Villa Nova, Tetracampeão Mineiro – 1932, 1933, 1934 e 1935

Breve histórico do Campeonato Mineiro

A primeira edição do Campeonato Mineiro ocorreu em 1915, com o Atlético levantando a taça. Nessa etapa do amadorismo, quem brilhou efetivamente foi o América, que conquistou o decacampeonato, de 1916 a 1925.

Em 1933, ano da implantação do profissionalismo no Brasil, houve em Minas Gerais a unificação das ligas existentes (Belo Horizonte e Juiz de Fora) para a disputa do Campeonato Mineiro. Curiosamente, Minas Gerais foi o único Estado brasileiro a manter duas ligas em funcionamento, de modo oficial, a partir de 1918. Nesse ano, com a autorização da entidade-mãe, foi fundada em Juiz de Fora a Sub-Liga Mineira de Desportos Terrestres, que até 1932 organizou vários campeonatos locais contando com o Tupi e o Tupynambás como protagonistas. Com a implantação do profissionalismo, ocorreu a fusão das duas ligas e o campeão (Villa Nova) e o vice (Tupi) espelharam com perfeição o novo status vigente no futebol mineiro.

Nesse ano, foi promovido pela Associação Mineira de Esportes (AME) o primeiro campeonato sob a nova ordem. O América foi pressionado a acompanhar Villa Nova, Atlético e Cruzeiro na implantação do profissionalismo em Minas Gerais. Para sublinhar seu inconformismo, o Coelho atuou durante uma década com camisas vermelhas em substituição às tradicionais brancas e verdes. Foi um protesto em vão.

Este foi o primeiro Campeonato Mineiro disputado como tal, demarcando assim a unificação dos torneios de Belo Horizonte e Juiz de Fora. Os certames valeram simultaneamente pelo Campeonato Estadual e pelos campeonatos dessas cidades. O Villa Nova foi campeão mineiro e campeão da cidade de Belo Horizonte, e o Palestra Itália foi o vice de BH; o Tupi foi vice-campeão mineiro e campeão de Juiz de Fora. Para computar a campanha do Campeonato da Cidade, basta retirar os jogos contra os três times de Juiz de Fora.

Essa fórmula adotada em 1933, portanto, colocou em disputa dois campeonatos distintos e paralelos. Como o Leão do Bonfim faturou os dois, o correto seria a estatística das conquistas em Minas Gerais apontar o Villa com seis títulos, em vez de apenas cinco, pois nessa temporada foram vencidos dois certames. Em 2011, fiz um amplo estudo dessa situação, do que resultou um relatório pormenorizado entregue à diretoria do Villa para solicitar da Federação Mineira de Futebol o reconhecimento dessa conquista dupla em 1933, para que essa injustiça histórica seja revista. Eu e o presidente do clube na época, Jairo Gomes, protocolizamos o documento diretamente por meio do mandatário da Federação, Paulo Schettino. Como os cartolas da FMF não dão importância às coisas de fato relevantes na história dos clubes, esse documento deve estar empoeirado dentro de alguma gaveta na sede da entidade.

Esse formato durou somente duas temporadas: 1933 e 1934, sendo que nesse ano o Villa disputou (e venceu!) a decisão contra o Tupynambás, campeão de Juiz de Fora, em jogo único (o Baeta desistiu da partida de volta). A partir de 1935 o Campeonato da Cidade de Belo Horizonte voltou a ser o mais importante de Minas Gerais e o seu campeão, pelo Direito Costumeiro, mantinha o status de campeão mineiro.

Para simplificar o entendimento, pode-se dizer que o Campeonato da Cidade de Belo Horizonte, que nunca recebeu o nome de Citadino, foi disputado durante anos a fio por times da Capital e de municípios da Região Metropolitana, tais como o Villa Nova e Retiro  (Nova Lima), Siderúrgica (Sabará), Asas (Lagoa Santa), Vespasiano e de cidades próximas de BH, como Democrata (Sete Lagoas), Meridional (Conselheiro Lafaiete), Metalusina (Barão de Cocais), entre outros. A exceção foi o Uberaba Sport Club, que disputou a competição em 1945. A ampliação da competição demoraria a acontecer.

 

Nova mudança em 1958

O América havia proposto, em 1956, a exclusão dos clubes do interior do Campeonato da Cidade de Belo Horizonte e a imediata promoção de Tremedal, Terrestre e Renascença e a criação da Liga de Belo Horizonte. Como eram proibidas ligas em capitais, o Coelho sugeriu a criação da Liga de Contagem para organizar o campeonato. O América chegou a distribuir um manifesto em nome de Atlético, Cruzeiro e Sete de Setembro, forjando assinaturas que logo foram desmentidas pelos dirigentes desses clubes.

O Cruzeiro, por intermédio do presidente Eduardo Bambirra, considerou que seria um fracasso um campeonato sem o Villa e Siderúrgica, e ainda reconheceu a força do Democrata-SL como um participante indispensável. Em agosto de 1957, o presidente do Siderúrgica, Manoel Édson, pediu aos clubes uma revisão dos campeonatos disputados em Minas. O dirigente sabarense considerava inadmissível o separatismo entre a Capital e Juiz de Fora, além do total esquecimento de outros clubes do interior.

Assim, propôs que a FMF criasse a Zona Metalúrgica, que teria um campeonato disputado por Siderúrgica, Metalusina, Meridional, Acesita, Valeriodoce e Ferro Brasileiro, de Caeté. Também propôs a criação das Zonas Oeste, Sertão, Triângulo e Sul de Minas. A proposta, que ficou conhecida como Fórmula Siderúrgica ou Revisão, propunha que o título de “campeão mineiro” fosse disputado entre os campeões de cada certame.

O Meridional, através do presidente Benedito Adami, e o Metalusina, pelo presidente Padre Magela, recusaram-se a disputar a Zona Metalúrgica. Em vez de criar as zonas, os clubes resolveram admitir outros seis clubes na Divisão Extra de Belo Horizonte, a partir de dezembro de 1957: Bela Vista (Sete Lagoas), Pedro Leopoldo, Renascença (BH), Curvelo, Guarani (Divinópolis) e Uberaba.

No Divisional de fevereiro, os clubes decidiram pela fórmula adotada em São Paulo, com dois turnos: o primeiro de caráter classificatório e uma fase final. No turno classificatório, os 10 clubes do Campeonato de Belo Horizonte de 1957 mais os novos clubes admitidos se enfrentariam. Os oito melhores se classificariam para o Turno Final. Com essa fórmula, os clubes de Juiz de Fora se recusaram a entrar na disputa, pois já previam o déficit financeiro.

O turno classificatório, no entanto, nada mais foi que um torneio de acesso para o Campeonato Mineiro.  “O Torneio Eliminatório nada mais é que a Lei de Acesso, como bem define o Artigo 31 do Código de Futebol da FMF. Não é amparado pela legislação”. (Diário da Tarde, 9/7/1958)

O torneio foi, na verdade, um acordo entre os clubes para se saber quem se classificaria para o Campeonato Mineiro, que passaria, oficialmente, a receber essa nomenclatura. O campeão teria o direito de participar da Taça Brasil, programada pela CBD para ter início em 1959 devido ao advento da Taça Libertadores da América.

As rodadas duplas, disputadas às quartas, aos sábados e domingos, todas na Capital, foram sendo programadas a cada semana. Por não ter amparo na legislação, os clubes ameaçados de não conseguir a classificação para o Turno Final ameaçaram entrar na Justiça, como o Metalusina. O Villa Nova reclamou que tinha direitos adquiridos. Tentaram aumentar o número de classificados de oito para 10. A maioria dos clubes, porém, rechaçou a virada de mesa e os classificados prometeram não disputar o Campeonato Mineiro, caso o acordo para o Torneio Eliminatório não fosse cumprido.

As rendas da competição foram um fiasco. Segundo um levantamento do Diário da Tarde, a renda do clássico Flamengo x Vasco, em 14/9/1958, foi maior que a soma de 120 partidas do Torneio Eliminatório, que somaram apenas Cr$631.770,00. Alguns clubes chegaram a disputar determinadas partidas com times B.

A partir de então o Campeonato Mineiro, sob as mais variadas e malucas fórmulas em alguns anos, passou a contemplar a participação de times de inúmeras e distantes cidades.

 

A fase de ouro do Villa Nova

O Campeonato Mineiro de 1932

Em 1931, América e Villa Nova abandonaram a Liga Mineira de Desportos Terrestres (LMDT) por causa das arbitrariedades do TJD — na época chamado de Tribunal de Penas — durante a disputa do Campeonato da Cidade. Em seguida, tiveram a companhia do Sete de Setembro e, mais tarde, do Palestra Itália e do Grêmio. Os clubes fundaram a Associação Mineira de Esportes Geraes (AMEG), que organizou o seu próprio campeonato em 1932, enquanto o Atlético disputou o Campeonato da LMDT na companhia dos pequenos clubes (Retiro, Guarani, Carlos Prates, Fluminense, Santa Cruz, Alves Nogueira e Calafate).

Curiosa foi a presença do Vespasiano Esporte Clube, que nunca havia disputado um certame da LMDT ou de qualquer outra liga. O Grêmio foi um dos vários times que disputaram o Campeonato da Cidade. Extinguiu-se em 1933, a partir da adoção do profissionalismo em nosso futebol. Seu nome completo era Grêmio Ludopédio Calafate e tinha sede no Bairro do Prado, em Belo Horizonte.

A AMEG e a LMDT fizeram uma fusão em 1933.

 

Participantes

Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima)
Società Sportiva Palestra Itália (Belo Horizonte)
América Futebol Clube (Belo Horizonte)
Sete de Setembro Futebol Clube (Belo Horizonte)
Grêmio Ludopédio Calafate (Belo Horizonte)
Vespasiano Esporte Clube (Vespasiano)



1ª Rodada – 29/5/1932 – domingo
Villa Nova 3×1 Sete de Setembro
Gols – Onofre(2), Canhoto (V) – Bracarense (S)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Sinfrônio Fidélis (MG)
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Tico-Tico, Carazo e Geninho; Tonho, Lacerda, Cícero, Onofre e Canhoto
Técnico – Euclides Dias
Sete de Setembro – Geraldo, Américo e Raul; Caramatti, Maurício e Teixeira; Deco (Leonil), Barata, Arlindo, Bracarense e Orozífero

Curiosidade: O cronometrista encerrou a partida aos 35 minutos do segundo tempo, quando ainda faltavam cinco minutos para seu encerramento. Era muito comum a escalação de árbitros vinculados aos próprios clubes e, nessa partida, o escolhido fazia parte da direção do América.

Um fato muito comum aconteceu nesse certame: a escalação de árbitros que não compareciam aos jogos. Diante disso, momentos antes da partida, os capitães de ambos os clubes escolhiam árbitros no estádio para apitá-la, medida que recebeu o apelido de “pescaria”. Em um dos jogos, até o técnico do Villa Nova, Euclides Dias, foi escalado para apitar.

