Tricampeão carioca em 1919 – A chegada de dois grandes ídolos e a conquista do tricampeonato

Na primeira metade da década de dez chegaram às Laranjeiras dois jogadores que se tornaram ídolos da torcida tricolor. O inglês Harry Walfare, ex-jogador do Liverpool, e o goleiro Marcos Carneiro de Mendonça, vindo do América com seus irmãos.

 

Walfare estreou na derrota por 3 a 0 contra o Botafogo, no dia 31 de agosto de 1913, na última rodada do turno. Em 1914, ele marcou 8 gols e, com o americano Ojeda, foi o artilheiro do campeonato carioca. Em 1915, Walfare balançou as redes adversárias 16 vezes e terminou sozinho como artilheiro.

 

O Fluminense iniciou a campanha do tricampeonato de 1917, 18 e 19 sob a direção técnica do inglês Quincey Taylor. Nos dois últimos títulos, o técnico foi o uruguaio Ramon Platero.

 

Os números nos três anos correspondentes ao tricampeonato mostram a absoluta superioridade do Fluminense sobre seus adversários. Os três títulos foram conquistados antecipadamente.

 

Nas cinqüenta e quatro partidas, o tricolor obteve 44 vitórias, 5 empates e sofreu 5 derrotas. Marcou 178 gols e os atacantes Walfare com 18 gols, em 1917, 22 em 1919, e Zezé com 17, em 1918, foram os artilheiros nos anos do tri.

 

A melhor campanha aconteceu em 1919, quando o time tricolor conquistou o título com 13 vitórias e apenas 1 derrota. Em 1917, foram 14 vitórias, 2 empates e 2 derrotas e, em 18, os campeões obtiveram 13 vitórias, 3 empates e 2 derrotas.

 

Em 1917, o Fluminense encerrou o campeonato goleando o Andaraí por 7 a 2, mantendo a vantagem de dois pontos sobre o América.

 

Os tricolores asseguraram o bicampeonato, em 1918, após a vitória sobre o Mangueira por 2 a 0, na penúltima rodada, perdendo por WO o último jogo contra o Carioca, por causa da epidemia da gripe espanhola que atingiu vários de seus jogadores.

 

Há 100 anos, em 1919, o time tricolor conquistou o título com seis pontos de vantagem sobre o Flamengo. Nas duas rodadas finais, derrotou os rubro-negros por 4 a 0 e o América por 4 a 1.

 

Na conquista do tricampeonato, a equipe praticamente não mudou. Os destaques eram o goleiro Marcos, o zagueiro Chico Neto, o médio Fortes, a ala direita Mano e Zezé e o artilheiro Walfare, chamado de “Tanque Inglês”. A única mudança ocorreu na temporada de 1918, quando o ex banguense French entrou no lugar de Machado, que ocupou a ponta esquerda, saindo Moraes.

 

Marcos Carneiro de Mendonça nos falou sobre a sua saída do América e a ida para o Fluminense:

 

“O Belfort Duarte era um jogador excepcional, mas era um rapaz que achava que dificilmente nós jogadores do clube deveríamos ter adversários. Ele era um impulsivo. Ótimo jogador, ótimo preparador, influiu muito para o futebol do Rio de Janeiro melhorar, mas ele sempre tomava nossos adversários como inimigos. De maneira, que foi criando um ambiente, que nós colidíamos na família com esse ponto de vista. Acabamos por nos incompatibilizarmos e passamos todos para o Fluminense. Nós da família e alguns companheiros de clube. Foi daí por diante que eu passei a ser o gol keeper do Fluminense.

 

 Nós pagávamos mensalidade ao clube e jogávamos por gosto. Quando nós passamos para o Fluminense foi ótimo. Nós encontramos no Fluminense aquele ambiente que achávamos ter na vida, quer dizer o prolongamento real da família”.

 

 

Campeão carioca de 1959 – Zezé retorna às Laranjeiras

Em 1958, ano do supersuper [1], Zezé Moreira retornou ao clube no meio do campeonato carioca. Estreou com a vitória sobre o América por 1 a 0. O Fluminense terminou o campeonato com 14 pontos perdidos, a dois pontos dos três primeiros colocados: Botafogo, Flamengo e Vasco.

