nesta sequência, criando um fator novo para o Fluminense, que na reta final, brigou apenas contra Bahia e Criciúma.

 

Agora, também não é demais lembrar que se o Fluminense tivesse obtido um único ponto nessa sequência de cinco derrotas, ele não teria sido rebaixado para a Série B de 1997 (o rebaixado teria sido o Bahia pelo critério de desempate), nossa história teria sido diferente, eu não teria feito essa análise maluca, esse texto não existiria e quem chegou até aqui teria feito outra coisa. O Caso Usuriaga teria existido da mesma forma, mas teria sido indiferente para nós.

 

O Caso Usuriaga foi abafado na cara de todo mundo. To-do-mun-do. É fato que houve uma lambança administrativa por parte da CBF, mas a entidade, na figura do seu presidente e do seu diretor jurídico, ligou para o presidente do Santos, antes da partida, e o informou que o jogador Usuriaga não tinha condições de jogo. Não era um qualquer ligando para outro qualquer. Tanto que o próprio presidente do Santos reconheceu isso na frente de todo mundo no julgamento. Essa ligação foi transformada no STJD numa conversa entre amigos. No dia do julgamento no STJD, não deixaram nem mesmo o advogado do Fluminense participar.

 

Com relação a participação do advogado, podemos fazer um paralelo com o Brasileiro de 2013, quando o Fluminense foi criticado por ter participado dos julgamentos no STJD dos Casos André Santos, do Flamengo, e Hérverton, da Portuguesa, como parte interessada. O clube foi representado e defendido pelo seu atual presidente, Mário Bittencourt. Imaginem o que poderia ter acontecido se o clube não tivesse comparecido ou se não o tivessem deixado participar como em 1996…

 

Mario Bittencourt durante o julgamento do recurso da Portuguesa no STJD

Mário Bittencourt, hoje presidente do Fluminense, foi o responsável pela defesa do clube  como parte interessada nos julgamentos dos Casos André Santos e Héverton em 2013. Em 1996, não deixaram o advogado do Fluminense participar do julgamento do Caso Usuriaga.

 

 

Outra coisa é o comportamento do presidente do Fluminense na época, Gil Carneiro de Mendonça, uma presidência que nunca deveria ter existido na história do clube. Este senhor assinou um documento do Clube dos 13 apoiando o Santos em detrimento do Fluminense. É possível entender isso? Fazendo esse texto, fico imaginando a reação da diretoria, da comissão técnica e dos jogadores quando souberam disso. Já vi muita maluquice no Fluminense, muitas em nome da fidalguia, e garanto que essa foi, disparada, uma das maiores imbecilidades, uma das maiores idiotices da história do clube. Acho que foi daí que surgiu essa história, que não reflete a realidade, de que o Fluminense teria aberto mão de correr atrás da punição do Santos. À revelia de um dos piores presidentes da história do clube (e olha que esse páreo tem uma concorrência muito grande), o clube correu atrás sim, mas a operação para abafar esse caso foi muito grande, com a CBF transferindo uma decisão sua para o STJD, onde a responsabilidade acabaria sendo pulverizada no plenário.

 

Gil, seu nome jamais será esquecido.

 

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Gil Carneiro de Mendonça, um dos piores presidentes do Fluminense

 

 

O ponto é que ao invés de abrir uma champanhe, o presidente do Santos agradeceu, voltou para casa e tocou a vida. É por essas e outras que existem casos que são esquecidos e outros que são eternamente ranhetados.

 

Obrigado, Barcellos.

 

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Álvaro Barcellos, um dos piores presidentes do Fluminense

 

 

Três anos depois, um caso similar ocorreu no Brasileiro de 1999, tendo um desfecho completamente diferente. Trata-se do Caso Sandro Hiroshi.

 

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Sandro Hiroshi em ação na goleada de 6×1 do São Paulo sobre o Botafogo, pela segunda rodada do Brasileiro de 1999, 04/08/1999.

 

 

Hiroshi começou sua carreira no Tocantinópolis-TO. Em 1999 se transferiu para o Rio Branco de Americana e, ao final do Estadual, foi contratado, aos 19 anos de idade, pelo São Paulo para a disputa do campeonato brasileiro. Após a contratação do jogador, houve uma divergência entre o Tocantinópolis, que cobrava parte do valor da negociação, e o Rio Branco, que dizia não dever nada para o clube de Tocantins. A CBF bloqueou o passe do jogador até que o problema entre os dois clubes fosse resolvido. O bloqueio significava que o São Paulo não poderia negociar o jogador até que se resolvesse essa pendência, mas poderia utilizá-lo normalmente em suas partidas.

 

O STJD, presidido na época por Sérgio Zveiter, torcedor do Botafogo, irmão do Luiz Zveiter, presidente do STJD no Caso Usuriaga, também torcedor do Botafogo, transformou essa tecnicidade sem importância na tábua de salvação do clube alvi-negro para evitar o seu rebaixamento para a Série B de 2000.

 

Para que tudo desse certo, o rebaixado seria o Gama. O problema é que o clube brasiliense não aceitou passivamente, chutou o balde e lutou feito um leão na Justiça Comum, humilhando a CBF, o STJD e o Botafogo. Isso não estava previsto. Quando a situação saiu de controle e a FIFA deu uma dura na CBF cobrando a solução da encrenca, a CBF abriu mão de organizar o campeonato, passando a responsabilidade aos clubes. Assim nasceu a Copa João Havelange.

