“O futebol naquela fase era mais artístico. Os jogos apresentavam lances de alto nível. Os domingos nos estádios eram grandes acontecimentos sociais e esportivos. As damas e os cavalheiros iam para os jogos com roupas elegantes. As misses dos clubes e das cidades eram homenageadas antes das partidas e os clubes trocavam corbeilles no centro do gramado. No fim dos jogos, normalmente, as diretorias e os jogadores se confraternizavam nas festas dos clubes que davam o campo. Muitas vezes, aqui em Bangu, houve dessas festas”.

 

Nascido em Bangu em 1908, Vivi, tocava piano nas festas do bairro e, de quebra, ainda fez 23 partidas pelo time nos anos 30. Quando deu esse depoimento ao Jornal do Brasil, em 1983, Vivi certamente estava com saudades de uma época que não volta mais. O glamour dos primeiros anos do futebol no Rio de Janeiro, as tardes de domingo na Rua Ferrer, o tempo dos jogadores amadores, que não conheciam ainda as vantagens do profissionalismo, como bem relembrou Victorino, um antigo jogador do Vasco dos anos 10:

 

“Como é diferente o futebol do meu tempo. Nem o metal pervertedor, nem o profissionalismo desbragado. Naquele tempo, não havia o que hoje se chama bicho, que consiste em determinada quantia que o jogador recebe para condução. No meu tempo, o único bicho era a vaquinha. Os jogadores cotizavam-se e formavam uma vaquinha para pagamento do automóvel”.

 

O futebol romântico e ingênuo das duas primeiras décadas do século XX começou a mudar a partir dos anos 20. Aqui e ali apareciam suspeitas de que nem todos os cavalheiros que participavam do jogo estavam em campo somente por esporte.

Logo no início da década, em 1921, um jornalista que escrevia no Suplemento Sportivo d´O Imparcial criticou a atitude do América, campeão em 1913 e em 1916, que pretendia melhorar sua equipe trazendo jogadores argentinos para atuar no Campeonato Carioca.

 

“Um outro club de elite – já campeão por duas vezes -, fala-se, está à espera de elementos importados do Rio da Prata. Triste atestado de decadência moral. (…) Continuemos a praticar o sport pelo sport. O título de campeão deve pertencer sempre a um, o que melhores e perfeitos elementos possuir na sua esquadra, mais adestrada e de conhecimentos técnicos. De que vale um título comprado? De que vale um campeonato nas mãos de profissionais?”

 

Em 1927, em pleno amadorismo, o jornal O Globo reclamava da “mercantilização” do futebol.

 

“[Antes] jogavam o football pelo prazer de jogar. Entre brasileiros, já houve muitos, mas que agora vão desaparecendo, tragados por uma onda possante de ambições e de grandezas materiais. (…) Iam enfrentar os adversários sem preocupações de automóveis, nem de jantares garantidos. (…) Agora andam transviados e que, entregues a uma ambição desvairada, convertem num negócio de compras e vendas a obra benemérita de tantos anos”.

 

Naqueles anos 20, o Vasco foi campeão carioca em 1923 com um elenco que, comprovadamente, recebia dinheiro, fosse em forma de bichos (premiações pelas vitórias), fosse em forma de empregos em comércios de portugueses, onde sequer precisavam trabalhar, ocupando o tempo livre com treinamentos:

 

“Jogador de futebol é um empregado com quem não se pode contar. Aparece então o caso do torcedor dono de casa comercial que emprega o seu craque, e que é o primeiro a mandá-lo sair cedo para treinar, e desculpar-lhe as faltas depois dos jogos. Mas isso é uma espécie de profissionalismo. O patrão não vê o empregado, vê o seu craque, e é por isso que o empregou” – constatou Lagarto, jogador do Fluminense, em entrevista ao O Globo.

 

A briga entre amadorismo e profissionalismo chegava até a Seleção Brasileira. Em 1923, a C.B.D. enviou ao Campeonato Sul-Americano, disputado em Montevidéu, uma equipe composta somente por jogadores cariocas e estritamente amadores. O resultado foram três derrotas nos três jogos que disputou. No regresso, o dirigente Rivadavia Meyer, intransigente defensor da permanência do futebol amador no Rio de Janeiro, declarou ao Correio da Manhã: “Voltamos sem nenhuma vitória no Sul-Americano, é verdade. Apesar de tudo, foi melhor do que se tivéssemos levado os mercenários paulistas, que só correm atrás da bola por dinheiro” – numa afirmação clara de que o “amadorismo marrom” (como era chamado o profissionalismo disfarçado) já era amplamente praticado na Paulicéia…

Jogador que mudava de clube constantemente era mal visto. Logo, era apelidado de Borboleta. Uma nota de O Imparcial, em 1921, dá a ideia do juízo que se fazia de quem não era fiel a uma só camisa:

 

