O Fluminense e o enigma da Libertadores de 2008

O Fluminense possui alguns mistérios assombrosos. Recentemente, um amigo, que conhece como poucos a história do clube, Paulo Cezar Filho, me recordou de um detalhe que eu nunca tinha compreendido como um todo: a ida do time para Quito, no Equador, para a final da Libertadores de 2008.

 

Para que possamos analisar melhor essa questão, temos que remontar o contexto da reta final da Libertadores daquele ano.

 

A PARALISAÇÃO DA LIBERTADORES 2008

Depois da conclusão das semifinais da Libertadores de 2008, ocorrida no dia 04/06/2008, após o Fluminense se classificar eliminando o Boca Juniors no Maracanã por 3×1, a competição deu uma parada por causa das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010. Ela seria retomada 20 dias depois, quando seria realizada a primeira partida da final entre Fluminense e LDU em Quito, no dia 25 de junho de 2008.

 

Pelas Eliminatórias, a Seleção Brasileira perdeu para o Paraguai por 2×0 no dia 15/06/2008 e empatou com a Argentina em 0x0 no dia 18/06/2008.

 

A LIBERTADORES PAROU, MAS O BRASILEIRO NÃO

Enquanto a Libertadores foi paralisada, o Campeonato Brasileiro de 2008 seguiu sendo disputado.

 

Como o Fluminense fazia uma ótima campanha na Libertadores, o clube decidiu disputar as quatro primeiras rodadas do Brasileiro com um time reserva, com exceção do Fernando Henrique. Com essa decisão, o Fluminense obteve um empate e três derrotas:

 

1ª Rodada, Atlético-MG 0x0 Fluminense, 11/05/2008

Fernando Henrique, Carlinhos, Sandro, Anderson, Dieguinho, Fabinho, Romeu, David (Fernando), Arouca (Leo), Alan e Tartá (Marinho);

 

2ª Rodada, Fluminense 0x2 Náutico, 18/05/2008

Fernando Henrique, Carlinhos (Dori), Sandro, Anderson, Dieguinho, Maurício, Romeu, David (Felipe), Marinho, Alan e Leo (Maicon);

 

3ª Rodada, Sport-PE 2×1 Fluminense, 25/05/2008

Fernando Henrique, Carlinhos, Anderson, Roger, Dieguinho, Fabinho, Maurício, Romeu (Leo), David (Alan), Arouca (Marinho) e Dodô;

 

4ª Rodada, Fluminense 0x1 Flamengo, 01/06/2008

Fernando Henrique, Sandro, Anderson, Roger, Carlinhos (Leo), Fabinho, Romeu, Maurício (Alan), David (Marinho), Dieguinho e Dodô.

 

Na época, eu não via com bons olhos essa decisão tomada pelo Renato e aceita pelo clube. Uma coisa é um time inteiro de reservas. Outra é um time misto com alguns titulares. Pode parecer que a diferença não é tão grande, mas ela é gigantesca. Era uma situação curiosa. O time, que ia muito bem na Libertadores, terminou a quarta rodada do campeonato ocupando a 20ª colocação do Brasileiro, segurando a lanterna da competição. Isso era inacreditável, mas como havia uma Libertadores em jogo, não se questionava nada. A derrota para o Flamengo foi extremamente irritante. Ela foi obtida com um gol de pênalti aos 42 minutos do segundo tempo convertido pelo Leonardo Moura (eu faço parte de um grupo em extinção na torcida do Fluminense que pensa que todo clássico tem que ser levado a sério e toda competição tem que ser disputada para ser vencida). Mas não adiantava a torcida reclamar. Na cabeça do Renato, isso fazia sentido. Foi nesse contexto que o Renato soltou algumas pérolas para justificar desempenhos tão díspares nas duas competições como “a chance dessas equipes é disparar agora, e não estão disparando tanto assim. Daqui a pouco o Fluminense vem com força total” ou “o Fluminense está a 5 metros da próxima Libertadores enquanto as outras equipes, que estão disputando o Brasileiro, estão a 5 mil quilômetros”.

