Não houve quem soubesse promover os jogos do Bangu melhor do que o presidente do biênio 1929/1930, Antônio Pedroso Reis. Um senhor gordo, que só andava de terno branco, simpático com a imprensa, administrador do necrotério municipal, incentivador das grandes excursões do clube, tanto que no seu mandato, o alvirrubro foi a Salvador em janeiro de 1930 e a Recife em agosto do mesmo ano. “Seu” Pedroso voltou encantado da Bahia. “Que povo aquele! Ruy Barbosa adivinhou nascendo naquela terra bendita!” – declarou ao desembarcar do paquete “Almirante Alexandrino” no porto do Rio de Janeiro.

 

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O certo é que, além dos cinco jogos que o Bangu fez no campo da Graça, o Coronel Pedroso aproveitou a excursão para aumentar o contato com os terreiros de Salvador. A partir de então, antes de cada jogo do Campeonato Carioca de 1930, o presidente do Bangu declarava aos jornalistas: “Com a fé de Ogum, a proteção de São Miguel e a força do caboclo Rompe Matto, os meus meninos pisarão a cancha certos na vitória!”. Pelo sim, pelo não, o Bangu venceu como nunca em 1930: foram 22 vitórias em 37 jogos.

 

Todo fim de tarde, lá ia o presidente para o “Café Agricultura”, no mercado da Praça XV fazer sua resenha com os jornalistas, principalmente dos diários “A Batalha” e “Crítica”, este de propriedade de Mário Rodrigues, pai de Mário Filho e Nelson Rodrigues.

 

Certa vez, antes de um choque duríssimo contra o Vasco, “seu” Pedroso tratou de por medo nos jogadores vascaínos, afinal, muitos jogadores acreditavam cegamente que as forças do além interferiam no que acontecia nos gramados. Tudo foi combinado com o repórter do jornal “Crítica” que “flagrou” o presidente do Bangu fazendo um despacho na porta do estádio de São Januário à meia-noite. Mais que uma simples história curiosa, o sensacionalista “Crítica” fez uma matéria de página inteira, inclusive com uma foto do Coronel Pedroso, com seu terno branco, gravata, sapato bicolor preto e branco, ajoelhado perto de uma garrafa e uma vela. “Vai ser lambada certa. As comidas foram bem aceitas” – disse o presidente dos Mulatinhos Rosados, apelido carinhoso que ele mesmo criara. Para logo em seguida emendar: “Mas essa Crítica tudo descobre, não deixa a gente viver caladinho, de tudo faz alarde!”

 

Pedroso Reis fez, ao seu modo, os jogadores do Bangu deixarem de ter medo quando atuavam fora da Rua Ferrer. Amparado no misticismo que fazia questão de divulgar, mas também com um elenco muito forte, com Domingos da Guia, Sá Pinto, Ladislau, Médio, Jaguarão, fez os Mulatinhos Rosados serem um adversário indigesto para os outros clubes. Seu sucessor, José Alberto Guimarães, melhorou ainda mais o time e alcançou o inédito título de campeão carioca em 1933, trazendo nomes como Sobral (do América), Tião (do Del Castilho), Euclides (do Kosmos) e Ferro (do Andarahy).

 

Em 1936, porém, ‘seu’ Pedroso era presidente do Engenho de Dentro A. C. e o Bangu atravessava uma má fase. De uma só vez emprestou para o alvirrubro seis jogadores, mas só o meia-atacante Antônio “Meu Filho” vingou na Rua Ferrer. Nessa época de “vacas magras”, o goleiro Zezé se lembrou das mandingas que o antigo presidente fazia para manter o Bangu invicto quando jogava em casa:

 

“No tempo em que o Coronel Pedroso foi presidente do grêmio alvirrubro, o campo foi devidamente abençoado e ninguém conseguiria quebrar o encanto, enquanto não fosse substituído aquele benemérito presidente. Mas ‘seu’ Pedroso deixou de ser banguense e, desde então, os clubes da cidade já começaram a empatar lá em cima, e pouco depois, até mesmo vitórias já se registravam, passando os hereges a desrespeitar definitivamente aquele gramado abençoado. Eu fui daquele tempo e conheço o segredo de que se serviu ‘seu’ Pedroso”.

 

Ladislau, o expoente máximo dos Mulatinhos Rosados, estava em grande fase no Campeonato Carioca de 1938. Tinha feito um gol no Madureira, um gol no Fluminense e três gols no Bonsucesso. Na semana que jogaria contra o Botafogo, um repórter do jornal O Radical quis saber o segredo do sucesso.

 

“Já tracei os meus pauzinhos lá em Bangu e a promessa que fiz a Ogum não pode falhar. Temos sido a diferença do Glorioso e acredito que a escrita ficará de pé. Aymoré [goleiro do Botafogo] irá ter a mesma sorte de Inglês [goleiro do Bonsucesso, que levou seis gols no fim de semana anterior]. Vamos papar de colher”.

 

Pelo menos, no futebol dos anos 30, como Mário Filho já descrevera no livro “O negro no futebol brasileiro”, de 1947, e como descobriria, em 1956, o historiador alemão Anatol Rosenfeld, macumba era assunto muito sério.

 

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Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.