O Texto “Paulistano abandona o futebol” foi extraído do livro “O caminho da bola” de Rubens Ribeiro, publicado em 2000 pela Federação Paulista de Futebol. Particularmente, considero esse livro a bíblia do campeonato paulista de futebol.

 

Paulistano abandona o futebol

O idealismo nem sempre é transmitido de geração para geração. Às vezes ele é interrompido por forças externas, quando uma vontade mais forte se impõe e trunca sua caminhada.

O Clube Atlético Paulistano lutou até onde pôde ir, para manter o futebol dentro daqueles princípios com os quais fora introduzido no Brasil, principalmente com base no amadorismo.

Liderou movimento de repulsa a tudo que entendia por vícios que tendiam a corromper aqueles princípios, fundou novas ligas, exigiu novos códigos, novos estatutos, etc.

Agiu assim durante décadas.

Sua última batalha em favor do futebol aconteceu após o retorno da Europa, onde o clube havia cumprido excepcional campanha. [1] Ao ter novo contato com futebol paulista, o então presidente Antonio Prado Júnior confessou, após o jogo contra o São Bento, último do campeonato de 1925:

 

“As coisas vão mal. A violência domina o esporte. Não é mais aquele espírito puro de disputa dos primeiros tempos. Precisamos tomar uma atitude”.

 

A repulsa do dirigente teve origem no gol do empate do São Bento, que teria sido marcado em flagrante impedimento e que provocou exaltação de ânimos sem que o árbitro soubesse controlar a situação.

“E aconteceu aquela baderna, que todos viram. Os jogadores do paulistano deixaram o gramado quando faltava sete minutos para terminar a partida e o São Bento foi campeão”, lembrou o dirigente na ocasião. [2]

Nessa oportunidade, pois reunir sua diretoria, o Paulistano decidiu se desligar da APEA. Viu-se, então, diante de um dilema: ou abandonaria o futebol, ou, então, fundaria nova entidade, com o objetivo de reestruturar o futebol dentro dos padrões morais condizentes com a formação amadorística que ferrenhamente defendia.

A segunda opção foi adotada, tendo o paulistano contribuído com 50 contos de Réis para constituir parte do patrimônio daquela entidade, que seria a Liga de Amadores do Futebol.

E, sob o comando do “Glorioso”, futebol paulista entrava, em 1926, em sua terceira fase.

Para organizar seu campeonato, a LAF teve de admitir determinados clubes, que já militavam há tempos no campeonato de São Paulo. E tinha que ser assim porque, sozinho, o Paulistano jamais disputaria novo certames. Esses clubes, infelizmente para o Paulistano, chegavam eivados dos mesmos vícios tão condenados pela direção do Jardim América. Por isso, não foi surpresa nenhuma aqui, após quatro anos, o idealismo do Paulistano sucumbisse àquelas forças externas.

Quando se viu impossibilitado de prosseguir nessa luta, voltou a questionar a primeira das opções, levantada na reunião de 1925. Aconteceu, então, no dia 8 de janeiro de 1930, uma Assembleia Geral Extraordinária, na LAF, com a presença dos representantes do Paulistano, Ponte Preta, Germânia, independência, Antárctica, Hespanha e Paulista. Nela foi decidido dissolução da Liga e rejeitada a retirada do Paulistano do futebol.

Era o primeiro sinal de que o “Glorioso” já não mantinha um comando. Após a reunião, Antonio Prado Júnior não escondeu o fato de que perdera por completo a paciência, após fazer todos os esforços para moralizar o esporte em São Paulo. Mesmo depois de estabelecer novos regulamentos, dissolver entidades e de criar novas associações, teve de admitir que o profissionalismo caminhava sorrateiramente a passos largos e que o dinheiro corria solto por trás dos bastidores.

O Paulistano fez questão de manter sua tradição amadorística, a tradição de amor ao clube. Foi fiel a ela.

Ainda tentou, como alternativa, participar temporariamente do futebol, disputando amistosos com clubes de outros Estados e de outros países. Mas até isso lhe foi negado, porque a CBD insistiu em não reconhecer a existência legal da Liga de Amadores de Futebol, após a conclusão do famoso “Inquérito”, em 31 de julho de 1927. [3]

Após a manifestação oficial da CBD, reconhecendo a APEA como a entidade credenciada para representar o futebol de São Paulo, Antonio Prado Júnior vem a público e confirmou:

 

“Nossa decisão é definitiva. Futebol no Paulistano é capítulo encerrado. Os jogadores poderão ser inscrever em outros clubes e continuar como sócios do clube”.

 

A trajetória do futebol do Paulistano se encerrou com glória, como se reafirmasse seu título de “Glorioso”, que o clube ganhara ao longo de sua existência. Venceu o campeonato de 1929 e ficou dono da Taça Cidade de São Paulo. Seus últimos campeões foram: Nestor, Clodô e Barthô; Romeu, Rueda e Abate; Luizinho, Joãozinho, Freidenreich, Milton e Zuanella.

Terminou no dia 15 de dezembro de 1929 a vitoriosa caminhada dessa equipe que chegou ao extremo de maravilhar Paris, numa época em que não se sonhava levar uma equipe de futebol a excursionar à Europa. Nos 29 anos de atividade ganhou 11 campeonatos, inúmeros troféus, destacando-se  as Taças Penteado, Jockey Clube e Cidade de São Paulo.

Depois, o campo do Jardim América não vibrou mais com os encontros com São Paulo Athletic, A.A. das Palmeiras, Corinthians, etc.

