Adeus a Waldo, o maior artilheiro tricolor

Waldo Machado da Silva começou a jogar bola, como tantos outros meninos, nas peladas de rua e na praia, em Niterói, onde nasceu no bairro do Barreto. Calçou seu primeiro par de chuteiras aos 16 anos, defendendo o Fluminense de Niterói.

 

 

O artilheiro que veio do outro lado da baía

Do outro lado da Baía da Guanabara, nas Laranjeiras, o titular do time do Fluminense dirigido por Zezé Moreira era Marinho. Waldo recém-chegado ao clube esperava uma oportunidade. E ela surgiu, quando Zezé sem poder contar com Marinho que estava contundido, escalou Waldo.

Na época, muitos afirmavam que Waldo custara ao Fluminense o preço de uma passagem Niterói-Rio. No início, os gols marcados eram poucos e os perdidos eram muitos. Os críticos e os torcedores viam no jovem atacante mais um “bonde”, que na linguagem do futebol é o jogador sem habilidade, sem técnica.

 

 

Com os gols veio o desabafo

Reservado, Waldo não ria, ou melhor, ria pouco. Com esse seu jeito deu tempo ao tempo. Quando os gols começaram a surgir, o atacante declarou:

 

 

“Chegou a minha vez. A sorte está do meu lado e torço para que ela fique igual à modinha: daqui ninguém me tira. A gente pode aprender tudo. A chutar, a escolher o canto, a enganar o beque, o goleiro, a se colocar bem, a entrar na hora “h”. A verdade é que com azar não há nada que faça a bola entrar. O que eu tinha era azar, porque fazer, eu sabia. Não posso negar que aprendi muito com Seu Pirilo.” – entrevista à Manchete Esportiva.

 

 

Os incríveis gols de Waldo

No campeonato carioca de 1956, o Fluminense terminou em segundo lugar e Waldo liderou a artilharia com 22 gols. Coincidência ou não, nessa temporada o técnico do artilheiro era Silvio Pirilo, que quando jogador atuava de centroavante e era exímio artilheiro.

Sua carreira atingiu o auge no Rio-São Paulo de 1957. Waldo fez gols incríveis contra o Palmeiras, Corinthians, São Paulo. Após o título invicto do torneio, nas três temporadas seguintes Waldo continuou a marcar, sendo importante nas conquistas  do campeonato carioca de 1959 e do Torneio Rio-São Paulo de 1960.

O chute forte com o pé esquerdo ou direito era temido pelos adversários. Waldo tinha coragem e não acreditava em bola perdida. Estas virtudes fizeram de Waldo uma constante preocupação para goleiros e zagueiros que o tinham pela frente.

No campeonato carioca de 1955, o Bonsucesso estava invicto. Em Teixeira de Castro, Fluminense e Bonsucesso se enfrentavam num jogo duríssimo, quando o goleiro Julião ao praticar a defesa ouviu o trilar de um apito vindo da arquibancada. Colocou a bola no chão para bater a possível falta marcada pelo árbitro. Waldo, atento ao lance, se aproximou e tocou a bola para dentro da meta rubro-anil.

Bibi, zagueiro do Bonsucesso, que participou da partida nos falou sobre o lance:

 

 

“Aqui, em Teixeira de Castro, perdemos de 1 a 0 para o Fluminense. Vou contar o que aconteceu. O juiz era o inglês Mister Barrick. Eu chutei três bolas impossíveis e o Veludo defendeu. Aqui, o estádio estava botando gente pelo ladrão. A partir de 1 hora, não entrava mais ninguém.

Jogo duro, Bonsucesso invicto. Numa jogava pela lateral esquerda do Fluminense, eu estava marcando o Escurinho, que corria muito. Colocaram uma bola na frente e eu não consegui pegar o Escurinho. Ele cruzou na altura da marca do pênalti e o Julião abafou. Mas, atrás do gol apitaram. Aí, o Julião colocou a bola na marca do pênalti. Eu corri e gritei: não Julião, não Julião!  O Waldo veio, tocou e fez o gol. Eu tinha esta sequência toda do gol no jornal Última Hora. A bola foi entrando, eu querendo salvar e não consegui.