 

2ª Rodada – 5/6/1932 – quinta-feira
Grêmio 0x7 Villa Nova
Gols – Cícero(3), Canhoto(2), Carazo, Prão
Local – Estádio da Alameda (Belo Horizonte-MG)
Grêmio – Paulino, Pára-Raio e Emílio; Delacqua, Mulato e Zezé; Vicente, Inhô, Pantuzzo, Guerra e Cachucha
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Teófilo, Carazo e Geninho; Tonho, Moore, Lêra, Prão e Canhoto
Técnico – Euclides Dias

Curiosidade: O ponta-esquerda Canhoto tinha o cacoete de correr em direção à linha de fundo com a bola dominada abrindo os braços. Era comum a torcida gritar das arquibancadas quando o jogador arrancava: “Abre as asas, Canhoto!” Plínio Barreto, renomado jornalista e escritor, 85 anos, autor dos livros Futebol no Embalo da Nostalgia e De Palestra a Cruzeiro, e com uma longa atuação no jornal Estado de Minas, explica o hábito: “Canhoto era chamado de o Homem das Asas pela sua maneira característica de partir e correr com a bola pela orla do campo: muito alto e magro, corria com os braços abertos, mais parecendo uma enorme cruz em movimento. Era um terror para as defesas e quando ‘abria as asas’ provocava generalizado pânico entre os adversários.” (Futebol no Embalo da Nostalgia, página 68)

Existe um fato relatado por Canhoto – mas jamais confirmado – que provocou muita revolta nos torcedores em Nova Lima. Continua Plínio Barreto: “Em 1938, passeando pela Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, Canhoto encontrou-se casualmente com Perácio, que estava na Capital para rever familiares e amigos após ter retornado da França, onde disputara pelo Brasil a Copa do Mundo. Ao ver o antigo companheiro, Canhoto teria se dirigido a ele para um abraço saudoso, quando ouviu de Perácio uma observação inopinada e irrazoável, que o chocou profundamente: ‘— Agora não, Canhoto, não tenho trocado…’” (página 69)

Alfredo Moreira, o Canhoto, faleceu em Nova Lima no dia 21 de março de 1951, vítima de uma insuficiência cardíaca. Era casado com dona Rosita e pai de nove filhos. Um deles, Mário Lúcio, apelidado de Pirata, foi atropelado por um bonde em Belo Horizonte e teve uma perna amputada. O acidente ocorreu exatamente um ano após a morte de Canhoto.

O saudoso ponta-esquerda villa-novense jogou por pouco tempo no Retiro e formou o setor com Tito, que seria posteriormente pai de Dirceu Lopes, um dos maiores craques da história do Cruzeiro.

 

3ª Rodada – 12/6/1932 – quinta-feira
Villa Nova 1×0 Vespasiano
Gol – Canhoto (20’ do 1º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Raimundo Sampaio (MG)
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Tico-Tico, Carazo e Geninho; Tonho, Moore, Cícero, Prão e Canhoto
Técnico – Euclides Dias
Vespasiano – Bertolino, Barão e Mormela; Mundico, Américo e Guerino; Raimundo, Teixeira, Barroso, Wilson e Dute

Curiosidade: O goleiro Bertolino defendeu um pênalti cobrado por Geninho no segundo tempo, evitando o segundo gol villa-novense. O árbitro Raimundo Sampaio era ligado ao Sete de Setembro e, posteriormente, emprestou seu nome ao Estádio Independência.

Num tempo em que o esquema tático reservava apenas três jogadores para a defesa, José Sérgio Pereira, o Sérgio, era o que se chamava beque esquerdo. Foi dono da posição por 11 anos – de 1928 a 1939 – e jamais vestiu outra camisa que não fosse a do Leão do Bonfim. Deixou o futebol para trabalhar na Light, empresa de energia elétrica, no Rio de Janeiro.

Em 1943, retornou a Nova Lima e em seguida foi para Caeté, onde fixou residência, para trabalhar na Companhia Ferro Brasileiro. Treinou o time da empresa por cinco anos. Sérgio tinha o hábito de guardar o pouco dinheiro que era pago aos atletas no início do profissionalismo com a finalidade de custear os estudos futuramente, estratégia que deu certo, pois graduou-se em Bioquímica. Nasceu em Nova Lima no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu no início dos anos 1990.

 

5ª Rodada – 3/7/1932 – domingo
Villa Nova 3×1 América
Gols – Tonho (6’ do 1º), Canhoto (2’ do 2º), Carazo (37’ do 2º) (V) – Humberto (A)
Público – 600
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Guenther Scherer (MG)
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Tico-Tico, Carazo (Moore) e Geninho; Tonho, Lourdes, Cícero, Prão e Canhoto
Técnico – Euclides Dias
América – Riccio, Lacerda e Chico Preto; Ralfo, Humberto e Virgílio; Amador, Ari, Stancioli, Aguinaldo e Fausto

Curiosidade: O árbitro era vinculado ao Cruzeiro. O ponta-direita Tonho era um exímio cobrador de pênalti, valendo-se de um expediente pouco usual. O jogador virava-se de costas para a bola e o gol. Ao ouvir o apito do árbitro, virava-se rapidamente e soltava um petardo. Tonho chutava bem com os dois pés e, às vezes, trocava de posição com o ponta-esquerda durante as partidas.

 

7ª Rodada – 7/8/1932 – domingo
Villa Nova 3×0 Palestra Itália
Gols – Canhoto (15’ do 1º), Prão (20’ do 1º), Prão (32’ do 2º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Raimundo Sampaio (MG)
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Tico-Tico, Carazo e Geninho; Tonho, Moore, Cícero, Prão e Canhoto
Técnico – Euclides Dias
Palestra Itália – Geraldo, Nereu e Taian; Licínio, Barbacena e Calixto; Piorra, Paulista, Malleta, Bengala e Alcides
Técnico – Matturio Fabbi

Curiosidade: O goleiro Gustavo mais uma vez brilhou e defendeu um pênalti cobrado por Malleta. Ele era austríaco e veio para Nova Lima trabalhar na empresa de mineração. Posteriormente, Gustavo tornou-se um próspero industrial em São Paulo.

 

12ª Rodada – 2/10/1932 – domingo
Sete de Setembro 2×2 Villa Nova
Gols – Maninho, Bracarense (S) – Carazo, Moore (V)
Local – Estádio do Barro Preto (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – Rogério Guido Lazzarotti (MG)
Sete de Setembro – Geraldo, Américo e Raul; Caramatti, Maurício e Teixeira; Barata, Maninho, Tavinho, Bracarense e Orozífero (Darci)
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Tico-Tico, Carazo e Geninho; Lêra, Moore,  Brant, Prão e Canhoto
Técnico – Euclides Dias

Curiosidade: Num ataque do Sete de Setembro no segundo tempo, quando a partida estava empatada por 2×2, uma bola foi chutada pelo ataque do time de Belo Horizonte no travessão e quicou sobre a linha fatal, não consignando o gol. O árbitro interrompeu o jogo e foi consultar o auxiliar de linha de fundo, que afirmou que a bola não havia transposto a linha do gol. Irados, os jogadores do Sete pediram ao árbitro a substituição do auxiliar de gol, pedido que foi acatado.

 

13ª Rodada – 9/10/1932 – domingo
América 0x4 Villa Nova
Gols – Lêra (23’ do 1º), Canhoto (2’ do 2º), Carazo (14’ do 2º), Prão (31’ do 2º)
Local – Estádio da Alameda (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – Guenther Scherer (1º tempo) e Rogério Guido Lazzarotti (2º tempo) (MG)
América – Armando, Pedercine e Chico Preto; Ralfo (Elliot), Ditinho e Paim; Amador, Mingueira, Satiro Taboada, Alencar e Dutra
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Bento, Carazo e Geninho; Lêra, Moore, Brant, Prão e Canhoto
Técnico – Euclides Dias

Curiosidade: O árbitro Guenther Scherer recusou-se a voltar para o segundo tempo por causa do mau comportamento da torcida do América. Uma pescaria de 40 minutos foi necessária para escolher outro árbitro no estádio.

Na preliminar, as equipes de base de América e Villa Nova empataram por 1×1.

 

15ª Rodada – 23/10/1932 – domingo
Palestra Itália 2×2 Villa Nova
Gols – Bengala (8’ do 2º), Alcides (17’ do 2º) (P) – Canhoto (23’ do 1º), Moore (12’ do 2º) (V)
Local – Estádio do Barro Preto (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – Raimundo Sampaio (MG)
Palestra Itália – Geraldo, Pedrinho e Taian; Caieira, Barros e Calixto; Piorra, Bellini, Malleta, Bengala e Alcides
Técnico – Matturio Fabbi
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Bento, Carazo e Geninho; Lêra (Tonho), Moore, Brant, Prão e Canhoto
Técnico – Euclides Dias

Curiosidade: O empate deixou o Cruzeiro na liderança, com um ponto de vantagem sobre o Leão, que ainda tinha duas partidas a cumprir. Porém, o Villa Nova venceu os jogos restantes e sagrou-se campeão.

Na preliminar, o time de base do Villa Nova venceu o Cruzeiro por 4×2.

 

9ª Rodada – 30/10/1932 – domingo
Villa Nova 7×0 Grêmio
Gols – Canhoto(3), Lêra(2), Carazo, Tonho
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Euclides Dias (MG)
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Tico-Tico, Carazo e Geninho; Tonho, Lêra, Bento, Atílio e Canhoto
Técnico – Euclides Dias
Grêmio – Paulino, Pára-Raio e Geraldo; Marinheiro, Rocha e Zezé; Geraldinho, Inhô, Pantuzzo, 84 e Cachucha

Curiosidade: Precisando vencer para recuperar a liderança, o Leão não deu trégua ao adversário e já no intervalo vencia facilmente por 3×0. Na segunda etapa, mais quatro gols fizeram com que o placar de 7×0 obtido no primeiro turno fosse repetido. O árbitro nessa partida foi Euclides Dias, ninguém menos que o próprio técnico do Villa Nova.

 

10ª Rodada – 13/11/1932 – domingo
Vespasiano 1×2 Villa Nova
Gols – Dute (pênalti) (VE) – Moore, Carazo (pênalti) (VN)
Local – Estádio do Vespasiano (Vespasiano-MG)
Vespasiano – Alcides, Barão e Mormela; Mundico, Américo e Guerino; Rezende, Teixeira, Barroso, Alípio e Dute
Villa Nova – Gustavo, Barão e Sérgio; Bento, Carazo e Geninho; Tonho, Moore, Lêra, Brant e Canhoto
Técnico – Euclides Dias

Curiosidade: Partida dramática em que o Villa Nova somente conseguiu a vitória em uma cobrança de pênalti feita por Carazo. O autor do gol que garantiu o primeiro título oficial do Leão do Bonfim chamava-se Fernando Carazo de Castro. Era espanhol – de La Coruña – e chegou ao Brasil aos nove anos de idade. Antes dessa proeza, Carazo havia sido tricampeão mineiro pelo Palestra Itália em 1928/1929/1930.