 

Enfim…

 

Enfim que veio a parada da Libertadores com o Fluminense classificado para a final. Entre a parada da Libertadores e a sua retomada, tivemos 4 rodadas pelo Brasileiro:

 

5ª Rodada, Grêmio 2×1 Fluminense, 08/06/2008

Fernando Henrique, Carlinhos, Thiago Silva, Luiz Alberto, Roger, Ygor (Arouca), Conca, Washington (Tartá) e Dodô;

 

6ª Rodada, Fluminense 1×1 Santos, 12/06/2008

Fernando Henrique, Gabriel, Roger, Luiz Alberto, Junior Cesar, Ygor, Arouca (Maurício), Conca (Marinho), Washington e Dodô (Tartá);

 

7ª Rodada, Coritiba 2×1 Fluminense, 21/06/2008

Fernando Henrique, Carlinhos, Anderson, Roger, Uendel, Fabinho, Romeu (Marinho), Maurício, David (Alan), Tartá (Leo) e Dodô;

 

8ª Rodada, Fluminense 0x0 Botafogo, 29/06/2008

Fernando Henrique, Rafael, Sandro, Anderson, Uendel, Fabinho, Romeu (Fernando), Maurício, David (Leo), Tartá e Alan (Somália).

 

Analisando essas quatro escalações, vemos que o Fluminense levou a maioria dos titulares nos jogos contra o Grêmio e Santos. Nas partidas contra Coritiba e Botafogo, voltamos ao time composto por reservas, com exceção do Fernando Henrique. Isso já tinha em vista a aproximação da primeira partida da decisão da Libertadores.

 

Observem que mesmo com a maioria dos titulares nas partidas contra Grêmio e Santos, o Fluminense não venceu os jogos. Isso já indicava que o time havia desprezado por completo o Brasileiro, o que seria um grande erro. É importante relembrar que quando a Libertadores terminou, o clube não voltou atropelando ninguém, e só se safou do rebaixamento nas últimas rodadas, já sob o comando de René Simões.

 

Terminada a oitava rodada, o Fluminense seguia para Quito para decidir a Libertadores segurando a lanterna do Campeonato Brasileiro.

 

O GRANDE ENIGMA

Considerando o contexto apresentado, onde o time havia incorporado a ideia de focar 100% na Libertadores e desprezar por completo o Campeonato Brasileiro, faço a pergunta:

 

POR QUE O FLUMINENSE NÃO ENVIOU O TIME PARA QUITO APÓS A VITÓRIA POR 3X1 CONTRA O BOCA JUNIOS PARA SE ADAPTAR E SE PREPARAR PARA O PRIMEIRO JOGO DA DECISÃO?????

 

O Fluminense teve 21 dias entre as duas partidas, ou seja, 3 semanas. O clube poderia ter enviado o time 3 semanas antes, duas semanas antes, ou até mesmo uma semana antes, o que já faria uma grande diferença. Contudo, o clube decidiu enviar o time para Quito no dia 23 de junho de 2008, segunda-feira, para disputar a partida que seria realizada dois dias depois, na quarta-feira, 25 de junho de 2008.

 

Resultado: LDU 4×2 Fluminense (1×0, 1×1, 4×1 e 4×2).

 

Eu sempre escutei que quando um time, acostumado ao nível do mar, vai disputar uma partida num local de altitude elevada, como Quito, por exemplo, ele tem duas opções: ir com uma grande antecedência para se adaptar à altitude ou chegar pouco antes da partida para disputá-la. Mesmo sem conhecimento técnico sobre esse assunto, sempre vi com reservas essa história de chegar um pouco antes da partida. Não tenho dados estatísticos, mas tenho a percepção de que o time que chega antes, colhe melhores resultados. Só lembrando: no dia 01/04/2009, pelas Eliminatórias da Copa de 2010, a Argentina inventou de chegar um pouco antes da partida contra a Bolívia em La Paz, e voltou com uma goleada de 6×1 na bagagem (Messi estava em campo).