 

No ano seguinte, Zezé manteve a base da temporada anterior e levou o time para excursionar ao Nordeste, a fim de prepará-lo para o campeonato carioca de 1959.

 

Duas contratações se encaixaram com perfeição no conjunto tricolor: Edmilson e Maurinho. O primeiro veio do América, de Natal, e era a nova versão de Edson, do “timinho” campeão de 51. Com fôlego invejável e duro na marcação, possuía as qualidades admiradas por Zezé.

 

O ex-são-paulino Maurinho, craque consagrado, era um ponta driblador, veloz e com incrível impulsão. Ele e Escurinho, outro velocista, iam fácil à linha de fundo.

 

Waldo, grande chutador e artilheiro, era o comandante de ataque ideal. Zezé montou o meio-campo, recuando o incansável Telê para meia ao lado do eficiente Paulinho Omena. O time base formava com Castilho, Jair Marinho, Pinheiro, Clóvis e Altair; Edmilson, Telê e Paulinho Omena; Maurinho, Waldo e Escurinho.

 

Mais uma vez, a avaliação sobre o time do Fluminense, como aconteceu em 51, foi equivocada. Castilho, um dos maiores goleiros de todos os tempos, Jair Marinho, Pinheiro, Altair, Maurinho e Escurinho eram jogadores de seleção brasileira. Os outros, como Clóvis, Telê e Waldo, integraram à seleção carioca. Edmilson e Paulinho Omena eram bons jogadores. O Fluminense, campeão carioca de 1959, era um timaço!

 

A vitória diante do Madureira por 2 a 0, gols de Décio (contra) e Escurinho, na penúltima rodada, no dia 12 de dezembro de 1959, garantiu o título carioca.

 

O Fluminense encerrou o campeonato contra o Botafogo, no dia 20 de dezembro, no Maracanã. Os tricolores abriram a contagem por intermédio de Waldo e os alvinegros viraram o placar para 3 a 1. Faltavam dois minutos para o término do jogo quando Maurinho e Waldo empataram a partida. Após a saída do Botafogo, o time das Laranjeiras tomou a bola e Waldo partiu livre para marcar o 4º gol, quando o árbitro Eunápio de Queirós encerrou a partida. Grande Eunápio…!

 

Pinheiro nos falou sobre a importância de Zezé Moreira:

 

“O Zezé retornou ao Fluminense e eu renovei contrato. Zezé arrumou a casa e nós fomos campeões em 59. A base era a mesma, entrando Maurinho que foi um grande reforço. Deu  mais velocidade ao ataque e revezava muito com o Telê.

Encerramos o campeonato contra o Botafogo já campeões. Estávamos perdendo por 3 a 0 e eles começaram a nos gozar: “a outra foi de 6 essa vai ser de 7”. Aí, fomos para cima e faltando 5 minutos conseguimos empatar de 3 a 3”.

 

Com o aval de Zezé Moreira, com quem trabalhou no Canto do Rio, Paulinho Omena ingressou no Fluminense:

 

“Cheguei ao Fluminense em 1959. O time era certo e o treinador tinha jogadores em que confiava como no meu caso. Num jogo contra o Madureira entrei no time e ganhamos de 4 a 1. O Jair Francisco diz que eu entrei no lugar dele. Eu sempre respondo que entrei no lugar do Telê, que jogava armando, porque eu fui fazer a função do Telê.

 

Escurinho e Maurinho eram bons pontas; Altair jogou na seleção; Castilho era o Castilho; Pinheiro tinha estado na seleção. O time era muito bom e foi campeão”.

 

Escurinho explicou como o time se preparou para o campeonato carioca:

 

“Em 59, Zezé Moreira voltou e para mim foi o melhor time que o Fluminense armou. Zezé colocou Jair Marinho e Edemilson que veio do Rio Grande do Norte. Partimos para uma excursão ao nordeste e o Zezé conseguiu arrumar o time. Nós éramos coesos e jogávamos por música. Eu e o Maurinho abríamos com rapidez pelas pontas e o Telê revezava muito com o Maurinho em jogadas de ataque. Quando o Maurinho fechava, o Telê ia para a ponta. Na frente o Waldo era aquele artilheiro.