O jogador foi levado para o Villa Nova pelo presidente Castor Cifuentes, seu compatriota, que o seduziu com uma boa proposta financeira, embora oficialmente ainda vigorasse o amadorismo. Infelizmente, não foi possível identificar o nome do árbitro e nem a cronologia dos gols.

 

Classificação final do Campeonato Mineiro – 1932

 1º Villa Nova, 18 pontos, 8V, 2E, 0D, 34GP, 07GC
 2º Palestra Itália, 15 pontos, 7V, 1E, 2D, 35GP, 16GC
 3º Sete de Setembro, 11 pontos, 5V, 1E, 4D, 15GP, 22GC            
 4º América, 8 pontos, 4V, 0E, 6D, 21GP, 16GC            
 5º Vespasiano, 5 pontos, 2V, 1E, 7D, 13GP, 28GC            
 6º Grêmio, 3 pontos, 1V, 1E, 8D, 7GP, 36GC

 

OBS. 1 – O artilheiro do certame foi Bengala (Palestra Itália), com 12 gols.

OBS. 2 – Não houve o jogo entre América e Vespasiano válido pelo returno. O Coelho entregou os pontos ao adversário, que foi declarado vencedor por WO.

OBS. 3 – As rodadas estão fora da seqüência normal em decorrência da Revolução Constitucionalista de 1932, que eclodiu em São Paulo. Os jogadores do Villa Nova precisavam de salvo-conduto para poder sair de Nova Lima e jogar as partidas no campo dos adversários. Além disso, o Leão folgou em algumas rodadas, de acordo com a tabela oficial publicada nos jornais da época. O Cruzeiro, por exemplo, cumpriu todos os seus compromissos no campeonato antes do Villa Nova e ficou torcendo por um tropeço do alvirrubro nos três jogos restantes para se sagrar campeão.

 

Os heróis do primeiro Campeonato Mineiro conquistado pelo Villa Nova foram:

Gustavo – Gustavo Pfeiffer
Cri-Cri – Agenor Armani
Turco – Geraldo Francisco
Sérgio – José Sérgio Pereira
Bento – Bento Epaminondas Roussin
Brant – Carlos Brant
Geninho – Eugênio Nonato
Tonho – Antônio Carlos de Souza
Moore – Cecil Derrick Moore
Carazo – Fernando Carazo de Castro
Canhoto – Alfredo Moreira
Lêra – João Militino Gomes
Alencastro – Alencastro Tomé de Lima
Atílio – Atílio Buzzatti
Cícero – Cícero Dias de Castro
Onofre – Onofre Perez Furletti
Lacerda – Adolfo Lacerda
Prão – José Henrique Custódio
Lourdes – José de Lourdes
Teófilo – Teófilo Francisco
Zé de Deus – José de Deus



Presidente – Castor Cifuentes

 

Percebe-se que o Villa Nova, muito antes de Real Madrid e Barcelona, montou o primeiro time globalizado do mundo. Gustavo era austríaco, Moore, inglês, e Carazo, espanhol.

 

O esquadrão que fez história

O alvorecer do profissionalismo em Minas Gerais trouxe consigo o advento de um dos maiores times já montados em toda a história do futebol no Estado. O Villa Nova avassalador que surgiu nesse período começou  a ser arquitetado ainda na era do amadorismo, quando o time alvirrubro iniciou sua hegemonia com a conquista do Campeonato Mineiro de 1932 promovido pela AMEG. A consolidação dessa máquina de jogar futebol – que marcou época em Minas e no Brasil – consolidou-se com a conquista do primeiro tricampeonato estadual obtido sob os ditames do novo regime.

Essa equipe magistral é apontada por muitos cronistas esportivos e historiadores como sendo uma das melhores já montadas no Estado.  É o caso de Plínio Barreto. Para ele, o esquadrão do Leão do Bonfim da primeira metade dos anos 1930 só pode ser comparado, em termos de qualidade técnica e performance, ao Cruzeiro da época da inauguração do Mineirão, que contava com Raul, Zé Carlos, Piazza, Dirceu Lopes, Natal e Tostão, entre outras feras.

O surgimento desse incomparável time villa-novense deve-se, em grande parte, ao presidente Castor Cifuentes, o espanhol chefe da mina, que nunca economizou recursos para dotar o clube de craques. Alguns torcedores mais antigos chegam a defender a tese de que o Villa Nova nasceu, de fato, quando o time fabuloso começou a ganhar tudo em Minas, assombrando os grandes da Capital com vitórias épicas e retumbantes.

Plínio Barreto, cruzeirense confesso, porém, homem sensível às maravilhas forjadas pelo futebol, registrou com eloqüência sua admiração pelo timaço do Leão daquele tempo. Por expressar de maneira tão fiel a grandeza do Villa Nova, o texto do brilhante escriba vai reproduzido abaixo:

 

O Leão do Bonfim

Para muita gente não terá havido outra equipe que possa ser comparada à do Villa Nova de 33-34-35. Um time que fazia de Nova Lima “A Capital do Futebol Mineiro”, orgulhosa de seu Leão do Bonfim.

Houve uma época em que a cidade de Nova Lima mostrava, a um só tempo, duas coisas altamente importantes: o expressivo valor do ouro que saía de suas entranhas e a grandeza de um time chamado Villa Nova. A significação da extração aurífera continuou a destacar-se, criando divisas, oferecendo empregos, dando vida e autenticidade à rica e modesta cidade que fica junto à Serra do Curral, mas o Villa Nova foi aos poucos deixando de ser aquela equipe fabulosa que tanto se responsabilizara pela presença de público onde atuasse.

O Villa Nova se criara e se robustecera de mansinho, sem alarde, escondido entre as montanhas. O regime amadorista estava findo com o advento do profissionalismo em 1933. Enquanto Palestra, América e Atlético se consumiam vendo partir para outros centros maiores seus melhores elementos, o alvirrubro de Nova Lima ia mantendo seus campeões de 32. Enquanto o Atlético via partir para o Fluminense, do Rio, o Nariz, o Said e o Brant, ele, o Villa Nova, ia garantindo a presença de seus Sérgio, Geninho, Prão, Canhoto e Tonho.

O Palestra perdera seus Fantoni (Ninão, Nininho e Niginho), e o América não acreditara no sucesso do novo regime. O Villa Nova se cuidava, conseguindo também seus reforços. No Sete de Setembro havia um goleiro que atendia pela alcunha de Geraldão. O Villa Nova o levou para o Alçapão do Bonfim. Chico Preto, que formava no América da camisa verde e branca também tomou o rumo da Terra do Ouro. Do Guarani, da Lagoinha, levou um moço que mais tarde iria se transformar no mais completo médio direito do futebol brasileiro e mundial: Zezé Procópio. Trouxe do futebol carioca o centro-médio Neco. Um garoto chamado Alfredo Bernardino, que viera do Rio para o Retiro — que também criava, agasalhava e mostrava craques em Nova Lima —, foi levado para o clube do Bairro Bonfim. Canhoto, que fizera nome no América ao lado de Marcelo Linhares, da mesma forma subiu a serra e instalou-se no Alçapão. Da várzea belo-horizontina e, mais particularmente, do Bairro Carlos Prates foi levado o menino Perácio. E pratas-da-casa já eram o Sérgio, o Geninho e Tonho e, mais, Vareta, Lêra, Gustavo, Barão, Tico-Tico e alguns outros, inclusive Moore, que era um inglesinho profundamente habilidoso no manejo da bola.

No campeonato de 1933, primeiro da era profissional, o Villa Nova ainda não representava mais que simples imagem do que viria a ser em 1934 e 1935: era a equipe dos Alencastro, Barão, Tonílio, Lêra e Vareta. O aprimoramento viria depois, com a entrada dos novos valores, entre os quais o garoto Mergulho, um menino com marca definida de goleador, que chegaria a fazer sombra a Guará. Então, aqueles que freqüentavam os estádios passaram a saber de cor e a proclamar com insistência a grandeza da nova formação alvirrubra: Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Mergulho (ou Prão), Perácio e Canhoto.

Quando os jornais anunciavam em manchetes que o Leão ia descer a serra, já se sabia que era o Villa Nova que vinha jogar na Capital. E o Leão rugia mesmo, quer no Estádio Antônio Carlos, diante do Atlético, quer no Barro Preto, em disputas com o então Palestra, quer na Alameda, quando posto frente ao América. Um certo padrão quase sempre imperava: os resultados atestavam consecutivas vitórias do Villa Nova, às vezes até caracterizadas por goleadas impiedosas.

Não era só em Belo Horizonte que a equipe do Villa Nova levava público aos estádios, tanto que sua fama já ultrapassara nossas fronteiras, e o próprio futebol carioca reclamava ali sua presença para espetáculos de alto nível. Uma temporada do alvirrubro no Rio ficou na história. O Bangu havia conquistado o título de 1933, servindo-se de um quadro até hoje lembrado com saudades pela gente da terra do samba: Sobral, Ladislau da Guia, Tião, Plácido e Orlandinho. O Villa Nova foi lá e pulverizou o campeão carioca com um 4×0 que ficou na história. Os jornais da então Guanabara não fizeram economia de espaço em suas páginas de esporte para os elogios ao time villa-novense.

Os escretes que então se formavam em Minas tinham por base o alvirrubro de Nova Lima, tanto que no quadro que disputou o primeiro campeonato nacional da era profissional estiveram presentes cinco villa-novenses: Chico Preto, Zezé Procópio, Geninho, Alfredo Bernardino e Canhoto.

Mas, como o que é bom dura pouco, o Villa Nova foi, paulatinamente, perdendo seu poderio. Aquela equipe famosa foi-se extinguindo e o Leão do Bonfim passou a não rugir como antes. Chico Preto e Tonho pegaram um trem em Nova Lima e desceram na estação de Sabará, vinculando-se ao Siderúrgica. Zezé Procópio e Alfredo Bernardino não resistiram ao canto da sereia executado pelo Atlético e vieram para o estádio Antônio Carlos. Neco retornou ao futebol carioca, ao seu Olaria, e Perácio foi para o Botafogo, do Rio. Uma tuberculose galopante consumiu Mergulho, um menino que sabia marcar gols e que chegava até mesmo a ofuscar a estrela de Guará.

Em 1937, o Villa Nova ameaçou de novo a reconquista da hegemonia perdida em 36 para o Atlético. Seu time tinha como força maior um ataque formado por Abras, Carazo, Geraldino, Remo e Mestiço. Sua defensiva tinha como base Geraldão, Jair e Sérgio; Nagib, Mangabeira e Geninho. Chegou a uma melhor de três com o Siderúrgica, perdendo a partida decisiva, disputada no campo do América, com um gol alvianil marcado por Arlindo, depois de uma penalidade máxima perdida por Carazo, com defesa de Princeza. O Leão seria vice-campeão mineiro também em 1945/46/47 e 1953.