Daí o jogo ficou parado 40 minutos, por causa deste gol. Nós reclamamos, porque na hora do gol, o juiz estava de costas. Eu até me aborreci com o falecido Telê, que ficou zombando pela perda da invencibilidade do Bonsucesso. Para ganhar da gente, não era mole não. Aqui todos tremiam Flamengo, Vasco, Botafogo.

Discutimos e como ele morava também na Vila da Penha, eu disse que o pegaria no outro dia na Vila da Penha. Resolvi ir ao vestiário do Fluminense para pegá-lo e fui preso. Quem me prendeu foi o delegado José Gomes Sobrinho, que era também árbitro de futebol”.

 

 

A carreira de Waldo ficou marcada pela autoria de gols incríveis. Foram vítimas do grande artilheiro o Corinthians, Palmeiras, São Paulo e outros clubes.

 

 

A ida para a Espanha

Em 1961, quando deixou o Fluminense para jogar no Valência, da Espanha, Waldo havia atingido o total de 314 gols, sendo o maior artilheiro da história do tricolor.

Quando esteve no Rio de Janeiro trazido pelo querido amigo e grande tricolor Valterson Botelho, nos encontramos, no Hotel Flórida, localizado na Rua Ferreira Viana, no Catete.  Depois no lançamento de sua biografia, também, tivemos a oportunidade de conversar com o ex-jogador. Pudemos sentir a emoção de Waldo ao relembrar suas inesquecíveis conquistas com a camisa do Fluminense.

Acompanhei a carreira de Waldo, como torcedor, e assisti muitos de seus incríveis gols. O grande artilheiro nos deixou na segunda-feira, dia 25 de fevereiro de 2019.

O inesquecível Waldo ficará para sempre na memória dos torcedores do Fluminense e sua história materializada nas páginas de sua biografia de autoria do grande tricolor Valterson Botelho.

 

Nota: Waldo Machado nasceu em São Gonçalo-RJ no dia 9 de setembro de 1934.  Começou a jogar futebol pelo Fluminense Atlético Clube de Niterói. Em 1954, se transferiu para o Fluminense, atuando até 1961, quando se transferiu para o Valencia da Espanha. Pelo clube espanhol, jogou até 1969, quando se transferiu para o Hércules da cidade espanhola de Alicante, onde encerrou a carreira em 1971. Waldo é o maior artilheiro de toda a história do Fluminense com 319 gols em 403 jogos. Para que se tenha uma ideia, na segunda colocação está Orlando Pingo d’Ouro com 184 gols em 310 jogos, de 1945 a 1953. Fred, artilheiro histórico mais recente, ocupa a terceira colocação com 172 gols em 288 jogos, de 2009 a 2016. É muito pouco provável que a marca alcançada por Waldo seja um dia batida. Pelo Valencia, Waldo é o segundo maior artilheiro da história do clube com 160 gols em 296 partidas (link), permanecendo até hoje como um dos principais artilheiros brasileiros da Liga Espanhola com 117 gols, todos pelo Valencia.

Pelo Fluminense, Waldo foi campeão do Torneio Rio x São Paulo de 1957 e 1960 e campeão carioca de 1959. Pelo Valencia, foi campeão da Copa do Rei de 1967. Encerrada sua carreira, Waldo estabeleceu residência em Valencia. Retornou ao Rio de Janeiro apenas no começo da década de 2010. Depois de tantos anos na Espanha, falava portunhol. Waldo descansou no dia 25 de fevereiro de 2019, na cidade espanhola que adotou como sua casa, deixando seu nome registrado para sempre nas histórias do Fluminense Football Club e do Valencia Club de Fútbol.

 

 

 

 

 

Colaborou: Jorge Priori.

 

Agradecimentos: Valterson Botelho e João Cláudio Boltshauser.

 

 

José Rezende é jornalista, torcedor do Fluminense, responsável pelo Blog Álbum dos Esportes e autor dos livros “Hei de Torcer até Morrer”, sobre o America-RJ, “Eternamente Bangu”, e co-autor, juntamente com o historiador Raymundo Quadros, do livro “Vai dar Zebra”, sobre a história dos clubes pequenos do Rio de Janeiro.

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