Os campeonatos estaduais não precisam acabar.

Já se tornou costume nos últimos anos se questionar a disputa dos campeonatos estaduais, principalmente os disputados no Rio e em São Paulo, estados que concentram a maior quantidade de clubes que disputam a primeira divisão do campeonato brasileiro.

O que não faltam são argumentos pelo fim dos estaduais, considerados por muitos como campeonatos ultrapassados e obsoletos. Bem, como o próprio título deste artigo deixa bastante claro, sou contra o fim dos estaduais. Sinceramente, não se acaba simplesmente com competições centenárias, base histórica do futebol brasileiro. Sua adaptação aos tempos atuais não passa pela sua extinção, e sim pela sua adequação.

É importante deixar claro que a análise que será feita tem como objeto os campeonatos do Rio e de São Paulo,  que conheço relativamente bem. Seria humanamente impossível, além de interminável, analisar os demais 25 campeonatos. Mesmo assim, essa análise serve como uma referência que me permite emitir uma opinião sobre os demais campeonatos no final desse artigo.

 

 

O Campeonato Paulista

Disputado desde 1902, o campeonato paulista foi o primeiro campeonato oficial da história do futebol brasileiro. Ele adotou os pontos corridos até 1972, com raras exceções[1].

 

historiadores-dos-esportes-os-campeonatos-estaduais-nao-precisam-acabar-10

SPAC, bermudas escuras, e Paulistano, bermudas claras, finalistas do campeonato paulista de 1902. [2]

 

 

A partir de 1973, o campeonato passou a adotar as finais. Mesmo assim, desde 1973 o campeonato recorreu ao sistema de pontos corridos em 7 oportunidades: 1976, 1984, 1994, 1996, 2002, 2005 e 2006.

Considerando os campeonatos a partir de 1972, o campeonato paulista utilizou com muitas variações o formato Fase Classificatória + Fase Final. Em 39 campeonatos, a Fase Final foi organizada no formato de torneio, sendo que 10 edições a partir das quartas-de-final, 16 a partir das semifinais e 13 passando diretamente para a final. Em 1997, o campeonato foi decidido num quadrangular final.

 

10 campeonatos decididos a partir das quartas-de-finais, semi-finais e finais 2003, 2004, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018;

16 campeonatos decididos a partir das semi-finais 1978, 1979, 1983, 1985, 1986, 1987, 1989, 1998, 1999, 2000, 2001, 2002, 2007, 2008, 2009 e 2010;

13 campeonatos decididos diretamente nas finais 1973, 1974, 1975, 1977, 1980, 1981, 1982, 1988, 1990, 1991, 1992, 1993 e 1995;

Quadrangular Final, 1997;

Pontos corridos, 1976, 1984, 1994, 1996, 2002, 2005 e 2006.

 

Desde 2011, o campeonato paulista organiza sua fase final a partir das quartas-de-final. Agora vem a pergunta: quantas vezes, nos últimos 8 campeonatos, Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo não se classificaram para as quartas-de-final? Apenas uma única vez: Corinthians, 2014.

Por mais que o campeonato paulista tenha adotado um modelo racional, a participação dos 4 grandes na Fase Classificatória é apenas perda de tempo pois é praticamente certo que eles vão se classificar. O campeonato pode até ser racional, mas não é inteligente. Pior ainda é ter clássicos na Fase Classificatória, pois além de não valer muita coisa, eles terminam por desvalorizar o próprio campeonato, diminuindo o seu apelo. As federações ignoram, mas o torcedor não é burro. O que vale mesmo são os clássicos da Fase Final.

Se analisamos os campeonatos de 2003 e 2004, os primeiros que foram decididos a partir das quartas-de-final, organização retomada apenas em 2011, o Santos não se classificou em 2003 e o Corinthians em 2004.

Em outras palavras, em 40 possíveis classificações dos 4 grandes de São Paulo nos 10 campeonatos decididos a partir das quartas-de-final, apenas 3 não ocorreram.

 

O Campeonato Carioca

Disputado desde 1906, o campeonato carioca foi organizado por pontos corridos até 1971, com raras exceções[3]. A partir de 1972, o campeonato passou a ser organizado em Fase Classificatória + Fase Final. Ao contrário do campeonato paulista, os pontos corridos nunca mais foram utilizados. No entando, surgiu uma tradição muito própria do campeonato carioca: as taças dos turnos. O primeiro turno, com apenas duas exceções, 1979 (Especial) e 1980[4], passou a ser a Taça Guanabara[5]. O segundo turno adotou diversos nomes até 1981, quando a partir de 1982 passou a se chamar Taça Rio. Em algumas oportunidades, o campeonato teve um terceiro turno, cujas taças tiveram diversos nomes.