Mais tarde voltou a conquistar um título máximo, o de 51, com um bom time: Arizona, Madeira e Anísio; Vicente, Lito e Tão; Osório, Vaduca, Rodolfo, Foguete e Escurinho. Um bom time, sim, mas longe de lembrar o timaço dos Perácio, Alfredo Bernardino, Canhoto, Zezé Procópio, Chico Preto e tantas outras feras.

O Atlético de 36 e de 48, o Palestra de 40, o siderúrgica de 37, o América de 48 — nenhum deles chegou a igualar-se ao Villa Nova de 33-34-35. Melhor que ele tenha sido, talvez, o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Piazza & Cia, e, ainda assim, encontramos muitos que não concordam com tal opinião. O Villa Nova do tempo de Castor Cifuentes foi de fato um time fora de série, inscrevendo-se nos registros como um marco de uma época áurea do nosso futebol.

(Texto extraído do livro Futebol no Embalo da Nostalgia, páginas 48, 49, 50, 51 e 52).

 

O Campeonato Mineiro de 1933

Com a participação dos três grandes clubes de Juiz de Fora (Tupi, Sport e Tupynambás), o Campeonato Mineiro de 1933 teve sua primeira edição profissional. Os jogos valiam simultaneamente pelo certame estadual e pelo Campeonato da Cidade de Belo Horizonte. O Villa, com seu esquadrão quase imbatível, tornou-se o primeiro campeão mineiro da Era Profissional. Mais uma primazia do Leão do Bonfim na história do nosso futebol. E de quebra conquistou, em paralelo, o Campeonato da Cidade. Um verdadeiro campeão em dobro.

 

Participantes

Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima)
Società Sportiva Palestra Itália (Belo Horizonte)
América Futebol Clube (Belo Horizonte)
Clube Atlético Mineiro (Belo Horizonte)
Retiro Sport Club (Nova Lima)
Esporte Clube Siderúrgica (Sabará)
Sport Club Juiz de Fora (Juiz de Fora)
Tupi Foot-Ball Club (Juiz de Fora)
Tupynambás Futebol Clube (Juiz de Fora)

 

1ª Rodada do Campeonato Mineiro / 1ª Rodada do Campeonato da Cidade – 18/6/1933 – domingo
Villa Nova 3×1 Retiro
Gols – Canhoto (8’ do 1º), Canhoto (20’ do 2º), Alfredo Bernardino (30’ do 2º) (V) – Baianinho (35’ do 2º) (R)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Antônio Silva Pinto (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Tico-Tico e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Retiro – Amador, Rodrigues e Bico; Aprígio, Alcindo e Silva (Osvaldo); Astor, Ministrinho (Tíbio), Baianinho, Bianco e Palmier
Técnico – Pires

Curiosidade: O adversário do Villa tem sua sede e seu estádio – Retiro Saudoso – no Bairro Retiro, em Nova Lima, cujo nome remete à ordenha do gado leiteiro que abundava no local no começo do século XX. Os numerosos rebanhos se destinavam ao “retiro” do leite que era consumido pelos milhares de pessoas envolvidas nas atividades da Saint John Del Rey Mining Company Limited.

Não se tratava de nenhum exagero a existência de um contingente tão grande de gado para a utilização exclusiva da mineradora. Nessa época, Nova Lima contava com uma população estimada de 15.000 pessoas, das quais cerca de 10.000 estavam diretamente vinculadas ao dia-a-dia da empresa de mineração.

Na preliminar de amadores: Villa Nova 3×2 Retiro

 

2ª Rodada do Campeonato Mineiro / 2ª Rodada do Campeonato da Cidade -25/6/1933 – domingo
Palestra Itália 1×6 Villa Nova
Gols -Bengala (20’ do 2º) (P) – Canhoto (30’’ do 1º), Prão (11’ do 1º), Prão (15’ do 1º), Lêra (18’ do 2º), Alfredo Bernardino (28’ do 2º), Alfredo Bernardino (30’ do 2º) (V)
Local – Estádio do Barro Preto (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – Antônio Silva Pinto (MG)
Palestra Itália – Geraldo, Nereu e Rizzo; Caieira (Pantuzzo), Barros e Calixto; Piorra, Zezé, Álvaro (Souza), Bengala e Alcides (Teixeira)
Técnico – Matturio Fabbi
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Tico-Tico e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: José Henrique Custódio, o Prão, nunca soube a origem do seu inusitado apelido. O que ele sabia fazer como poucos era gol, principalmente ao lado de um ataque que contava com Alfredo Bernardino, Perácio, Tonho e Canhoto, entre outras feras. No tetracampeonato conquistado pelo Villa Nova nos anos 1930, Prão se cansou de balançar as redes adversárias.

Começou no time principal do Leão em 1927 e foi titular durante dez anos. Em novembro de 1951, foi chamado pelo presidente Cecil Jones para substituir o técnico Martim Francisco. Na função de treinador, foi campeão do Torneio Intermunicipal de Salvador e do Supercampeonato Mineiro. Após deixar o futebol, o ex-artilheiro foi trabalhar na Mineração Morro Velho, onde se aposentou. Era topógrafo e, mesmo aposentado, continuou a exercer a profissão em Nova Lima.

 

3ª Rodada do Campeonato Mineiro – 2/7/1933 – domingo
Sport 2×2 Villa Nova
Gols – Paulinho (15’ do 1º), Lodo (19’ do 1º) (S) – Alfredo Bernardino (25’ do 1º), Alfredo Bernardino (10’ do 2º) (V)
Local – Estádio José Procópio Teixeira (Juiz de Fora-MG)
Árbitro – Antônio Silva Pinto (MG)
Sport – Zazá, Quim e Braz; Jaime, Fotofísio e Otávio; Possato, Paulinho, Urbino, Lodo e Luiz
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Tico-Tico e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Sport 1×1 Tupinambás.

 

4ª Rodada do Campeonato Mineiro – 9/7/1933 – domingo
Tupynambás 2×1 Villa Nova
Gols – Cláudio (28’ do 1º), Alfredo (31’ do 2º) (T) – Perácio (28’ do 2º) (V)
Local – Estádio da Alameda (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – José de Souza (MG)
Tupinambás – Balu, Mascote e Pereira; Teófilo, Lulu e Valdemiro; Chiquinho (Alfredo), Nino, Cláudio, Lessa e Tamoio
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Teófilo e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra, Perácio e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

 

6ª Rodada do Campeonato Mineiro / 6ª Rodada do Campeonato da Cidade – 23/7/1933 – domingo
Siderúrgica 1×3 Villa Nova
Gols – Pascoal (S) – Canhoto (7’ do 1º), Canhoto (16’ do 1º), Alfredo Bernardino (pênalti) (29’ do 2º) (V)
Local – Estádio da Praia do Ó (Sabará-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Siderúrgica – Princesa, Penaforte e Trevinte; Bigode (Ditinho), Moraes e Valter; Valdemar (Samuel), Pascoal, Campos, Juquiá e Osvaldinho
Técnico – Jean Pierre Forhmann
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Vareta, Lêra, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: No lance do primeiro gol, o árbitro havia apitado uma falta, a zaga do Siderúrgica parou, mas Canhoto deu seqüência à jogada e marcou o gol, que foi confirmado. Ainda no primeiro tempo, o árbitro não marcou um pênalti cometido pelo goleiro Geraldão que, ao segurar uma bola, atingiu com o pé o atacante Pascoal.

Na preliminar de amadores: Villa Nova 7×2 Siderúrgica.

 

7ª Rodada do Campeonato Mineiro / 7ª Rodada do Campeonato da Cidade -30/7/1933 – domingo
América 1×3 Villa Nova
Gols – Paulista (9’ do 1º) (A) – Alfredo Bernardino (pênalti) (22’ do 1º), Curiol (37’ do 1º), Canhoto (8’ do 2º) (V)
Local – Estádio da Alameda (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
América – Romeu (Clóvis), Pedercine e Américo; Ralfo (Rafael), Humberto e Elliot; Hugo, Paulista, Tavinho (Paim), Jaci e Mingueira
Técnico – José de Souza
Villa Nova – Geraldão, Tico-Tico e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Vareta (Tonho), Lêra, Curiol (Perácio) e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: O goleiro americano Romeu fraturou o pulso nessa partida.

 

9ª Rodada do Campeonato Mineiro / 9ª Rodada do Campeonato da Cidade – 13/8/1933 – domingo
Villa Nova 3×0 Atlético
Gols – Alfredo Bernardino (19’ do 2º), Canhoto (25’ do 1º), Barros (contra) (42’ do 1º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Guenther Scherer (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Vareta (Tonho), Lêra, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Atlético – Humberto, Maurílio e Evando; Barros, Jaime e Mário Gomes; Naná, Jacir, Jairo (Orlando), Geraldino e Dario (Didico)
Técnico – Calvetti

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Villa Nova 3×3 Atlético.

 

10ª Rodada do Campeonato Mineiro – 20/8/1933 – domingo
Tupi 1×3 Villa Nova
Gols – Coruja (4’ do 2º) (T) – Lêra (11’ do 1º), Alfredo Bernardino (12’ do 1º), Prão (15’ do 2º) (V)
Local – Estádio Salles de Oliveira (Juiz de Fora-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Tupi – Jairo (Adinho), Tirolito e Oliveira; Coruja, Onestaldo (Paixão) e Magalhães; Lima, Miro, Lage, Néri e Rolando
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Aos 26 minutos do segundo tempo houve uma briga envolvendo o goleiro Geraldão e o meia Paixão. Geraldão era considerado um atleta-fera, pois intimidava os adversários com as travas das suas chuteiras. No entanto, jamais o goleiro machucou um companheiro de profissão.

 

12ª Rodada do Campeonato Mineiro / 12ª Rodada do Campeonato da Cidade – 17/9/1933 – domingo
Villa Nova 6×0 Palestra Itália
Gols – Prão(2), Tonho, Alfredo Bernardino, Canhoto, Vareta
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro –  Guenther Scherer (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio (Souza), Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Vareta, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Palestra Itália – Geraldo, Raul e Álvaro; Caieira, Barata e Teixeira (Calixto); Piorra, Ninão, Zezé, Bengala (Orlando) e Alcides
Técnico – Matturio Fabbi

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Villa Nova 5×4 Palestra Itália.

 

13ª Rodada do Campeonato Mineiro – 24/9/1933 – domingo
Villa Nova 2×0 Tupynambás
Gols – Canhoto (31’ do 2º), Prão (39’ do 2º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Sísifo Tavares (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco (Tico-Tico) e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Vareta (Lêra), Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Tupinambás – Balim, Pereira e Nandim; Téo, Mascote e Valdemiro; Chiquinho, Nino, Cláudio, Honório e Lessa

Curiosidade: Na preliminar de aspirantes: Villa Nova 3×1 Andaraí (BH).