 

Quando retornamos da excursão com o time armado, o Zezé nos falou que se nós não fôssemos campeões, estaríamos entre os primeiros colocados. Entramos no campeonato carioca confiantes. Tanto que no ultimo jogo com o Botafogo, já éramos campeões. No penúltimo jogo, 5a feira à noite, contra o Madureira, vencemos por 2 a 0 e conquistamos o campeonato. Nesse jogo eu fiz os gols.

 

Na última partida, o 1o tempo terminou 2 a 0 para o Botafogo. Fomos para o vestiário e depois de trocarmos o uniforme, as camisas coladas no corpo, por causa do calor de 40o, Zezé nos disse: “Vamos jogar o que vínhamos jogando, porque podemos empatar o jogo”.

 

Começa o 2o tempo e o Botafogo mete o 3o gol. Enfureceu a gente e partimos. Maurinho foi para o meio e ficamos eu, Waldo e Maurinho na frente, com o Telê na ponta. Telê fez o 1o e o Botafogo continuou a segurar o jogo. Quarentinha do meio de campo atrasava para o Manga. Garrincha prendia a bola.

 

Nós continuamos em cima, até que o Maurinho marcou o 2o gol. Finalmente, faltando uns dois minutos, o Waldo empatou. Quando o Paulinho deu a saída para o Quarentinha, o Edemilson tomou a bola, passou para o Telê, que lançou o Waldo. Ele matou no peito e na hora de marcar o 4o gol, o árbitro acabou a partida”.

 

 

Campeão estadual de 1969 – Com Telê o Fluminense é campeão

Na penúltima rodada, o Fluminense enfrentou o Flamengo num Fla x Flu emocionante. Há 50 anos, a vitória por 3 a 2, no dia 15 de junho de 1969, deu o título de campeão antecipado ao tricolor.

 

Wilton abriu o placar aos 11 minutos de jogo. Liminha empatou aos 35 e Cláudio Garcia balançou a rede rubro-negra aos 40 minutos. O gol de Cláudio Garcia provocou a ira do goleiro Dominguez. O argentino correu até o meio de campo e aos berros se dirigiu ao árbitro Armando Marques, reclamando de impedimento do atacante tricolor. Armando o expulsou e muitas pessoas passaram a suspeitar da atitude de Dominguez. Até hoje fica a pergunta: Dominguez forçou ou não a expulsão?

 

O Flamengo mesmo com dez jogadores partiu para cima da defesa tricolor. Aos 15 minutos da fase final, Dionísio igualou o marcador. O triunfo e o título vieram aos 34 minutos por intermédio de Flávio.

 

O Fluminense obteve 12 vitórias, 4 empates e 2 derrotas. O gaúcho Flávio foi o artilheiro do campeonato com 15 gols. Já campeão, o Fluminense enfrentou na última rodada o Botafogo e perdeu por 3 a 1.

 

O ano de 1969 marcou o encerramento da carreira de Altair, que dedicou a sua vida profissional ao Fluminense. Altair foi campeão estadual de 1969, tendo atuado em seis partidas.

 

Nesse campeonato, os torcedores dos times adversários passaram a acusar o Fluminense de ganhar pontos no tapetão. Para dirimir qualquer dúvida sobre o assunto, transcrevemos parte da matéria “Tapetão, lendas e inverdades” do companheiro e excelente jornalista Argeu Affonso, na Revista do Fluminense, número 184, ano 1973:

 