O campeonato carioca nunca foi um modelo de racionalidade. Longe disso. Por mais que se possa dizer que a partir de 1972 o campeonato passou a ter Fase Classificatória + Fase Final, sendo mais preciso, o campeonato adotou as mais diversas fórmulas, algumas delas extremamente confusas e esdrúxulas.

Mesmo assim, no meio de toda a confusão do campeonato carioca, existiu uma fórmula adotada nesse período que foi racional, inteligente e simples:

 

Fase Classificatória organizada em dois turnos disputados por pontos corridos;

O clube que somasse mais pontos no primeiro turno, era o seu campeão e se classificava para a final. O mesmo valia para o segundo turno, cuja pontuação era zerada;

Contudo, se no somatório geral (turno + returno) houvesse um clube que somasse mais pontos que o campeão do turno e do returno, este clube também se classificava para a final, que seria disputada através de um triangular final em turno único;

Esse tipo de campeonato também tinha uma outra possibilidade. Se um clube vencesse o primeiro e o segundo turno, ele seria campeão direto, sem a necessidade de final.

 

Este fórmula foi adotada pela primeira vez no Campeonato Carioca Especial de 1979, conquistado pelo Flamengo sem a necessidade de final depois de ter vencido os dois turnos. No total, ela foi utilizada em 15 oportunidades desde 1972:

 

1979 (Especial), 1980, 1982, 1983, 1984, 1985, 1986, 1989, 1991, 1992, 1993, 1996, 1998, 1999 e 2000.

 

Destes, os campeonatos de 1982, 1983, 1984 e 1985 foram decididos através de triangulares finais. Os campeonatos de 1979 (Especial), 1992, 1996 e 1998 não precisaram de final pois seus vencedores, Flamengo, em 1979 (Especial) e 1996, e Vasco, em 1992 e 1998, venceram os dois turnos.

Existem dois campeonatos que por nuances não podem ser considerados nessa relação:

 

No Estadual de 1990, a Taça Guanabara foi vencida pelo Vasco e a Taça Rio pelo Fluminense. Contudo, o Botafogo terminou na primeira colocação no somatório dos dois turnos, 32 pontos, contra 31 do Vasco e 29 do Fluminense. O regulamento previa que nesse caso, ao invés de um triangular final, Vasco e Fluminense disputariam uma espécie de semifinal para decidir quem faria a final contra o Botafogo. No dia 22/07/1990, o Vasco venceu o Fluminense por 1×0. No dia 29/07/1990, o Botafogo venceu o Vasco por 1×0 e se sagrou bicampeão carioca;

O Estadual de 2001 previa a decisão da Taça Guanabara no sistema de semifinal e final, que acabou sendo vencida pelo Flamengo contra o Fluminense. A Taça Rio, vencida pelo Vasco, foi disputada no sistema de pontos corridos.

 

Um detalhe interessante é que por mais que São Paulo não tenha criado a tradição das taças dos turnos, os campeonatos de 1973, 1974, 1975 e 1982 foram praticamente iguais ao modelo mencionado que foi utilizado no Rio de Janeiro:

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablessz/sp1973.htm

http://www.rsssfbrasil.com/tablessz/sp1974.htm

http://www.rsssfbrasil.com/tablessz/sp1975.htm

http://www.rsssfbrasil.com/tablessz/sp1982.htm

 

Na verdade, A Federação Paulista utilizou este modelo (1973) antes mesmo da Federação do Rio de Janeiro (1979).

 

O ápice da esquizofrenia da Federação do Rio

De 2004 a 2013, o campeonato do Rio passou a adotar as semifinais e finais dos turnos. Com esse modelo, não havia mais como acontecer os triangulares finais, mas o campeonato poderia ser conquistado sem final desde que um clube vencesse os dois turnos. Isso aconteceu em três oportunidades: Botafogo, 2010 e 2013, e Flamengo, 2011.

Este modelo não foi utilizado nos campeonatos de 2014, 2015 e 2016. Os campeonatos de 2014 e 2015 foram até mesmo simplificados: Fase Classificatória em turno único com os 4 primeiros colocados se classificando para as semifinais do campeonato. Nesses dois anos, o único grande que não se classificou foi o Botafogo em 2014. A vaga ficou com a Cabofriense, eliminada pelo Flamengo na semifinais. Em 2016, o campeonato foi organizado de forma arrastada com a Fase Classificatória tendo dois turnos. O primeiro com 16 clubes e o segundo com 8. Do segundo turno saíram 4 clubes que fizeram as semifinais do campeonato, novamente os 4 grandes[6].