 

14ª Rodada do Campeonato Mineiro / 14ª Rodada do Campeonato da Cidade – 1º/10/1933 – domingo
Villa Nova 2×1 Siderúrgica
Gols – Tonho (28’ do 1º), Prão (2’ do 2º) (V) – Campos (36’ do 2º) (S)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Guenter Scherer (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Teófilo e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Siderúrgica – Princesa, Penaforte e Arnaldo; Ditinho, Moraes e Valter (Bigode); Aziz, Pascoal (Valdemar), Campos, Samuel e Rezende
Técnico – Jean Pierre Fhormann

 

16ª Rodada do Campeonato Mineiro – 15/10/1933 – domingo
Villa Nova 3×0 Tupi
Gols – Alfredo Bernardino (3’ do 1º), Alfredo Bernardino (4’ do 2º), Vareta (10’ do 2º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Joaquim Carvalho (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Tico-Tico e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Vareta, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Tupi – Adinho, Paixão e Oliveira; Orlando, Maurício (Caiana) e Tirolito; Geraldino, Miro, Lage, Néri e Rolando

Curiosidade: A exemplo da partida do primeiro turno, quando houve uma confusão entre o goleiro Geraldão e o meia Paixão, aconteceu outra briga, desta vez entre Miro e Zezé Procópio.  A contenda envolveu jogadores e dirigentes de ambos os clubes a partir dos 15 minutos do segundo tempo.

Os jogadores Miro, Paixão e Caiana abandonaram o campo, e o capitão do Tupi informou ao árbitro que não havia garantias caso novas desavenças ocorressem entre os atletas. A partida, então, foi suspensa pelo juiz.

Na preliminar de amadores: Villa Nova 1×1 União de Itabirito.

 

17ª Rodada do Campeonato Mineiro / 17ª Rodada do Campeonato da Cidade – 22/10/1933 – domingo
Retiro 1×0 Villa Nova
Gol – Pires (20’ do 1º)
Local – Estádio Retiro Saudoso (Nova Lima-MG)
Árbitro – Antônio Silva Pinto (MG)
Retiro – Amador, Rodrigues e Bico; Cafifa, Mário e Pires; Astor, Ministrinho, Baiano, Bianco e Napoleão
Técnico – Pires
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Tico-Tico e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Vareta (Lêra), Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Nesse jogo ocorreu uma das maiores confusões na história do Campeonato Mineiro: a partida foi interrompida no segundo tempo, após agressão de Alfredo Bernardino ao árbitro Antônio Silva Pinto, que o expulsou de campo. O apitador revogou a decisão.

Reiniciada a partida, o atacante do Leão voltou a agredir o juiz, após a marcação de um impedimento contra ele. Vários jogadores e torcedores se envolveram numa briga, que deixou vários feridos a golpes de facas e tiros.

O ex-jogador do Villa Nova, João Carvalho, rasgou a súmula do jogo, que foi remarcado para 8/4/1934. As equipes, porém, desistiram de disputá-lo.

Na preliminar de amadores: Retiro 0x2 Villa Nova.

 

19ª Rodada do Campeonato Mineiro – 5/11/1933 – domingo
Villa Nova 9×0 Sport
Gols – Tonho, Canhoto, Vareta (1º tempo), Lera(4), Canhoto, Vareta (2º tempo)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Áureo Carneiro (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Negrito e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Vareta, Lêra e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Sport – Zazá (Braga), Mario e Braz; Nagib, Fotofísio e Otávio; Paulinho, Urbino, Cabinho, Daniel e Vítor

Curiosidade: Esse foi o jogo que marcou a conquista do título pelo Villa Nova. Curiosamente, o time alvirrubro marcou seis gols no segundo tempo antes dos 10 minutos da partida.

 

21ª Rodada do Campeonato Mineiro / 21ª Rodada do Campeonato da Cidade – 26/11/1933 – domingo
Villa Nova 3×0 América
Gols – Lêra(2) (1º tempo), Ralfo (contra) (2º tempo)
Local – Estádio da Alameda (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio (Perácio), Téo e Geninho; Tonho (Prão), Alfredo Bernardino, Vareta, Lêra e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
América – Romeu, Pedercine e Lacerda; Rafael (Ralfo), Humberto e Elliot; Hugo, Apocalipse, Lelo, Miguelzinho e Mingueira (Paulista)
Técnico – José de Souza

Curiosidade: O gol contra marcado por Ralfo ocorreu após um forte chute do atacante Prão. Na preliminar de amadores: Villa Nova 4×2 América.

 

24ª Rodada do Campeonato Mineiro / 24ª Rodada do Campeonato da Cidade – 28/1/1934 – domingo
Atlético 2×2 Villa Nova
Gols – Péricles (26’ do 1º), Jacir (2º tempo) (A) – Canhoto(2) (2º tempo) (V)
Local – Estádio Presidente Antônio Carlos (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – Guenther Scherer (MG)
Atlético – Gustavo (Ananias), Milito e Evando; Larô, Floriano (Justo) e Mário Gomes, Péricles (Guará), Jacir, Justo, Nicola e Didico
Técnico – Ivo Melo
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Roberto e Geninho; Tonho (Lêra), Alfredo Bernardino, Vareta, Prão e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Atlético 2×1 Villa Nova.

 

Classificação final do Campeonato Mineiro – 1933

 1º Villa Nova26 pontos, 12V, 2E, 2D, 51GP, 13GC
 2º Tupi, 21 pontos, 9V, 3E, 4D, 34GP, 27GC
 3º Tupynambás, 19 pontos, 8V, 3E, 5D, 29GP, 23GC            
 4º Siderúrgica, 18 pontos, 8V, 2E, 6D, 26GP, 22GC            
      Atlético, 18 pontos, 8V, 2E, 6D, 29GP, 30GC            
 6º Palestra Itália, 15 pontos, 5V, 5E, 6D, 28GP, 37GC
 7º Sport, 14 pontos, 5V, 4E, 7D, 22GP, 41GC
 8º Retiro, 13 pontos, 6V, 1E, 9D, 25GP, 38GC
 9º América, 12 pontos, 3V, 4E, 9D, 31GP, 44GC

 

OBS. – Os artilheiros do certame foram Canhoto (Villa Nova), Paulista (América) e Lage (Tupi), com 13 gols.

 

Presidente – Castor Cifuentes

 

 

O Campeonato Mineiro de 1934

Após o fracasso financeiro da unificação dos campeonatos de Belo Horizonte e de Juiz de Fora ocorrido em 1933, a AMF de Belo Horizonte e a AMF de Juiz de Fora resolveram simplificar a disputa do título de campeão mineiro numa melhor de três entre os campeões de ambos os campeonatos na temporada de 1934.

A primeira partida ocorreu em Juiz de Fora, e o Villa Nova venceu o Tupinambás por 2×0 em 14 de dezembro. O segundo jogo, marcado para 21 de dezembro em Nova Lima, não ocorreu, e a decisão foi suspensa, após a AMF de Juiz de Fora se desfiliar da Federação Brasileira de Futebol (FBF) e retornar à Confederação Brasileira do Desporto, tornando-se a entidade máxima do futebol mineiro naquela entidade.

 

Participantes

Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima)
Società Sportiva Palestra Itália (Belo Horizonte)
América Futebol Clube (Belo Horizonte)
Clube Atlético Mineiro (Belo Horizonte)
Sete de Setembro Futebol Clube (Belo Horizonte)
Retiro Sport Club (Nova Lima)
Esporte Clube Siderúrgica (Sabará)

 

1ª Rodada – 6/5/1934 – domingo
Atlético 1×3 Villa Nova
Gols – Evando (pênalti) (1º tempo) (A) – Lêra(2) (2º tempo), Tonho (2º tempo) (V)
Local – Estádio Presidente Antônio Carlos (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – Guenther Scherer (MG)
Atlético – Armando Policeni, Maurílio e Evando; Jacir, Odilon e Mário Gomes; Lelo, Paulista, Guará (Paulinho), Justo e Nicola
Técnico – Tenente Labanca
Villa Nova – Geraldão, Turco e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Olívio; Tonho, Campos, Vareta, Perácio (Lêra) e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: O goleiro Armando defendeu um pênalti cobrado por Tonho aos 10 minutos do primeiro tempo. Na preliminar de amadores: Atlético 8×2 Villa Nova.

 

2ª Rodada – 13/5/1934 – domingo
Villa Nova 3×0 Retiro
Gols – Tonho (26’ do 1º), Canhoto (30’ do 2º), Canhoto (33’ do 2º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Guenther Scherer (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Olívio; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Lêra  e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Retiro – Amador, Rodrigues e Salgueiro; Cafifa (Mário), Henrique e Bico; Tíbio (Napoleão), Astor, Baiano, Sinval e Ditinho
Técnico – Pires

 

4ª Rodada – 27/5/1934 – domingo
Villa Nova 2×2 Palestra Itália
Gols – Alfredo Bernardino, Campos (1º tempo) (V) – Pantuzzo, Alcides (2º tempo) (P)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Enéas Sgarzi (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Olívio; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Lêra e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Palestra Itália – Geraldo, Mundico e Jovem; Caieira, Álvaro e Calixto; Pantuzzo, Zezé, Carlos Alberto, Bengala e Alcides
Técnico – Matturio Fabbi

 

5ª Rodada – 3/6/1934 – domingo
Villa Nova 2×1 Siderúrgica
Gols – Canhoto (30’ do 1º), Alfredo Bernardino (35’ do 2º) (V) – Camilo (10’ do 1º) (S)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Villa Nova – Geraldão, Turco e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Olívio; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Lêra e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Siderúrgica – Princesa, Penaforte e Bergamini; Geraldo, Moraes e Mascote; Chiquito, Marques, Camilo, Chôla e Rezende
Técnico – Jean Pierre Fhormann

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Villa Nova 7×0 Siderúrgica

 

6ª Rodada – 10/6/1934 – domingo
Villa Nova 2×0 Sete de Setembro
Gols – Perácio (36’ do 1º), Tonho (32’ do 2º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Abílio Lopes de Almeida (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Olívio; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra, Perácio e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Sete de Setembro – Humberto, Milito e Américo; Barata, Tininho e Hélio; Mário, Bracarense (Ademar), Beleléu, Serra Negra e Ovídio
Técnico – José Lima

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Villa Nova 8×1 Sete de Setembro.

 

8ª Rodada – 24/6/1934 – domingo
América 3×3 Villa Nova
Gols – Marcondes (pênalti) (1º tempo), Marcondes (2º tempo), Satiro Taboada (2º tempo) (A) – Canhoto (10’ do 1º), Lêra (1º tempo), Pimentão (contra) (2º tempo) (V)
Local – Estádio da Alameda (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – Enéas Sgarzi (MG)
América – Clóvis, Pimentão e Lacerda; Adão, Chinda e Virgílio; Mingueira, Hugo (Alencar), Satiro Taboada, Lelo e Marcondes
Técnico – Manfredo Costa – Tonheca
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra, Perácio e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: O gol contra, marcado pelo defensor americano Pimentão, ocorreu após tentativa de interceptar um chute desferido pelo atacante Alfredo Bernardino.