“Munido de um documento legal, num jogo contra o América, o Fluminense colocou Flávio para jogar. O documento legal era um mandado de segurança contra o CND. Por quê? O CND baixara determinação de que o jogador expulso em um jogo estaria automaticamente suspenso do próximo. Assim, sem outras considerações, Flávio seria o primeiro jogador do Fluminense colhido pela determinação. Pois bem. Como Flávio fora julgado e absolvido pelo tribunal antes do jogo do América, o Fluminense – através de ilustre trabalho do saudoso vice-presidente jurídico Maurício Costa Faria – impetrou recurso à justiça comum. Afinal, tanto era inconstitucional, inumano e aberrante alguém ser punido após ter sido absolvido, que a maior corte de justiça do Brasil, quando ouvida a respeito, firmou jurisprudência, dentro da linha de raciocínio do Fluminense. E o CND foi obrigado a rever a sua determinação, que passou a ser: “o jogador expulso de campo estará suspenso da partida seguinte, a não ser que antes dela seja julgado e absolvido”. Mas vamos ao fato: o Fluminense ganhou o tal jogo contra o América. No campo. Mas o América recorreu, na tentativa de ganhar os pontos na Liga, no que foi secundado pelo Flamengo, a quem interessava essa vitória extra-campo. O processo rolou quase um ano e o Fluminense, que fora campeão com os resultados em campo, teve que esperar um ano para vencer o tapetão armado por Flamengo e América e poder considerar-se dono do título”.

 

Fluminense e América jogaram no dia 31 de maio de 1969, no Maracanã. Os tricolores ganharam por 2 a 1, na 3ª rodada do 2º turno. Os gols foram de Lula aos 8 minutos do 1º tempo, Edu aos 19 da etapa final e Flávio aos 40 minutos encerrou o placar.

 

Altair apresentou Telê aos companheiros:

 

“Finalmente, tive o prazer de jogar quase dois anos sob a direção do Telê, que foi meu técnico em 69. Era disciplinador e fazia treinamentos específicos.

Em 1969, Telê dirigiu os juvenis e depois substituiu o Evaristo. Estávamos em Friburgo, ele apareceu e falou que iria tomar conta de nós até a contratação do novo treinador. Chamei o pessoal, eu era o único da época dele como jogador, e o apresentei aos companheiros. Estavam o Samarone, Flávio, Galhardo, Lula, Oliveira. Demos força para a permanência do Telê e acabamos campeões estaduais de 1969”.

 

Campeonato Carioca de 1919 (link)

Campeonato Carioca de 1959 (link)

Campeonato Carioca de 1969 (link)

 

 

 

[1] O Campeonato Carioca de 1958 foi disputado por 12 clubes no sistema de pontos corridos com turno e returno. Ao final do campeonato, Flamengo, Botafogo e Vasco estavam empatados com 32 pontos. Assim, eles teriam que disputar um triangular em turno único para decidir quem seria o campeão. Terminado o triangular, todos estavam empatados com dois pontos cada. No dia 20/12/1958, o Vasco venceu o Flamengo por 2×0. No dia 27/12/1958, o Flamengo venceu o Botafogo por 2×1. No dia 03/01/1959, o Botafogo venceu o Vasco por 1×0. Dessa forma, os três clubes tiveram que jogar um novo triangular. No dia 10/01/1959, o Vasco venceu o Botafogo por 2×1. No dia 14/01/1959, Botafogo e Flamengo empataram em 2×2. No dia 17/01/1959, o Vasco empatou com o Flamengo em 1×1 e conquistou o Supersupercampeonato Carioca de 1958, numa alusão a necessidade de se disputar o triangular final duas vezes, situação única na história do Campeonato Carioca na Fase dos pontos corridos, de 1906 a 1971.

A única vez que uma situação similar a essa aconteceu, foi em 1946, quando Fluminense, Botafogo, Flamengo e America terminaram o campeonato empatados com 26 pontos (10 clubes, pontos corridos, turno e returno) e tiveram que disputar um quadrangular final (4 clubes, pontos corridos, turno e retuno) para decisão do campeão. O Fluminense se sagrou campeão ao vencer o Botafogo por 1×0, 22/12/1946, na última rodada. Esse campeonato passou para a história como o Supercampeonato.

 

Campeonato Carioca de 1946 (link)

Campeonato Carioca de 1958 (link)

 

 

José Rezende é jornalista, torcedor do Fluminense, responsável pelo Blog Álbum dos Esportes e autor dos livros “Hei de Torcer até Morrer”, sobre o America-RJ, “Eternamente Bangu”, e co-autor, juntamente com o historiador Raymundo Quadros, do livro “Vai dar Zebra”, sobre a história dos clubes pequenos do Rio de Janeiro.