Caetano da Silva Nascimento, carioca nascido no bairro da Saúde, trabalhava na estiva como “índio”, isto é, reserva dos efetivos.

Apareceu no Fluminense em 1947 com muita disposição e entusiasmo. Já no terceiro treino ocupou a posição de titular no juvenil, sendo campeão carioca de 1948.

O apelido foi-lhe dado pelo escritor Otávio Faria. No ano seguinte, Veludo integrou a seleção carioca e se sagrou vice-campeão brasileiro da categoria.

Na época, o vice-presidente de futebol do Fluminense era o conhecido Preguinho:

 

“Ele tinha tudo. Reflexo, coragem, colocação, mas assustava um pouco nos treinos por largar facilmente as bolas. Foi quando chamei o Otávio de Faria e descobri o motivo: ele era estivador, carregando fardos imensos o dia inteiro. Quando ia pegar a bola, pequena demais para as suas mãos, sentia a diferença.

Pena que tenha derivado sua vida da forma que lamentavelmente derivou. Sua passagem foi curtíssima pelo futebol. Seria o maior goleiro do mundo.”

 

 

As grandes atuações nas eliminatórias para a Copa de 54

Quando subiu para os aspirantes, Veludo passou a ser a sombra de Castilho, ocupando em diversas oportunidades o posto de titular. Nos aspirantes, Veludo conquistou o tetracampeonato carioca de 51 a 54.

A chance surgiu quando Castilho foi convocado para a seleção brasileira. Suas grandes atuações o levaram a ocupar o gol brasileiro, nas eliminatórias para a Copa de 1954, época em que Castilho se contundiu.

Diante do Paraguai, em Assunção, Veludo fechou a meta brasileira e garantiu a vitória por 1 a 0 gol de Baltazar. Castilho e Veludo foram os goleiros do Brasil na Copa do Mundo de 1954, na Suíça.

 

 

O fatídico Fla x Flu dos 6 a 1

Ainda, em 1954, o Fluminense cedeu Veludo ao Nacional, de Montevidéu, por empréstimo, trocado pelo atacante Ambrois. Ao retornar da capital uruguaia, Veludo jogou quase todo o campeonato carioca de 55. No Fla x Flu, em que o Fluminense foi goleado por 6 a 1, suspeitaram de sua atuação:

 

“Perdemos para o Flamengo por seis a um. Nesse dia nada dava certo para nós e eu deixei passar dois gols fáceis de defender. Num fiz golpe de vista e no outro a bola me enganou. Foi o que bastou para o time todo se enervar e se perder em campo. A imprensa não me perdoou e foi acusado até de venal. Aquilo me doeu e mais magoado fiquei porque o Fluminense não me defendeu e sempre me emprestava a outros clubes, o que dava a entender que algo de anormal se passara. Garanto que não houve nada disso e que nada poderia ser provado, porque nunca existiu.

Esse Fla x Flu serviu realmente de pretexto para o Fluminense brigar comigo. Não entrei em conflito com dirigentes do Fluminense por uma razão muito simples: estava em paz com a minha consciência. Falhei como qualquer um está sujeito a falhar no futebol ou na vida”. [1]

 

 

Uma recordação que o acompanhou

Entre más e boas recordações do futebol, uma ficou para sempre:

 

“Estava com o Fluminense, no Uruguai, e recebi a comunicação da CBD me convocando para a seleção brasileira em substituição a Castilho que se contundira no joelho. Apresentei-me e disputei a posição com Osvaldo “Baliza” e Cabeção. Mesmo com a mão enfaixada, treinei bem e ganhei o posto. Jogamos contra o Chile e com o Paraguai partidas memoráveis, com boas vitórias, o que nos valeu a classificação para a Copa do Mundo, na Suíça.

Só uma coisa eu nunca consegui entender: porque não fui o titular da seleção em 1954, na Suíça, se até o técnico Zezé Moreira me considerava o melhor entre Castilho e Cabeção. Enfim, os homens da CBD sabiam o que faziam”.

 

 

O triste fim de Veludo

Quando deixou o Fluminense, Veludo defendeu o Canto do Rio. Em 1956, com ele foram os seus companheiros Victor, Lafaiete e Duque. Também fizeram parte da vida profissional de Veludo o Santos, Atlético Mineiro, onde foi campeão, e, finalmente, o Madureira.

A boemia prejudicou a carreira desse extraordinário goleiro. Seus ex-companheiros, com quem conversei, foram unânimes: Veludo chegava quase sempre atrasado aos treinos de óculos escuros para esconder os olhos vermelhos, devido às noites de farra.

Caetano da Silva no fim da vida morava com a irmã Júlia, em Irajá, longe dos refletores dos estádios, onde suas espetaculares atuações empolgaram os torcedores brasileiros. A saúde fragilizada e a solidão o acompanharam até o dia de seu falecimento, em 26 de outubro de 1970, com 40 anos.

 

 

 

[1] No campeonato carioca de 1955, Flamengo e Fluminense se enfrentaram três vezes. No primeiro jogo, com Veludo no gol, o Fluminense venceu por 2×1 (11/09/1955). O segundo jogo foi a goleada rubro-negra por 6×1 (17/12/1955). No terceiro jogo, já com Jairo no gol, o Fluminense venceu por 3×2 (29/02/1956). Como o próprio texto deixa claro, Veludo reconheceu ter falhado em dois gols. Contudo, todo o time do Fluminense havia atuado muito mal nesta partida, enquanto o Flamengo havia jogado muito bem. O Flamengo, que se sagrou tricampeão carioca nesse ano, tinha time para vencer o Fluminense, mas não por esse placar. Foi a atuação horrorosa de todo o time do Fluminense, que acabou sendo personificada em Veludo, que possibilitou a construção desta goleada que descretou o fim de sua carreira no Fluminene.

 

 

José Rezende é jornalista, torcedor do Fluminense, responsável pelo Blog Álbum dos Esportes e autor dos livros “Hei de Torcer até Morrer”, sobre o America-RJ, “Eternamente Bangu”, e co-autor, juntamente com o historiador Raymundo Quadros, do livro “Vai dar Zebra”, sobre a história dos clubes pequenos do Rio de Janeiro.