 

10ª Rodada – 1º/7/1934 – domingo
Siderúrgica 2×1 Villa Nova
Gols – Chiquito(2) (1º tempo) (S) – Canhoto (38’ do 2º) (V)
Local – Estádio da Praia do Ó (Sabará-MG)
Árbitro – Abílio Lopes de Almeida (MG)
Siderúrgica – Princesa, Penaforte e Bergamini; Geraldo, Moraes e Mascote; Dimas (Marques), Chiquito, Camilo, Chôla e Rezende
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio (Penna); Zezé Procópio, Neco e Olívio; Tonho, Alfredo Bernardino, Lêra (Vareta), Perácio e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Siderúrgica 2×3 Villa Nova.

 

12ª Rodada – 22/7/1934 – domingo
Retiro 0x7 Villa Nova
Gols – Canhoto (10’ do 1º), Campos (30’ do 1º), Alfredo Bernardino (35’ do 1º), Tonho (42’ do 1º), Alfredo Bernardino (20’ do 2º), Tonho (30’ do 2º), Alfredo Bernardino (47’ do 2º)
Local – Estádio Retiro Saudoso (Nova Lima-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Retiro – Amador (Doca), Rodrigues e Salgueiro (Bico); Alcindo, Carreiro e Cafifa; Ministrinho, Astor, Baiano, Napoleão (Sinval) e Dentinho
Técnico – Pires
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Pascoal e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Retiro 1×3 Villa Nova.

 

14ª Rodada – 5/8/1934 – domingo
Sete de Setembro 1×1 Villa Nova
Gols – Curiol (2º tempo) (S) – Campos (1º tempo) (V)
Local – Estádio da Alameda (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Sete – Humberto, Hélio e Américo; Barata, Tininho e Teixeira; Tavinho (Curiol), Zé Maria, Cavalaria, Beleléu e Ovídio
Técnico – José Lima
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Olívio; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Pascoal e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: A diretoria do Sete abriu os portões para a torcida antes do jogo; uma contusão do goleiro Humberto paralisou a partida por 10 minutos no segundo tempo; o Sete reclamou de um pênalti de Chico Preto em Curiol no segundo tempo. O time da Capital se fechou em sua defesa e, a partir dos 20 minutos do segundo tempo, passou a chutar bolas para a arquibancada a fim de que a torcida segurasse-a o maior tempo possível.

Na preliminar de amadores: Sete de Setembro 0x4 Villa Nova.

 

16ª Rodada – 19/8/1934 – domingo
Villa Nova 11×0 América
Gols – Alfredo Bernardino, Canhoto, Pascoal, Alfredo Bernardino (1º tempo), Campos, Canhoto, Alfredo Bernardino, Pascoal, Campos, Alfredo Bernardino, Alfredo Bernardino (2º tempo)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Pascoal e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
América – Clóvis, Pedercine e Lacerda; Ralfo (Elliot), Pádua e Virgílio; Sílvio, Del Nero, Satiro Taboada, Bentinho e Mingueira
Técnico – Manfredo Costa – Tonheca

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Villa Nova 4×3 América.

 

21ª Rodada – 30/9/1934 – domingo – 15h
Villa Nova 1×0 Atlético
Gol – Perácio (24’ do 2º)
Público – 5.000
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Guilherme Gomes (RJ)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Pascoal (Perácio) e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Atlético – Armando Policeni, Tião e Evando; Justo (Jacir), Lola e Mário Gomes; Lelo, Paulista, Guará, Nicola (Naná) e Elair
Técnico – Floriano Peixoto Corrêa

OBS. – Jogo encerrado aos 24 minutos do segundo tempo.

Curiosidade: Villa Nova e Atlético chegaram à reta final do Campeonato Mineiro, que era disputado em turno e returno, com pontos corridos, em condições de, praticamente, decidir o título no clássico disputado entre eles no Estádio Castor Cifuentes. O Galo tinha um ponto à frente do Villa Nova, e bastava o empate para continuar na liderança e lutar pelo primeiro caneco na era do profissionalismo. O Leão do Bonfim precisava vencer para tentar o bicampeonato mineiro (ou tricampeonato, se levarmos em consideração que o Villa já tinha vencido o torneio promovido pela AMEG, uma entidade dissidente, em 1932).

O lendário Estadinho do Bonfim estava lotado, contando na tribuna de honra com as ilustres presenças do governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, e do ministro da Agricultura, Odilon Braga. O primeiro tempo terminou empatado por 0x0, resultado que garantia o troféu ao Atlético. O Villa Nova inicia o segundo tempo com uma alteração que seria decisiva para os destinos da partida: a entrada do jovem atacante Perácio no lugar de Pascoal.

Aos 24 minutos do segundo tempo, o ponta-direita villa-novense Tonho passa pela marcação de Mário Gomes e cruza no segundo pau. O ponta-esquerda Canhoto devolve a bola para o meio da grande área. Perácio aparece por trás da zaga atleticana e desfere uma forte cabeçada na bola, que vai parar no fundo das redes do goleiro Armando Policeni: gol do Villa Nova. Aí começa uma tremenda confusão, com os jogadores do Galo alegando que a bola saíra no cruzamento de Tonho, voltando ao campo devido à ação de um torcedor do Leão que a empurrou com uma bengala, retornando-a ao gramado.

Os jogadores do Villa Nova negam veementemente a bengalada e a polícia não consegue controlar a situação. Já os atletas do Atlético estimulam a confusão para que a noite comece a escurecer o Castor Cifuentes (a iluminação do estádio só foi instalada em abril de 1982!). Por falta de garantias, o árbitro Guilherme Gomes, que havia sido importado do Rio de Janeiro a peso de ouro para apitar a decisão, resolve encerrar o jogo e sai de Nova Lima sob forte esquema de segurança.

Começa, então, a batalha nos tribunais para se decidir o imbróglio criado com a suspensão da partida. O Villa Nova pleiteia a manutenção da vitória por 1×0, alegando que o Atlético forçou a confusão para encerrar o clássico e buscar a vitória no tapetão. O Galo insiste na anulação do jogo e na marcação de outro para Sabará, município vizinho a Nova Lima e sede do Esporte Clube Siderúrgica, grande rival do Leão do Bonfim naqueles tempos. Nem uma coisa, nem outra: numa decisão equilibrada, a Associação Mineira de Futebol (AMF) a entidade que organizava o Campeonato Mineiro na época, decidiu que os 21 minutos restantes seriam jogados realmente em campo neutro, porém, com os portões fechados. O complemento da decisão foi marcado realmente para o Estádio da Praia do Ó, campo do Siderúrgica, mas os portões fechados impediram a estratégia do Atlético de contar com a simpatia dos torcedores locais, além dos seus próprios, para pressionar o Villa Nova.

 

O cenário da batalha final

O jornalista Plínio Barreto foi muito feliz ao narrar o cenário em que se desenrolou a partida que ensejou o acontecimento do famoso gol da bengala. Eis o texto, que é a crônica fiel de uma tarde ensolarada, em que uma decisão entrou para os anais do futebol mineiro:

 

Desde muito cedo já se previa a superlotação do estadinho do Bonfim. Pela estrada de terra, poeirenta e sinuosa que ligava Belo Horizonte a Nova Lima, extensa serpente a romper a Serra do Curral, a fila interminável de carros, predominando o Ford Bigode, camionetas, e gente a pé, tomando o rumo do local do grande jogo: era a torcida do Atlético, esperançosa de ver o seu time campeão pela primeira vez na era profissional. Policiamento redobrado. Anunciava-se, e o fato foi confirmado, a presença na Tribuna de Honra do estádio, do governador Benedito Valadares e do ministro da Agricultura, Odilon Braga. Estas duas altas personalidades do mundo oficial, entretanto, não veriam o gol da bengala.

Às 15 horas, quando o juiz Guilherme Gomes e seus auxiliares entraram no gramado, o clima já era de indisfarçável tensão nervosa. Rompendo o portãozinho de madeira que dá acesso ao gramado, surgiu o Villa Nova, com Geraldão à frente, seguido de Chico Preto, Zezé Procópio, Canhoto, Pascoal, Campos, Sérgio, Alfredo Bernardino, Tonho, Geninho e Neco. Explodiu a torcida villa-novense, com os pinguços dando vazão a sua alegria etílica. As “mariposas” da Rua da Praia se esbaldavam dentro de seus vestidos de cetim lamê colados ao corpo curvilíneo, proclamando os nomes consagrados de seus ídolos. Não faltavam, também, os palavrões.

Logo a seguir, pelo mesmo e único portãozinho de madeira, surgiu o Atlético. Armando Policeni vinha à frente, com seu uniforme imaculadamente branco, seguido de Lola, Mário Gomes, Justo, Evando, Tião, Paulista, Guará, Nicola, Elair e Lelo. A torcida alvinegra recebeu com entusiasmo a entrada em campo do time dirigido por Floriano Peixoto, mas conteve suas aclamações mais entusiásticas, não desconhecendo o perigo da reação nem sempre pacífica de alguns mais exaltados representantes da gente nova-limense.

O apito de Guilherme Gomes autorizou o irrompimento das hostilidades, após o tradicional “tos” – a moedinha de 200 réis atirada ao alto para o cara ou coroa. E a luta começou. Em cada ataque do Villa Nova, Armando Policeni fazia milagres para conter as pontadas de Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Pascoal e Canhoto. Do outro lado, Geraldão, o goleiro-fera, mais fera do que nunca, a aparar as arremetidas de Guará, Nicola, Elair, Lelo e Paulista. Era bola prá lá e pra cá, com o Atlético mais preocupado em se defender. O empate lhe bastava. O primeiro tempo mostrava o placar em zero a zero, satisfazendo o alvinegro, incomodando o alvirrubro.

(Texto extraído do livro Futebol no Embalo da Nostalgia, páginas 88 e 89).

 

19ª Rodada – 7/10/1934 – domingo
Palestra Itália 0x3Villa Nova
Gols – Campos, Tonho, Neco (2º tempo)
Local – Estádio do Barro Preto (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Palestra Itália – Geraldo (Geraldo II), Raul e Jovem; Souza, Ferreira e Calixto; Pantuzzo, Zezé (Carlos Alberto), Orlando (Álvaro), Bengala e Alcides
Técnico – Matturio Fabbi
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino (Lêra), Campos, Perácio e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Precisando vencer para manter-se vivo na competição, o Leão lutou ferozmente e arrasou o Palestra no clássico. Com o triunfo, bastava ao time nova-limense segurar o Atlético nos 21 minutos restantes do jogo paralisado.