A partir de 2017, a Federação retornou com as  semifinais e finais dos turnos e trouxe uma inovação esdrúxula: as semifinais da final. Ou seja, desde 2017 vencer um turno não garante mais a classificação para a final. Isso levou a criação de uma possibilidade bizarra que se confirmou em 2018: os campeões dos turnos, Flamengo, Taça Guanabara, e Fluminense, Taça Rio, ficaram de fora da final, que acabou sendo disputada por Botafogo e Vasco, clubes que não venceram nenhum dos dois turnos. Depois de perder a primeira partida para o Vasco por 3×2, 01/04/2018, o Botafogo venceu a segunda por 1×0, 08/04/2018, levando a decisão para os pênaltis, onde venceu por 4×2, sagrando-se campeão.

 

A solução

A solução dos campeonatos do Rio e de São Paulo está no passado do campeonato carioca. Trata-se de uma solução simples, que se adequa ao momento atual do futebol brasileiro, criando um campeonato realmente atrativo, curto, objetivo e, o mais importante, que não subestima a inteligência do torcedor.

Essa solução nasceu na fase dos pontos corridos, mais precisamente em 1961. Esse foi o primeiro campeonato em que se organizou a final em um octogonal. Depois de uma breve  interrupção entre 1962 e 1965, o Octogonal Final voltou a ser utilizado nos campeonatos de 1966, 1967, 1968, 1969, 1970 e 1971. Um detalhe interessante é que depois do início da fase das finais, o campeonato foi decidido novamente através de um Octogonal Final em 1979 e 1995.

O campeonato paulista em toda a sua história nunca foi decidido através de um Octogonal Final.

 

Vamos aos exemplos: os 9 Octogonais Finais do Rio

Os 9 Octogonais foram organizados em turno único ou dois turnos:

 

Turno Único: 1966, 1967, 1968, 1969, 1970 e 1979;

Dois turnos: 1961, 1971 e 1995;

 

Uma característica presente no espírito do Octogonais Finais, independente deles terem sido disputados em turno único ou com dois turnos, é que, com exceção de 1961 e 1967, todos eles foram decididos na penúltima ou na última rodada:

 

1961, dois turnos – O Botafogo fez uma campanha avassaladora no Octogonal Final de 1961 com 11 vitórias e 2 empates, somando 24 pontos. O Botafogo terminou com 8 pontos à frente de Flamengo, Fluminense e Vasco que somaram 16 pontos;

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1961.htm

 

1966, turno único, decidido na última rodada – Na última rodada, o Bangu, 12 pontos, fez a decisão contra o Flamengo, 10 pontos. O Flamengo tinha que vencer o jogo para forçar um jogo extra. Ao Bangu bastava o empate. No dia 18/12/1966, o Bangu venceu o Flamengo por 3×0 em uma partida que não acabou devido a uma pancadaria história iniciada aos 26 minutos do segundo tempo pelo time do Flamengo, mais precisamente pelo histórico, e já falecido, Almir Pernambuquinho;

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1966.htm

 

1967, turno único, decidido na última rodada – Na última rodada, o Bangu, 12 pontos, fez a decisão contra o Botafogo, 11 pontos. O Botafogo tinha que vencer o jogo para conquistar o campeonato. Ao Bangu bastava o empate. No dia 17/12/1967, o Botafogo venceu o Bangu por 2×1 e se sagrou campeão;

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1967.htm

 

1968, turno único – O Botafogo fez uma campanha perfeita, derrotou todos os sete adversários e conquistou todos os 14 pontos em disputa;

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1968.htm

 

1969, turno único, decidido na penúltima rodada – Este campeonato teve uma diferença com relação aos demais. Por mais que ele fosse decidido num Octogonal Final, ele considerava os pontos do primeiro turno. Assim, o Fluminense, 26 pontos, chegou a penúltima rodada precisando vencer o Flamengo, 24 pontos, para conquistar o campeonato. O Flamengo precisava vencer a partida para que a decisão passasse para a última rodada do Octogonal Final. No dia 15/06/1969, o Fluminense venceu o Flamengo por 3×2 e se sagrou campeão;

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1969.htm

 

1970, turno único, decidido na penúltima rodada – Este campeonato repetiu a fórmula de 1969. O Vasco chegou a penúltima rodada do Octogonal Final com 27 pontos e o Fluminense com 25. Os dois clubes se enfrentariam pela última rodada. Contudo, em seu penúltimo jogo, o Vasco venceu o Botafogo por 2×1, no dia 17/09/1970, chegando aos 29 pontos, enquanto o Fluminense empatou com o America em 0x0, no dia 16/09/1970, chegando ao 26 pontos. Com esses resultados, o Vasco conquistou o campeonato pois não havia mais como ser alcançado pelo Fluminense. De nada valeu a vitória do Fluminense por 2×0 pela última rodada no dia 20/09/1970;