 

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Bolívia 6×1 Argentina, Eliminatórios da Copa do Mundo de 2010. Foto: Globoesporte.com

 

É por isso que eu não entendo como um clube que havia priorizado a Libertadores, desprezado o Brasileiro, que teve a paralisação da Libertadores por causa das Eliminatórias da Copa de 2010, não enviou o time com pelo menos uma semana de antecedência, uma semana que fosse, da primeira partida da final para Quito. Digo uma semana pois poderia ter sido duas ou até mesmo três semanas. Mas não, o Fluminense enviou seu time, para disputar o maior título de sua história, dois dias antes da partida. Outro fato que corrobora a estupidez dessa decisão é que o vôo não é curto. Muito provavelmente, o itinerário da viagem foi Rio, São Paulo, Buenos Aires, Santiago, Lima e Quito. Isso dois dias antes da decisão. E o clube ainda gastou onda dizendo que havia colocado um jogador por fileira para que eles pudessem esticar as pernas nas duas poltronas ao lado…

 

Pode-se questionar se a paralisação da Libertadores atrapalhou o Fluminense. Na minha opinião, sim, mas isso não pode ser utilizado como desculpa. Se o Fluminense tivesse jogado a final logo depois da semifinal, acredito que todos no clube teriam ficado mais ligados. Considerando esse cenário, talvez o time fosse enviado para Quito com uma antecedência maior do que míseros, MÍ-SE-ROS, dois dias. Mas o ponto é que a paralisação da Libertadores, por causa das Eliminatórias disputadas de Outubro de 2007 a Outubro de 2009, era de conhecimento de todos, antes mesmo do início da própria Libertadores. Portanto, se um clube queria conquistar a Libertadores, ele tinha que se preparar para essa paralisação de três semanas entre a semifinal e a final. Assim, essa desculpa não é válida.

 

Da mesma forma que muitos torcedores do Fluminense, não há uma semana da minha vida em que eu não me lembre dessa Libertadores. Infelizmente, num momento crucial de sua história, o clube se mostrou completamente despreparado e incompetente para conquistar esse título contra um time que no pau-a-pau, não tinha condições de vencer o time do Fluminense da época.

 

Esse mesmo despreparo, essa mesma incompetência, foi demonstrada pelo clube no ano seguinte, na decisão da Sul-Americana contra a mesma LDU. No dia 22 de novembro de 2009, domingo, o Fluminense venceu o Sport-PE na Ilha do Retiro por 3×0 e se mandou para Quito para o primeiro da decisão da Sul-Americana. Aqui, a questão não é antecedência, pois o Fluminense lutava contra um rebaixamento que chegou a ser dado como certo, mas a forma como o time foi para Quito. Ao invés de fretar um vôo que saísse de Recife e fosse direto para Quito, o clube colocou o time novamente num vôo comercial. Provavelmente, o itinerário foi Recife, Rio, São Paulo, Buenos Aires, Santiago, Lima e Quito. Resultado: LDU 5×1 (1×1, 1×1, 5×1). Esse tipo de decisão, fretar um vôo para levar o time para uma decisão ao invés de despachá-lo num vôo comercial, é o que faz de um clube vencedor.

 

Uma vez, eu li uma entrevista do ex-jogador argentino Claudio Borghi (ele foi campeão da Copa de 1986 e teve uma passagem apagada pelo Flamengo em 1990). Borghi fez parte do time do Argentino Juniors que venceu a Libertadores de 1985 e foi disputar a Toyota Cup contra a Juventus da Itália (inclusive, na Fase Classificatória da Libertadores de 1985, o Argentino Juniors venceu o Fluminense no Maracanã e na Argentina, os dois jogos por 1×0; recentemente, a Flu Vintage Classic publicou um vídeo argentino da derrota no Maracanã).

 

A Toyota Cup foi vencida pelo clube italiano nos pênaltis por 4×2, depois do empate por 2×2 no tempo normal e 0x0 na prorrogação. Na entrevista, Borghi dizia que terminada a decisão, a sua maior tristeza não era ter perdido o título, mas saber que nunca mais voltaria a uma decisão de um mundial de clubes.

 

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Links:

Copa Libertadores 2008 (link)

Campeonato Brasileiro 2008 (link)

Campeonato Brasileiro 2009 (link)

Copa Sul-Americana 2009 (link)

Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010 (link)

Toyota Cup 1985 (link)

 

 

Jorge Priori é torcedor do Fluminense e gosta muito de história.

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