 

Os 21 minutos mais longos e dramáticos da história

Vencido o clássico com o Palestra Itália, de maneira inapelável, restava ao Villa Nova aguardar a decisão do tapetão. Definida a continuação da partida interrompida, o Leão do Bonfim foi a Sabará, terra do terrível rival Siderúrgica, para jogar os 21 minutos restantes do clássico com o Atlético. Plínio Barreto relata a dramaticidade dos momentos que o time nova-limense teve de suportar para garantir mais um campeonato:

 

O jogo do gol da bengala fora em 30 de setembro. Seus 21 minutos restantes foram cumpridos a 18 de novembro, isto é, 48 dias depois…

Na data fixada o juiz já não era o Guilherme Gomes, mas outro carioca, o Osvaldo Kroft de Carvalho. Foram permitidas alterações nos times, mas o Villa Nova compareceu tal como terminara o jogo interrompido: Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Perácio e Canhoto. O Atlético colocava Jacir de Assis em lugar de Justo: Armando Policeni, Tião e Evando; Jacir, Lola e Mário Gomes; Paulista, Lelo, Guará, Nicola e Elair.

Geraldão foi ocupar o gol que dá para a quadra de basquete. Armando ficou na meta do lado do Rio Nossa Senhora do Ó. Osvaldo Kroft de Carvalho dá início ao jogo e Guará movimenta a bola para Nicola. Agora só dá camisas alvinegras com a bola. Perdido por um, perdido por 10. O negócio era tentar o empate e, com ele, o título máximo. Mas havia um Geraldão a fazer milagres e distribuir temores. Houve um momento em que uma bola foi chutada com violência, por Elair. Geraldão defende e solta. Guará vinha na corrida, mas para não atingir a cabeça do goleiro, salta por cima. Geraldão reconhece o gesto do adversário, levanta-se, com a bola presa às mãos e dizem que teria dito ao menino louro de Ubá:

— Menino. Pelo que você fez, evitando atingir minha cabeça, fique sabendo que de agora em diante você será o único que eu jamais alcançarei com o bico de minhas chuteiras.

O tempo ia passando, e Alfredo Bernardino, com toda aquela categoria que Deus lhe dera, prendia a bola nos pés como se a tivesse amarrada aos cadarços de suas chancas. Canhoto colocava à prova e em prática toda a sua já velha experiência, fazendo cera. Houve um momento em que quase pararam os corações de jogadores e dirigentes alvirrubros: foi quando Guará passou por Chico Preto, fintou Sérgio e apontou, com violência, fora do alcance de Geraldão. A bola foi chocar-se contra o travessão, picou sobre a marca de cal do gol e… não entrou! Desafogo para os nova-limenses, desespero para os alvinegros. Restavam apenas dois minutos para o término da partida, quando Nicola recebe falta violenta de Geninho e não tem condições para prosseguir, entrando Naná em ação. Enfim, os 21 minutos estão cumpridos. Osvaldo Kroft de Carvalho faz soar o apito, encerrando a partida. Os jogadores do Villa Nova se abraçavam, chorando no gramado o pranto sadio da vitória. Os do Atlético nem procuram os vestiários e vão diretamente para o ônibus que os aguardam do lado de lá do Rio Nossa Senhora do Ó. O Vila Nova era mais uma vez campeão mineiro.

(Texto extraído do livro Futebol no Embalo da Nostalgia, páginas 91 e 92)

 

18/11/1934 – domingo – 15h
Villa Nova 0x0 Atlético
Público – Partida disputada com portões fechados
Local – Estádio da Praia do Ó (Sabará-MG)
Árbitro – Osvaldo Kroft de Carvalho (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Tonho, Alfredo Bernardino, Campos, Perácio e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Atlético – Armando Policeni, Tião e Evando; Jaci, Lola e Mário Gomes; Lelo, Paulista, Guará, Nicola e Elair
Técnico – Floriano Peixoto Corrêa

OBS. – Foram disputados os 21 minutos restantes do jogo anteriormente suspenso.

Curiosidade: Quarenta e oito dias após o polêmico lance da bengala – que entrou para os anais do rico folclore do futebol mineiro e que nunca foi completamente esclarecido, embora os indícios sejam de que se tratou de uma tentativa de armação por parte do Atlético, os 21 minutos do clássico foram jogados em Sabará. O Villa Nova segurou o assédio atleticano e não permitiu o empate. Com a manutenção do 1×0 obtido com o gol de Perácio na partida inacabada, que depois iria para o Botafogo e disputaria a Copa do Mundo de 1938 como titular absoluto, o Leão sagrou-se campeão mineiro de 1934.

 

Classificação final do Campeonato Mineiro – 1934

 1º Villa Nova, 19 pontos, 8V, 3E, 1D, 39GP, 10GC
 2º Atlético, 18 pontos, 8V, 2E, 2D, 25GP, 11GC
 3º Siderúrgica, 15 pontos, 6V, 3E, 3D, 29GP, 17GC            
 4º Palestra Itália, 10 pontos, 3V, 4E, 5D, 22GP, 27GC            
      Retiro, 10 pontos, 4V, 2E, 6D, 20GP, 26GC            
 6º América, 7 pontos, 2V, 3E, 7D, 21GP, 38GC
 7º Sete de Setembro, 5 pontos, 1V, 3E, 8D, 16GP, 43GC

 

Curiosidade: O artilheiro do certame foi Alfredo Bernardino (Villa Nova), com 10 gols. O jogador era um verdadeiro malabarista com a bola nos pés, apontado como um dos melhores do País. O goleador veio para o Villa Nova do Vila Isabel, time que disputava a Primeira Divisão no Rio de Janeiro.

O América tentou levá-lo para o Rio de Janeiro, porém Alfredo Bernardino rechaçou a oferta, revelando um dado inusitado do seu contrato com o Leão do Bonfim: “Encontrei-me com os irmãos Aymoré e Zezé Moreira, do América, que me fizeram convite para treinar em Campos Sales, pois o clube desejava o meu concurso. Não aceitei o convite, pois estou plenamente satisfeito em Minas, nas hostes do Villa Nova, onde todos são amigos e me dispensam grande consideração. A minha consciência não poderia se sentir tranqüila se eu me prevalecesse dessa viagem para abandonar o Villa Nova. Não sou ingrato, nem ambicioso. Estou preso ao Villa Nova por um espaço de dois anos, percebendo 450 mil réis mensais, além de 5% sobre a renda bruta dos jogos do meu time, qualquer que seja o resultado no placar. O contrato está registrado na Federação e em cartório de títulos e documentos, possuindo eu uma cópia devidamente autenticada”. (Estado de Minas, 1º/8/1983, página 6)

Será que esse contrato foi verdadeiro ou isso era bravata de Alfredo Bernardino para fugir do assédio americano? Somente Castor Cifuentes, o ótimo presidente da época, poderia responder.

 

Presidente – Castor Cifuentes

 

O Campeonato Mineiro de 1935

O sistema de disputa do Campeonato previa três turnos, sendo que o último teria os jogos disputados apenas na Capital. A falta de interesse dos clubes, devido ao distanciamento do Villa Nova na tabela, fez com que a Associação Mineira de Futebol suprimisse o terceiro turno e proclamasse o Leão do Bonfim campeão.

 

Participantes

Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima)
Società Sportiva Palestra Itália (Belo Horizonte)
América Futebol Clube (Belo Horizonte)
Clube Atlético Mineiro (Belo Horizonte)
Retiro Sport Club (Nova Lima)
Esporte Clube Siderúrgica (Sabará)

 

1ª Rodada – 31/3/1935 – domingo
Villa Nova 3×1 Atlético
Gols – Lêra (3’ do 2º), Mergulho (23’ do 2º), Lêra (38’ do 2º) (V) – Paulista (40’ do 2º) (A)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – José Avelino (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Brechó; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho, Lêra, Perácio e Mergulho
Técnico – Zé de Deus
Atlético – Kafunga, Tião (Hélio) e Evando; Jacir, Lola e Mário Gomes; Lelo, Bazzoni, Paulista, Nicola e Elair
Técnico – Floriano Peixoto Corrêa

Curiosidade: As reclamações dos jogadores do Atlético quanto à marcação de um pênalti aos 19 minutos do primeiro tempo – num lance em que a bola tocou a mão do zagueiro Tião – interrompeu a partida por 30 minutos. Na cobrança, Kafunga defendeu o chute desferido por Alfredo Bernardino.

 

2ª Rodada – 7/4/1935 – domingo
Villa Nova 2×1 Palestra Itália
Gols – Mergulho (37’ do 1º), Mergulho (18’ do 2º) (V) – Orlando (22’ do 1º) (P)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG) e Edgar Pernambuco (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco (Tonílio) e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho (Canhoto), Lêra, Perácio e Mergulho
Técnico – Zé de Deus
Palestra Itália – Geraldo, Raul e Chiquinho; Souza, Ferreira e Mundico; Pantuzzo, Orlando, Zezé, Bengala e Alcides
Técnico – Matturio Fabbi

Curiosidade: Surgiu a idéia de se escalarem dois árbitros em cada partida do campeonato. Cada um deles cuidava de uma das metades do campo de jogo. Porém, a dificuldade de se encontrar dois bons apitadores para as partidas abortou a iniciativa no Segundo Turno do certame.

Na preliminar de amadores: Villa Nova 9×1 Palestra Itália.

 

3ª Rodada – 21/4/1935 – domingo
Siderúrgica 0x3Villa Nova
Gols – Mergulho (11’ do 1º), Mergulho (segundo tempo), Perácio (36’ do 2º)
Local – Estádio da Praia do Ó (Sabará-MG)
Árbitro – Dunorte André (MG) e Euclides Dias (MG)
Siderúrgica – King-Kong, Florindo e Trevinte; Aziz, Moraes e Chorão; Dimas, Chôla, Valdemar, Juquiá e Rezende
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho, Perácio, Mergulho e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

 

5ª Rodada – 28/4/1935 – domingo
Retiro 0x1 Villa Nova
Gol – Mergulho (12’ do 1º)
Local – Estádio Retiro Saudoso (Nova Lima-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Retiro – Amador, Rodrigues e Salgueiro; Cafifa, Alcindo e Bico; Ismael, Campos, Napoleão, Vadinho e Furtado
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho, Perácio, Mergulho e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Retiro 3×5 Villa Nova.

 

7ª Rodada – 12/5/1935 – domingo
América 2×6 Villa Nova
Gols – Mingueira (2’ do 2º), Nelson (20’ do 2º) (A) – Alfredo Bernardino (10’ do 1º), Canhoto (15’ do 1º), Canhoto (16’ do 1º), Mergulho (25’ do 1º), Mergulho (35’ do 1º),  Alfredo Bernardino (5’ do 2º) (V)
Local – Estádio da Alameda (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – Edgar Pernambuco (MG) e Euclides Dias (MG)
América – Humberto (Romeu), Lacerda (Pádua) e Dondon, Tininho, Carabina e Paulino; Mingueira, Camillo, Curiol (Nelson), Rômulo e Marcondes
Técnico – Satiro Taboada
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho, Perácio, Mergulho e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Não se assuste o leitor com a ausência do acento agudo na primeira sílaba do nome do técnico americano, que foi também o maior artilheiro da história do Coelho com 167 gols, além de cunhado do craque Perácio – que foi casado com uma irmã de Satiro. Em vez de Sátiro, que seria a forma mais comum utilizada no Brasil, o nome da fera era mesmo paroxítono.

