No dia 22 de abril de 1906, o jornal Correio da Manhã publicou uma reportagem sobre um esporte que estava sendo introduzido por japoneses no Brasil: o Jiu-Jitsu.

Muito provavelmente, essa foi a primeira reportagem brasileira sobre a luta japonesa. Digo “muito provavelmente” pois aqui existe uma questão relacionada ao sistema da Hemeroteca da Biblioteca Nacional. O sistema indica resultados diferentes para a expressão “Jiu Jitsu” sem hífem e “Jiu-Jitsu” com hífem. Considerando a década de 1900 a 1909, o sistema pesquisou 873 acervos com 3.340.456 páginas. Quando a pesquisa é feita sem hífem, o sistema é perfeito, apontando 28 ocorrências que fazem menção ao esporte. Quando a pesquisa é feita com hífem, o sistema aponta 9.636 ocorrência. Nos testes feitos, a expressão “Jiu-Jitsu” é confundida pelo sistema com a palavra “justiça”, por exemplo. É possível que tenha havido uma reportagem anterior a essa do Correio da Manhã? Sim, mas, sinceramente, acredito que essa possibilidade seja muito pouco provável.

Inclusive, pesquisando com a expressão “Jiu Jitsu”, existe uma menção anterior a essa reportagem, onde o nome da luta aparece em um poema. Essa menção aparece no Diário da Tarde de Curitiba do dia 19 de janeiro de 1906:

 

historiadores-dos-esportes-a-primeira-reportagem-brasileira-sobre-jiu-jitsu-4Diário da Tarde, 19 de janeiro de 1906. Essa é a primeira menção ao Jiu-Jitsu na imprensa brasileira, mas não a primeira reportagem.

 

 

O texto do Correio da Manhã descrevia golpes e situações em que eles poderiam ser aplicados. A descrição era do Jiu-Jitsu japonês, que anos depois seria adaptado por Carlos e Hélio Gracie dando origem ao Jiu-Jitsu Brasileiro.

Não há a identificação do autor e das duas pessoas que aparecem nas três fotos. A distribuição das fotos dá a impressão de que a reportagem ocupou 4/5 da página, quando na verdade foram apenas as três primeiras colunas. Acredito que as fotos tenham sido organizadas apenas para criar um efeito estético já que a segunda e terceira fotos estão entre outros textos.

O Correio da Manhã foi um jornal carioca bastante respeitado nos seus áureos tempos. Segundo o site da Biblioteca Nacional, o jornal circulou de Jun/1901 até Jul/1974, com algumas interrupções, chegando a ter a circulação de 200 mil exemplares por dia.

A estrutura do texto foi integralmente respeitada, mas as palavras foram adaptadas ao português atual. Não mexi em palavras em desuso, mas tomei a liberdade de colocar seu significado ao lado.

 

 

O Jiu-Jitsu, Educação Física Japonesa, Ardis Avançados de Combate

Um dos melhores ardis para desenvolver os músculos é aquele que pode ser usado, conforme a ocasião, em defesa própria. Convém, entretanto, assinalar que não se pode usá-lo nem no passeio asfaltado, nem no terreno duro. Ele teve a sua origem no Japão, onde os assaltos atléticos foram sempre feitos sobre a relva. Este ardil é conhecido pelo nome sugestivo: “lançar o adversário sobre a cabeça”.

 

Atacar o adversário agarrando-o pela gola do casaco e ao mesmo tempo levantar o pé esquerdo contra a parte interna da sua coxa esquerda e tão alto quanto possível, aproximando-se por esse mesmo movimento do adversário o mais que puder. Feito isso, vira-se para trás lançando-se de costas ao chão com toda a força.

 

Sem a menor dúvida o adversário fica certo de que passará sobre a cabeça do atacante. Quando a queda se der, a perna empregada contra a coxa do adversário é bruscamente distendida ao mesmo tempo que o atacante dá o impulso. Desse modo a perna age como alavanca e é impossível resistir ao golpe.

 

Moradores da cidade devem praticar esse empurrão sobre alcochoados; os que vivem no campo encontrarão facilmente bom local, nos celeiros, onde o terreno está coberto de palha.

 

Não se deve supor que o golpe acima descrito deva ser usado somente com o intuito de própria defesa. Ele é um dos mais valiosos para fortalecer igualmente quase todos os músculos.

 

É, porém, conveniente não recomendá-lo aos que tenham sérias perturbações do coração. Os japoneses, devido ao seu modo de vida, são poucos sujeitos a elas. As pessoas que sofrem de moléstias cardíacas podem empregar esse exercício de vez em quando, notando com o maior cuidado suas consequências, e se com a queda a pessoa sentir-se abalada, deve ser suspenso para sempre ou moderado seu uso.

 

Não se deve inferir disto que este exercício possa produzir perturbações onde elas não existam.