 

A propósito, você sabia que dos 21 jogos da Fase Classificatória do Brasileiro de 1999, Sandro Hiroshi participou de 16 jogos do São Paulo (oito vitórias, dois empates e seis derrotas)? Você já leu isso em algum lugar? Pois é…

 

Dos 10 clubes que perderam pontos para o São Paulo, sete ingressaram com recursos: Botafogo (1×6), Internacional-RS (2×2), Atlético-MG (1×5), Vasco (1×2), Guarani (2×3), Coritiba (1×2) e Botafogo-SP (0x1). Não entraram com recursos Grêmio (0x4), Juventude (0x2) e Palmeiras (0x0).

 

Quando o São Paulo se deu conta do problema, deixou de escalar o jogador a partir da 18ª rodada. Se o São Paulo tivesse perdido todos os pontos das partidas em que pontuou com Sandro Hiroshi em campo, ele teria sido rebaixado para a Série B no lugar do Botafogo. Quando os paulistas perceberam o que estava acontecendo, se uniram e ameaçaram se retirar do campeonato (isso foi no final da Fase Classificatória). Os paulistas não são como os clubes cariocas. Quando sacaneiam um deles, eles deixam as diferenças de lado e se unem (isso aconteceu em 1986 quando a Portuguesa foi sacaneada). No Rio, não. O adversário cospe na sua cara, te empurra no penhasco e ainda fica rindo da sua cara durante a queda.

 

A CBF e o STJD tiraram cirurgicamente apenas os pontos do São Paulo nos jogos contra o Botafogo (6×1) e Internacional-RS (2×2). Nos demais casos, inventaram um monte de histórias para que os processos fossem indeferidos (prazos perdidos, taxas que não foram pagas, etc) ou até mesmo retirados pelos próprios clubes. O São Paulo tinha que perder os pontos na medida certa para que Botafogo e Internacional-RS fossem salvos, de forma a que ele, São Paulo, não corresse risco de rebaixamento e não deixasse de se classificar para a Fase Final (se classificou e foi eliminado nas semifinais pelo Corinthians, que conquistou o campeonato).

 

Os três pontos recebidos pelo Internacional-RS serviram como um seguro pois o time conseguiu se salvar no campo. Quando o clube gaúcho recebeu esses pontos, ainda faltavam algumas rodadas para o final do campeonato, então não se sabia o que poderia acontecer. No caso do Botafogo, esses três pontos foram fundamentais.

 

Voltando a 2013, quando Flamengo e Portuguesa perderam os pontos, eles não foram repassados aos clubes oponentes (Cruzeiro, no caso do Flamengo, e Grêmio, no caso da Portuguesa).

 

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Héverton atuando pela Portuguesa.

 

 

Uma pergunta: se o Héverton não tivesse entrado em campo, quem teria sido rebaixado? Flamengo ou Fluminense?

 

“Uma vez Flamengo, sempre Flamengo.”

 

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André Santos jogou suspenso no jogo Flamengo 1×1 Cruzeiro, 07/12/2013. 24 horas depois, Héverton entrou em campo suspenso na partida Portuguesa 0x0 Grêmio, 08/12/2013, após o Fluminense empatar a partida contra o Bahia. Como o Fluminense venceu o Bahia por 2×1, se Héverton não tivesse entrado em campo, o Flamengo teria sido rebaixado em 2013.

 

 

Em 1996, o Santos tinha consciência do que estava fazendo. Em 1999, o São Paulo não tinha como ter, pois até mesmo a situação de Sandro Hiroshi era regular!!!!! Se o STJD tivesse procedido no Caso Sandro Hiroshi, da mesma forma que procedeu injustificadamente no Caso Usuriaga, o São Paulo não teria sido punido, o Botafogo teria sido rebaixado para a Série B de 2000 e a Copa João Havelange nunca teria existido.

 

Vou mais longe: considerando a campanha do Fluminense na Fase Classificatória da Copa João Havelange de 2000 (3º colocado em 25 times), nós poderíamos ter sido campeões da Série B de 2000. Se não tivéssemos retornado como campeões, teríamos retornado em uma das quatro primeiras colocações. Tínhamos um bom time, muito bem organizado pelo Espinoza, e o nosso único adversário teria sido o São Caetano.

 

Hoje em dia, mal se consegue explicar o Caso Sandro Hiroshi, e quando se tenta explicar, muitas vezes se fala que o problema foi a adulteração de sua idade, o famoso “gato”. Não foi isso não. O problema da idade apareceu depois. Para piorar, foi o Fluminense que subiu da terceira para a primeira divisão. Do Caso Usuriaga quase ninguém mais se lembra.

 

Mas não importa. No final, quem não presta no futebol brasileiro é o Fluminense.

 

 

Nota: Usuriaga foi assassinado em Cali, na Colômbia, no dia 11 de fevereiro de 2004, um ano depois de encerrar a sua carreira.

 

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Usuriaga em ação pelo Independiente, clube pelo qual marcou história

 

 

Todas as fotos foram obtidas na internet.

 

 

Links:

Campeonato Brasileiro de 1996 (link);

Campeonato Brasileiro de 1999 (link);

Campeonato Brasileiro de 2000 (link);

Campeonato Brasileiro de 2013 (link).

 

 

 

Jorge Priori é torcedor do Fluminense e gosta muito de história.