Quando o Leão já vencia por 4×0, o goleiro Geraldão defendeu um pênalti cobrado por Marcondes, no primeiro tempo.

Na preliminar de amadores: América 1×0 Villa Nova.

 

10ª Rodada – 2/6/1935 – domingo
Villa Nova 8×1 América
Gols – Alfredo Bernardino (3’ do 1º), Alfredo Bernardino (14’ do 1º), Lêra (29’ do 1º), Alfredo Bernardino (32’ do 1º), Alfredo Bernardino (23’ do 2º), Alfredo Bernardino (35’ do 2º), Mergulho (38’ do 2º), Mergulho (39’ do 2º) (V) – Nelson (11 do 2º) (A)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Lêra, Perácio, Mergulho e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
América – Romeu (Gama), Pádua e Dondon, Tininho, Albino (Carabina) e Paulino; Mingueira, Camillo, Bené, Nelson e Marcondes
Técnico – Satiro Taboada

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Villa Nova 2×1 América.

 

12ª Rodada – 16/6/1935 – domingo
Palestra Itália 3×3 Villa Nova
Gols – Bengala (9’ do 1º), Orlando (44’ do 1º), Geraldão (contra) (segundo tempo) (P) – Alfredo Bernardino (4’ do 1º), Perácio (27’ do 1º), Tonho (35’ do 1º) (V)
Local – Estádio do Barro Preto (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Palestra Itália – Geraldo, Raul e Jovem; Souza, Ferreira e Mundico; Pantuzzo, Orlando, Niginho (Hervé), Bengala e Alcides
Técnico – Matturio Fabbi
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho (Lêra), Perácio, Mergulho e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Palestra Itália 2×2 Villa Nova.

 

13ª Rodada – 23/6/1935 – domingo
Villa Nova 2×0 Siderúrgica
Gols – Mergulho (20’ do 1º), Canhoto (20 do 2º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Euclides Dias (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho, Perácio, Mergulho e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Siderúrgica – Joãosinho, Penaforte e Bergamini (Trevinte); Geraldo, Moraes e Chorão; Dimas, Chôla, Nino, Juquiá e Osvaldinho

Curiosidade: Na preliminar de amadores: Villa Nova 2×3 Siderúrgica

 

14ª Rodada – 30/6/1935 – domingo
Villa Nova 5×1 Retiro
Gols – Mergulho (20’ do 1º), Canhoto (20 do 2º)
Local – Estádio Castor Cifuentes (Nova Lima-MG)
Árbitro – Satiro Taboada (MG)
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Tico-Tico, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho, Perácio, Mergulho e Canhoto
Técnico – Zé de Deus
Retiro – Amador, Rodrigues e Clóvis; Cafifa, Alcindo e Bico; Nestor, Vadinho, Campos, Ismael e Furtado

 

16ª Rodada – 14/7/1935 – domingo
Atlético 1×0 Villa Nova
Gol – Guará (35’ do 2º)
Local – Estádio Presidente Antônio Carlos (Belo Horizonte-MG)
Árbitro – José Pedro Rizzo (MG)
Atlético – Kafunga, Perácio e Evando; Jacir, Lola e Bala; Lelo (Murillo), Paulista, Guará (Bitola), Nicola e Elair
Técnico – Floriano Peixoto Corrêa
Villa Nova – Geraldão, Chico Preto e Sérgio; Zezé Procópio, Neco e Geninho; Alfredo Bernardino, Tonho, Perácio, Mergulho e Canhoto
Técnico – Zé de Deus

 

Classificação final do Campeonato Mineiro – 1935

 1º Villa Nova, 17 pontos, 8V, 1E, 1D, 33GP, 10GC
 2º Atlético, 12 pontos, 6V, 0E, 4D, 29GP, 16GC
 3º Siderúrgica, 9 pontos, 4V, 1E, 5D, 26GP, 27GC            
 4º Palestra Itália, 8 pontos, 3V, 2E, 5D, 23GP, 24GC            
      América, 8 pontos, 3V, 2E, 5D, 20GP, 36GC            
 6º Retiro, 6 pontos, 3V, 0E, 7D, 10GP 28GC

 

OBS. – O artilheiro do certame foi Mergulho (Villa Nova) com 12 gols. Pouco tempo depois, o jogador teve um fim trágico: morreu vitimado pela tuberculose, doença que naquela época era altamente letal.

 

Presidente – Castor Cifuentes

 

O macumbeiro venal

Diz a anedota que se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminaria sempre empatado. Mas não é apenas na Boa Terra que a crença fervorosa nas forças do além está presente. Em Minas Gerais vários relatos orais registram a ocorrência de visitas de dirigentes de clubes a pais e mães-de-santo em busca de proteção espiritual. O Villa Nova não escapou dessa mania, e às vésperas de um jogo importante do Campeonato Mineiro de 1935 contra o Palestra Itália, atual Cruzeiro, resolveu se valer dos préstimos de um famoso macumbeiro de Belo Horizonte.

Na época, Cícero Dias era atleta do Leão e também motorista do presidente da Saint John Del Rey Mining Company Limited, Mr. Forbes. Os dois saíram de Nova Lima e chegaram ofegantes ao terreiro do tal macumbeiro – famoso por sua eficiência – localizado no Bairro São Bento, depois do Museu Abílio Barreto. A região era desabitada e pantanosa, e, ao ser abordado, o babalaô recusou o trabalho. Mr. Forbes, então, com o seu pragmatismo inglês, dobrou a oferta pecuniária pela colaboração, mas o macumbeiro mostrava-se irredutível. Nesse momento, o britânico radicalizou e ofereceu o quíntuplo do que fora proposto no início da conversa.

Diante de tamanha tentação, o pai-de-santo capitulou e aceitou a empreitada. Iniciados os trabalhos, após a queima de velas, incensos e o sacrifício de uma galinha preta, o babalorixá pegou uma enxada e mandou Cícero Dias ir até o fundo da tenda e cavar a terra. Depois de cinco minutos de escavação, o dedicado jogador encontrou uma pequena panela de ferro debruçada sobre uma outra do mesmo tamanho.

Sob o olhar fleumático de Mr. Forbes, o macumbeiro descolou as duas panelas e mandou o dirigente observar o conteúdo de tão bizarra peça. Lá dentro das duas panelas estava um grande barbante com onze pedaços de papel, que continham o nome dos jogadores titulares do Villa Nova. Após desamarrar os papéis e queimá-los, o macumbeiro escreveu o nome dos atletas do Palestra Itália, amarrou-os no mesmo barbante e remontou as panelas. Cícero Dias enterrou-as novamente na terra, e o Leão faturou dias depois o tetracampeonato mineiro, macumbas à parte…

 

O presidente que deu a vida pelo Leão

Castor Cifuentes foi o presidente responsável pela formação do melhor time do Villa Nova até hoje, o esquadrão que conquistou o tetracampeonato mineiro entre 1932 e 1935. Mais relevante que isso: foi o dirigente que desencadeou e ajudou a consolidar o regime profissional no futebol em Minas Gerais. Entrou para a história do clube e de Nova Lima da maneira mais louvável possível, já que administrava o Leão do Bonfim movido por um único sentimento: o amor desmedido ao pavilhão alvirrubro.

A devoção do espanhol Castor Cifuentes ao time e a sua abnegação ao futebol custaram caro. As gerações passadas e atuais da família Cifuentes defendem com vigor a tese segundo a qual a morte de Castor teve como motivo principal sua demissão do importante cargo de chefe da mina.

Numa época em que a Revolução Russa de outubro de 1917 fazia ecoar pelo mundo capitalista o pavor causado pelo ideário comunista, Castor Cifuentes foi defenestrado da Saint John Del Rey Mining Company Limited sob a “grave” acusação de ter participado de uma reunião no Sindicato dos Mineiros. De fato, Castor Cifuentes havia ido ao sindicato, porém, para tratar com os operários assuntos relacionados ao Villa Nova.

O ex-presidente villa-novense era avesso a qualquer envolvimento político e jamais usou sua posição no clube e na empresa para fazer proselitismo de ideologia alguma. Castor Cifuentes presidia o Leão por amor à instituição e ao esporte, percebendo nele uma grande possibilidade de criar laços fraternos entre os trabalhadores da mina. Desgostoso com a injusta demissão, Castor Cifuentes deprimiu-se de forma aguda, falecendo em menos de 15 dias. Desde então, seu nome passou a batizar o estádio do Villa Nova numa homenagem merecidíssima dos torcedores e da comunidade nova-limense a sua nobre memória.

Homem culto e sensível, Castor Cifuentes lutou pela construção da espaçosa casa que abriga até hoje a Biblioteca Pública Municipal de Nova Lima. O notável dirigente nasceu no dia 29 de janeiro de 1893 em Chaguazoso, cidade localizada na Galícia, província espanhola que fica na fronteira com Portugal. Assim que completou 18 anos, veio para o Brasil com o intuito de fugir das guerras que começavam a atormentar a Europa e fixou-se na Terra do Ouro para labutar na empresa de mineração.

Foi um funcionário tão exemplar da Saint John Del Rey Mining Company Limited que recebeu o título honorífico de capitão, honraria que até então era privativa dos ingleses. Em 1916, casou-se com a senhora Leonor Cifuentes Martins, espanhola da Andaluzia, em cerimônia realizada no Rio de Janeiro. O casal de espanhóis, que se conheceu no Brasil, teve sete filhos: Conceição, Carmen, Odúlia, Dalva, Amparo, Isabel e Afonso.

A morte precoce, aos 42 anos de idade, aconteceu no dia 22 de novembro de 1935, quatro meses depois de o Villa Nova haver conquistado o tetracampeonato mineiro.

Dona Conceição Cifuentes Dias, 80 anos, filha de Castor, lembra com imensa alegria do carinho que os jogadores do Villa nutriam pelo presidente, que não media esforços para proporcionar boas condições de trabalho aos atletas. Era comum Castor Cifuentes viajar à Espanha para recrutar novos trabalhadores para a mineradora. Quando o seu retorno era anunciado, os jogadores iam até a residência da família Cifuentes e deixavam o local completamente arrumado para recepcionar o chefe querido. Dona Conceição recorda que Perácio era um dos mais animados nesse mimo a Castor Cifuentes, cuja paixão pelo Leão o levou à morte.

 

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Castor Cifuentes, Presidente do Tetracampeonato Mineiro do Villa Nova

 

Após seu período de ouro, o Villa ainda conquistaria o Campeonato Mineiro de 1951, numa célebre decisão contra o Atlético, no recém-inaugurado Estádio Independência.

 

 

Wágner Augusto Álvares de Freitas é jornalista, torcedor e historiador do Villa Nova

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