O Texto “Revolução pára o campeonato” foi extraído do livro “O caminho da bola” de Rubens Ribeiro, publicado em 2000 pela Federação Paulista de Futebol. Particularmente, considero esse livro a bíblia do campeonato paulista de futebol.

 

O Campeonato de 1932 teve uma brusca parada por causa da Revolução Constitucionalista, eclodida na capital em  9 de julho. [1]

Iniciado em maio, o certame se desenvolveu até o dia 3 de julho. A rodada programada para o dia 10 só foi disputada no dia 6 de novembro, depois que cessaram as hostilidades. O campeonato prosseguiu, então, até o dia 18 de dezembro, quando se disputou o último jogo. Devido a essa interrupção, o certame teve um único turno. [2]

Durante o conflito, os clubes procuraram colaborar com o governo paulista, cedendo dependências de suas sedes para que ali se instalassem enfermarias; participando de campanhas de arrecadação e doando alimentos enlatados, sabonetes, cigarros, etc. Enfim, dentro de suas possibilidades, prestaram inestimável colaboração à causa paulista.

Por essa época, todos os jogos do campeonato tinham duplo espetáculo pois se disputava o título principal pelo chamado primeiro time e um outro pelo segundo time (que mais tarde viria a ser qualificado de Aspirante). Quando um mesmo clube vencia os dois jogos costumava-se dizer: “Fez barba e cabelo”. [3]

Foi o que aconteceu com o Palestra Itália em 1932, que nesse tempo contou com o mais famoso segundo time da história do futebol paulista. O Palestra foi campeão invicto, sem perder um único jogo, e para maior satisfação de seus torcedores, fez “barba e cabelo”. O título conquistado pelo segundo time foi até alvo de homenagem de torcedores mais fanáticos que, após o término da preliminar Palestra 2×0 Santos, soltaram doze pombos correios, pintados com as cores do clube e da APEA, levando a notícia daquela conquista. Bons tempos esses, em que o futebol incitava o torcedor a praticar ações tão singelas.

E como vinha fazendo nos últimos anos, a “Gazeta Esportiva” abriu subscrição popular a fim de mandar medalhas de ouro aos campeões doando duzentos mil réis e estabelecendo a importância de dois mil réis para a contribuição individual.

As vésperas do início do certame, um melindroso assunto voltou a ser discutido: a participação do rádio em partidas de futebol, tal como ocorre em nossos dias com a televisão. Supunha-se que a transmissão (chamada na época de irradiação) dos jogos pelo rádio prejudicava a arrecadação. Surgiu até um abaixo assinado de torcedores que não concordavam com generalização:

 

“Um São Paulo x Palestra “argumentavam” deveria contar com a irradiação, pois a lotação do estádio é insuficiente para o público interessado nesse jogo. Irradiando a partida, um grande serviço estará sendo prestado à comunidade, sem prejuízo algum para os clubes”. [4]

 

E por falar nesse clássico, um novo bolão foi feito na redação da “Gazeta Esportiva”, o qual, no dia 8 de maio, acumulava 520 mil réis, uma soma respeitável para a época. O jogo foi disputado nesse dia no Campo do Floresta, onde um funcionário daquele jornal esqueceu o guarda-chuva. Vivia-se os bons tempos de uma São Paulo provinciana que já se foi. Tempos de simplicidade, que permitia à direção do jornal autorizar a seguinte nota:

 

“Com quem está?

Domingo último, no Campo da Floresta, ao terminar o jogo São Paulo x Palestra, o nosso companheiro Africano, das oficinas desta folha, retirando-se das arquibancadas, entregou por um instante seu guarda-chuva a um espectador. Com a confusão e pressão do público para ganhar a rua, Africano não viu mais o homem a quem confiou seu objeto. Pede, por isso, ao referido cavalheiro a gentileza e fineza de entregá-lo nesta redação, ou informar onde poderá ser procurado.

 

 

[1] A Revolução Constitucionalista foi travada do dia 9 de julho de 1932 ao dia 2 de outubro de 1932;

[2] Acredito que, inicialmente, esse campeonato previa a realização de dois turnos a serem disputados por pontos corridos. Rubens Ribeiro não esclarece isso em seu livro, mas se analisamos os Campeonatos de 1930, 1931, 1933 e 1934, verificamos que eles foram disputados por pontos corridos em dois turnos;

[3] Rubens Ribeiro utiliza os termos Primeiro e Segundo Times, mas pode-se utilizar os termos Primeiros e Segundos Quadros. Não consegui verificar quando o Campeonato de Segundos Quadros passou a adotar o nome de Aspirantes. Esse campeonato foi disputado com algumas interrupções de 1904 a 1976. Posteriormente, ele voltou a ser realizado nos anos de 1989, 1993 e 1995 (link).

[4] Para que tenhamos referência, no Rio, que na época era a capital da República, a primeira transmissão de rádio de um jogo ocorreu dois anos depois, no Campeonato Carioca de 1934. Essa informação consta no livro História dos Campeonatos Cariocas de Futebol 1906/2010, de Roberto Assaf e Clóvis Martins, sem a especificação de qual teria sido a primeira partida. Tanto o livro de Rubens Ribeiro quanto o livro de Roberto Assaf e Clóvis Martins não especificam os primeiros jogos dos campeonatos do Rio e de São Paulo que foram transmitidos por rádio.