Era de esperar que a maioria dos seus associados não concordasse com a decisão de abandonar o futebol. Porém o clube tinha sua formação eminentemente amadorística e foi fiel ela, até quando não pôde mais prosseguir na luta em defesa desse ideal. Retirou-se no momento em que o profissionalismo assumia posição definitiva.

Foi através desse idealismo que o Paulistano conseguiu levar para o Velódromo um público que o apoiava e que fazia das tardes de domingo um acontecimento social.

Os jogadores inconformados com a extinção da equipe trataram de se unir para fundar outro clube que viesse a substituiu o “Glorioso”. Desse movimento surgiu São Paulo F.C. que nasceu forte, com jogadores famosos com Friedenreich, Barthô, Clodô, etc. Foram defender um novo clube, mas nunca mais se esqueceram do uniforme branco e vermelho e dos gritos do “a leguá”, que passaram a fazer parte da história do futebol brasileiro.

 

 

O Paulistano, fundado em 1900, segue como o quinto maior campeão paulista de todos os tempos, com 11 títulos, mesmo depois do fim do seu departamento de futebol no longínquo ano de 1929. Curiosamente, o Paulistano foi derrotado em todas as partidas extras que disputou para definição do campeão: 1902, 1903, 1904, 1909, 1920 e 1928 (LAF). Ele também foi derrotado nas duas decisões que disputou dentro do sistema de pontos corridos: 1914 (APEA) e 1925.

O pessoal do departamento de futebol do Paulistano, juntamente com o pessoal da A.A. das Palmeiras e seu patrimônio, deram origem ao São Paulo F.C. na fase conhecida como São Paulo da Floresta (de 1930 a 1935). O nome São Paulo da Floresta se deve ao estádio em que jogava, Chácara da Floresta, que havia pertencido à A.A. das Palmeiras, cujo futebol havia sido extinto em dezembro de 1929.

 

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[1] Trata-se da excursão à Europa feita pelo Paulistano em 1925. Nesta excursão, o Paulistano disputou 10 jogos, obtendo 8 vitórias e duas derrotas. Os jogos foram disputados na França, Suíça e Portugual.

[2] Rubens Ribeiro menciona o gol de empate do São Bento, mas na verdade esse gol foi o da vitória (1×0, 08/11/1925). O Campeonato de 1925 foi disputado por pontos corridos em turno único. São Bento, 14 pontos, e Paulistano, 15 pontos, se enfrentaram pela última rodada no que veio a ser a decisão do título, vencido pelo São Bento. Um detalhe importante é que no jogo anterior do Paulistano, o clube venceu o Corinthians por 1×0 e evitou o título alvi-negro, que tinha 15 pontos, e caso vencesse, chegaria aos 17 pontos e não poderia ser alcançado por mais ninguém.

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablessz/sp1925.htm

 

[3] Segue as informações do próprio Rubens Ribeiro sobre o inquérito ao qual ele se refere:

 

O Inquérito da CBD

A fundação da Liga, além de fracionar o futebol, provocou crucial preocupação (principalmente da parte da LAF) sobre qual das duas entidades teria verdadeira representatividade junto à CBD, problema que se constituiu em verdadeiro presente de natal para os dirigentes cariocas que incentivaram todo tipo de movimento que colaborasse para a consolidação da CBD, uma entidade que também lutava para se firmar no cenário esportivo nacional.

A diretoria do Corinthians chegou a sugerir uma solução caseira, como a fusão da LAF e APEA, da qual sairia uma nova entidade, a Liga de Amadores de Esportes Athléticos. A sugestão foi aproveitada pela CBD, que designou Arnaldo Guinle como seu mediador para buscar uma solução para a crise do futebol paulista, sem, no entanto, obter sucesso. A LAF não concordou com a fusão. E foi além, ao solicitar à CBD a abertura de trabalhos (na época foi chamado de “inquérito”) para apurar qual das duas entidades realmente merecia o comando do futebol paulista.

Para executar esse trabalho, a CBD solicitou às duas entidades o endereço de seus filiados para as visitas de comprovação. A imprensa, que apoiava a Liga, ao mesmo tempo em que deixava de informar sobre a APEA, divulgava no mês de julho os endereços dos clubes da LAF:

 

Sedes: A.A. São Bento, Praça da República nº 8; S.C. Sírio, Avenida São João nº 85; S.C. Internacional, Rua Líbero Badaró nº 128; S.C. Germânia, Largo do Paysandu nº 20, e Escola de Árbitros, Lardo do Paysandu nº 20.

Campos: S.C. Germânia, Pinheiros; S.C. Sírio, Ponte Pequena; S.C. Internacional, Ponte Grande (em construção); A.A. São Bento, Ponte Grande; A.A. das Palmeiras, Chácara da Floresta, e C.A. Sant’Anna, Rua Voluntários da Pátria nº 125.

Sedes e campos: Antárctica F.C., Rua da Mooca nº 926, C.A. Silex, Rua Thabor nº 71; C.A. Independência, Rua dos Ituanos nº 33 e C.A. Paulistano, Rua Colômbia nº 1.

 

Rubens Ribeiro não informa como a discussão terminou, mas podemos concluir que, apesar de todo o apoio da imprensa, a LAF perdeu a disputa para a APEA, tanto que seu último campeonato foi organizado em 1929.

 

 

Jorge Priori é torcedor do Fluminense, gosta de história e é admirador de Rubens Ribeiro, com quem já teve a honra de conversar.