“Segundo ouvimos ontem, em roda de sportsmen na Rua do Ouvidor, o center-half Sebastião Pinheiro (Villa) no campeonato deste ano irá jogar pelo Vasco da Gama. Não há dúvida que o Villa, em passagem de um clube para outro, ainda não encontrou segundo. Saiu ele do Bangu para o São Cristóvão, deste para o América, depois para o Engenho de Dentro, em seguida zarpou para o Mackenzie e agora quer ir fazer parte do Vasco. Já é voar…”

 

O voo (ou a mudança de clube) era, geralmente, para obter alguma vantagem em outra agremiação. Às vezes, a oferta de um emprego melhor. A saída de Domingos da Guia do Bangu, no final de 1931, foi cercada de polêmicas. Em Bangu, era mata-mosquitos. Ganhava um ninharia. O América ofereceu-lhe um emprego de lenhador, ganhando mais. O Vasco foi ainda mais esperto. Ofereceu a mesma quantia a Domingos para que ele não fizesse nada. Só se poupasse para o jogo de domingo. Com boletim de inscrição por três equipes diferentes, a diretoria do Bangu acabou excluindo Domingos do clube.

Quem queria ser amador? O atacante “borboleta” Ennes Teixeira, que atuara pelo Bangu em 1928, certamente não queria continuar expondo suas canelas em divididas todo final de semana. É dele uma frase que ficou famosa naqueles tempos: “O clube de futebol é a única casa de diversões que não paga aos seus palhaços”.

Russinho, craque vascaíno, recebia de forma velada uma contribuição a cada jogo que participava. Logo, resolveu expor ao jornalista Mário Filho, de O Globo, a anomalia da sua situação:

 

“Eu mesmo estou na dúvida, serei amador? Serei profissional? Já não digo profissional, mas serei amador na mais justa acepção do vocábulo? Eu recebo conduções de 100 mil réis, de 50 (mil réis) e de 30 (mil réis). Eu recebo e todos recebem, quem dá a condução é a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), é a AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos), são os clubes. Contra os uruguaios, os brasileiros receberam 100 mil réis de condução; contra os paulistas, na decisão do Campeonato Brasileiro, os cariocas receberam 50 (mil réis); contra o Botafogo eu recebi 30 mil réis. Veja bem as diferenças. Depende da importância do jogo, da renda que o jogo produz. E eu me pergunto: se eu não gasto nem 100 mil réis, nem 50, nem 30 de condução em um dia de jogo, a que título me dão o resto? Sim, a que título? Só poderá ser como gratificação e convenhamos que se for assim é pouco, é irrisório”.

 

Oswaldinho, grande craque do América, teceu ao jornal O Globo, em 1931, um panorama daqueles tempos em que o amadorismo agonizava e o futebol já começava a ser visto como um negócio altamente rentável.

 

“Antigamente, com 1$500 se assistia a uma grande partida de futebol. O público respeitava o jogador porque sabia que ele praticava o esporte por esporte. Os campos eram pequenos, as entradas baratas. Não se pensava em profissionalismo. As melhores famílias tinham seus representantes nas canchas. Os jogadores traziam as chuteiras de casa e iam para o campo de bonde. Os 22 homens que pisavam a cancha eram amadores. Não se queria renda. Queria-se a vitória”.

 

E continua:

 

“Que pode esperar o amador? Palmas. Elogios. Evidência fugaz. Passa tudo e nem o seu retrato estará no clube que ajudou a crescer. Se ele deixa de jogar, nem o conhecem mais. Só interessa a renda. Deixou de dar renda, para que lhe serve o amador? Por isso, o único caminho é o profissionalismo. O esporte passou a ser espetáculo. Cobrado como um grande espetáculo. Passou a ser uma fonte inesgotável de renda. E foi aí que ele deu o maior passo que podia dar para o profissionalismo”. 

 

Em novembro de 1928, o jornal Crítica noticiou que o Bangu esteve a pique de perder um grande jogador para o Vasco: o atacante Ladislau da Guia. O “Tijoleiro”, como era conhecido, resistiu bravamente a uma tentativa de tirá-lo da Rua Ferrer para atuar em São Januário, mediante alta soma de dinheiro. Empregado que era na Polícia Especial, Ladislau fez troça com a oferta vascaína e se manteve fiel ao Bangu:

 

“Certo club em evidência, que faz questão fechada de ser campeão para o ano, está empregando todos os recursos possíveis para obter a passagem de Ladislau para o seu bando. Não conseguindo por outros meios mais suasórios, lembraram-se seus diretores de atuar mais de rijo sobre o célebre ‘Tijolo Quente’. Foi, então, que Ladislau recebeu a tentadora proposta de 6:000$000 (seis contos de réis) para deixar o Bangu.

O jogador suburbano arregalou os olhos, aprumou-se todo e, depois de fazer alguns cálculos, como que estudando a sua futura situação, falou:

– Gente, a proposta só será aceita por 9:000$000 (nove contos de réis).

Os pescadores saíram e ainda não voltaram ao subúrbio.

Ladislau insiste em valorizar seu tijolo.

Quem dá mais?”

 

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.