 

A sorte é tão popular entre os instrutores japoneses e tão grande o seu valor, que eles a ensinam na sexta ou sétima lição. Uma pequena prática desse exercício mostra ao aluno, o quanto ele concorre para o fortalecimento geral dos músculos. O atacante deve recordar-se sempre de tesar todos os músculos que são empregados. O homem atacado não tem defesa, a não ser o apertão do braço. Ao passo que o atacado não pode evitar a passagem sobre a cabeça do atacante, se tem a sorte de dar um eficiente apertão nos braços, verificará que a sua situação melhorou consideravelmente.

 

Durante a luta no terreno, os dois contendores devem empregar os ardis que lhes pareçam mais próprios a situação em que se acham.

 

Quando o aluno já estiver senhor dessas sortes, ele aprende a pega de garganta. É um método simples e eficiente para sufocar um adversário. Ambas as mãos são usadas para efetuar a pega. O atacante lança, com a rapidez do relâmpago, as suas mãos à parte interna do colarinho agarrando-a e fazendo logo com a segunda falange dos dedos tão forte pressão sobre o nó da garganta como se fosse estrangular a pessoa que ataca. Na gravura, o homem atacado procura defender-se aplicando a pressão do ante-braço. É muito útil repetir-se essa pega do pescoço para realizá-la com firmeza. O desenvolvimento da agilidade na execução desta sorte é da mais elevada importância para aquele que deseja conhecer o melhor meio de derrotar o seu adversário. Convém ter as maiores cautelas, porque, senão a pressão mantida por tempo exagerado, pode dar a morte por asfixia. Um homem escapou de produzir em outro a morte por asfixia, devido a empregar com violência este ardil. Nos assaltos, a pressão na garganta não deve durar mais que dois ou três segundos. Uma pressão de 20 segundos é perigosa para os que ainda não se tenham habituado. Um japonês, suficientemente adestrado e com a sua garganta em boas condições, pode resistir a façanha seguinte. Deitar-se no chão com um bambu ou um pão pesado sobre a garganta e em cruz. Sobre este bambu três homens de cada lado comprimindo-o com a força que puderem. Não será bom ao principiante de Jiu-Jitsu tentar uma sorte destas. O que, porém, perseverar, chegará até lá e conseguirá ter a sua garganta em condições de poder resistir a qualquer golpe, o que será a melhor defesa contra os golpes de garganta.

 

Há um meio fácil de parar ou defender-se da pega de garganta. A defesa é tão simples e tão fácil, que é impossível manter a pega. Quando a garganta é agarrada, a pessoa atacada junta as suas mãos e por um forte impulso dum lado para o outro obriga o assaltante a soltá-lo, mesmo que ele empregue toda a força de que se sinta capaz. Este método de defesa é tão simples e eficiente que a mais forte pega de garganta não resiste. Se o homem que se defende por esse modo duma pega de garganta deseja, pode deslocar os braços do adversário com força para o lado e arrumar com as mãos entrelaçadas um tremendo murro debaixo do queixo do adversário.

 

O uso principal das mãos fortemente entrelaçadas é ensinado com desenvolvimento nos cursos de Jiu-Jitsu. Os golpes possíveis são empregados em muitos casos de defesa. Sempre que for prático, eles servem para forçar o atacante que já tenha feito uma pega a largá-la. Uma das melhores aplicações é empregar as duas mãos entrelaçadas sobre o solar-plexus com toda a força. A mesma pancada é sempre empregada com vantagem contra a boca do estômago. Ocasiões há em que essa mesma pancada pode ser usada contra o coração; não se deve, porém, empregá-la senão em casos em que a segurança própria o exija terminantemente. Quando as mãos se acham entrelaçadas desse modo, um terrível golpe pode ser administrado com a munheca do braço mais próximo contra o lado na altura da cintura, o golpe deve ser dado com força, recuando imediatamente a mão.

 

Gradualmente o aluno japonês aprende a empregar o mesmo princípio no ataque sistemático sobre o abdomêm e o solar-plexus do seu adversário. A pressão, mais propriamente que a pancada, é empregada sobre o abdomêm. A princípio esta será a regra de ataque ao solar-plexus, porém esta parte suportará melhor uma pancada mais violenta do que o estomâgo. Com o tempo o próprio adbomêm resistirá gradualmente a pancadas violentas. Os músculos do estômago de um instrutos de Jiu-Jitsu no Japão parecem ser tão duros como o ferro. Seu solar-plexus torna-se praticamente invulnerável. Ele não receia o ataque quer ao seu abdomêm, quer ao seu solar-plexus, e a esta resistência física ele chega gradualmente recebendo as pancadas, que lhe são dadas com as mãos entrelaçadas.

 

Sobre todos os golpes com as mãos juntas são dados no começo com bastante moderação e cautela. Gradualmente o aluno encontra-se com os respectivos músculos tão fortalecidos nestes pontos que ele pode suportar os golpes, cada vez mais fortes. Há um golpe malvado que não deve ser recomendado, a menos que o aluno não se ache numa posição em que precisa se defender como puder. Quando se puder passar por debaixo do braço esquerdo estendido do seu adversário, é possível dar uma pancada com o corte da mais próxima munheca, sobre a base da espinha, que pode fraturar-se sob a empressão (pressão) desse golpe. Um golpe, igualmente perverso, pode ser dado com o golpe da mão.

 

Um ardil que se presta a servir como diversão, consiste em lançar o adversário sobre os ombros, sendo preferível fazê-lo sobre o lado direito. Sem a menor dúvida o sucesso dessa sorte depende de sua oportunidade. O atacante lança o seu adversário sobre o ombro direito, ficando portanto à esquerda do adversário, e agarra-lhe o braço esquerdo com ambas as mãos, como mostra a figura. O atacante depois de ter efetuado a pega, e ter dado um forte apertão sobre a mucheca e os músculos do braço da vítima, de acordo com as regras, dá uma brusca torsão sobre a direita, de tal modo que sua pretendida vítima fique sobre o lado esquerdo do seu dorso. Se o atacante conseguir por um rápido movimento para a frente virar a sua vítima por cima dos ombros e ao mesmo tempo curvar a mucheca com vigor será será sobre seu costado que ele encontrará o seu ponto de apoio. O impulso deve atirar o seu atacado ao chão e de costas. quando o adversário tiver sido derrubado, o atacante não tem mais que cair-lhe em cima, com o joelho, de preferência o esquerdo, sobre o solar-plexus, e as mãos na garganta para reduzi-lo completamente.

 

O outro ardil que deve ser praticado com frequência é o flagrado na gravura junta. O atacante de pé à esquerda agarra a munheca esquerda do seu adversário e dá um esticão ao braço esquerdo sobre o seu cogote (nuca). Note-se que o homem atacado pode usar o seu braço direito, não empregado, em atirar um soco tremendo. É preciso, porém, ver que o atacante tem a sua perna direita na frente da perna esquerda do seu adversário, e na altitude em que se acham os dois homens de pé é fácil para o atacante dar um arranco, antes que a pancada atirada pelo atacado o alcance.

 

Ninguém quer praticar suficientemente a sorte, que vai ser descrita agora, deve receiar tentar desarmar uma pessoa, que procura fazer uso da arma que tem na mão. O terceiro que deseja prevenir um assassinato salta sobre ele, quer ao lado, quer por trás.

 

Com a mão direita agarra a munheca do suposto assassino, que está com a arma, dando o mais vigoroso apertão de munheca, que puder. Ao mesmo tempo o homem que intervêm procura dar com a sua mão esquerda um vigoroso apertão no meio do braço superior do homem, que se quer desarmar. Considerável força precisa ser empregada empurrando para cima e para trás o braço do presumido assassino, e logo que a sua mão fique forçada para trás um mais forte empurrão o desarmará. Esta sorte precisa ser frequentemente praticada, com um revólver que não esteja carregado. Alguns ensaios são precisos antes de se assenhorearem (dominarem) do conjunto, porém a insistência permite ser fácil tentar a salvação da vida dos outros por tal forma ameaçada. O autor achava-se em certa ocasião no vestíbulo dum hotel lendo um jornal, quando viu um homem com uma arma na mão ameaçando outro num conflito. Deixou cair o jornal, saltou sobre o homem e tomou-lhe imediatamente a arma. Foi esta a primeira vez que teve o autor para empregar esta sorte deveras; é excelente porém conhecê-la não só por isso como por ser um excelente meio de fortalecer os músculos e aumentar a agilidade e a destreza.

 

Nenhuma das sortes descritas pode ser julgada simplesmente pelas gravuras e pelas descrições no texto. Cada uma precisa ser praticada com grande paciência e assiduidade. Ninguém se assenhoreará delas num simples assalto; muitos, porém, poderão sabê-lo depois de poucas tentativas. Quando o aluno tiver adquirido o completo conhecimento duma, deve passar a outra, que pareça mais difícil e a que consagre a maior parte do seu tempo, sem esquecer que precisa voltar atrás para praticar as que já conhece. “Eterna perseverança” deve ser o lema de quem quer praticar o Jiu-Jitsu.

 

Agora a sorte das mangas do casaco.

 

Ao fazer o ataque, o atacante lança as mãos para a frente, segurando os extremos superiores da gola do adversário. Muito cuidado precisa ter o atacante colocando os seus braços pelo lado de dentro dos braços de sua vítima. Se o atacante lança um dos seus braços por fora dum dos braços do seu contrário, perde com isso uma considerável vantagem. Será fácil compreender como a pessoa, que se defende, pode usar de seus braços junto com um vigoroso movimento para fora e desprender-se da pega. Uma vez firmadas as mãos na gola, o casaco deve ser voltado com rigor até que as mangas prendem os braços um pouco acima dos cotovelos. Nessa posição a pega precisa ser mantida com firmeza. Havendo resistência a esse ataque, o homem que o empresa, se achar impraticável o ardil da perna, deve aproveitar a vantagem oferecida dando com o seu joelho e com toda a força contra o abdomêm do seu antagonista. Os japoneses raramente empregam, porém, essa pancada excessivamente perigosa, a menos que a própria segurança não o exija.

 

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Artigo da Biblioteca Nacional com a história do Correio da Manhã (link).

 

 

Jorge Priori