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1970.htm

 

1971, dois turnos, decidido na última rodada – Este campeonato repetiu a fórmula de 1969 e 1970. O Botafogo chegou a última rodada do Octogonal Final com 29 pontos, precisando apenas do empate para se sagrar campeão. O Fluminense, com 28 pontos, precisava da vitória para conquistar o campeonato. No dia 27/06/1971, o Fluminense venceu o Botafogo por 1×0 e se sagrou campeão;

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1971.htm

 

1979, turno único, decidido na última rodada – O Octogonal Final foi disputado sem considerar a pontuação dos dois turnos anteriores, ambos vencidos pelo Flamengo. No entanto, justamente por ter vencido os dois turnos, o Flamengo começou o Octogonal Final com dois pontos, um por cada turno. Este campeonato chegou à última rodada com o Flamengo na liderança com 12 pontos. Vasco, Fluminense e Botafogo tinham 10 pontos. Vasco e Fluminense se enfrentariam no dia 03/11/1979. Flamengo e Botafogo no dia seguinte, 04/11/1979. Os cenários eram:

 

O Vasco precisava vencer o Fluminense para chegar aos 12 pontos e torcer para o Flamengo ser derrotado pelo Botafogo. Nesse caso, três clubes terminariam com 12 pontos. É provável que nesse caso, o campeonato fosse decidido por um triangular final.

Da mesma forma que o Vasco, o Fluminense precisava vencê-lo para chegar aos 12 pontos e torcer para o Flamengo ser derrotado pelo Botafogo. Nesse caso, três clubes terminariam com 12 pontos. É provável que nesse caso, o campeonato fosse decidido por um triangular final.

O Botafogo precisava torcer por um empate entre Vasco e Fluminense para que os dois fossem eliminados e vencer o Flamengo para empatar na pontuação, 12 pontos, e forçar uma partida extra. Caso houvesse um vencedor na partida entre Vasco e Fluminense, e o Botafogo tivesse vencido o Flamengo, é provável que esse campeonato tivesse sido decidido num triangular final;

O Flamengo precisava empatar com o Botafogo para ser campeão;

 

No dia 03/11/1979, o Vasco venceu o Fluminense por 3×2 e chegou aos 12 pontos. Um dia depois, no dia 04/11/1979, o Flamengo empatou com o Botafogo em 0x0, chegou aos 13 pontos, e se sagrou bicampeão carioca.

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1979.htm

 

1995, dois turnos, decidido na última rodada – Este foi o último campeonato do Rio decidido num Octogonal Final. A Fase Classificatória havia sido organizada nos Grupos A e B, com 8 clubes cada. Disputada por pontos corridos em turno e returno, o primeiro colocado de cada turno levaria um ponto extra para o Octogonal Final. Assim, pelo Grupo A, o Vasco levou um ponto pelo primeiro turno e o Botafogo um ponto pelo segundo. Pelo Grupo B, o Flamengo levou dois pontos por ter terminado em primeiro lugar no primeiro e no segundo turno. E tem mais. O primeiro colocado de cada Grupo considerando o turno e o returno da Fase Classificatória faria a decisão da Taça Guanabara antes do Octogonal Final. No dia 23/03/1995, o Flamengo derrotou o Botafogo por 3×2, conquistou a Taça Guanabara e o terceiro ponto no Octogonal Final. Desta forma, o Flamengo começou o Octogonal Final com 3 pontos, Vasco e Botafogo com um ponto cada, e o Fluminense sem nenhum ponto.

Flamengo e Fluminense chegaram à última rodada com 32 e 31 pontos, respectivamente. Ao Flamengo bastava o empate para se sagrar campeão. O Fluminense tinha que vencer a partida para conquistar o título. No dia 25/06/1995, o Fluminense venceu o Flamengo por 3×2 e se sagrou campeão.

 

http://www.rsssfbrasil.com/tablesr/rj1995.htm

 

 

 

Como adotá-la

Se os campeonatos do Rio e de São Paulo passassem a ser disputados através de um Octogonal Final no sistema de pontos corridos com turno e returno, o que estaria em jogo seria a forma como os outros 4 clubes se classificariam para a disputa do título com com os 4 grandes.

 

Clubes na primeira divisão do campeonato brasileiro

Desde 1989, o Rio é representado na primeira divisão do campeonato brasileiro apenas por Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Ocasionalmente, por três deles, quando ocorre um rebaixamento. São Paulo já possui uma quantidade maior de clubes que representam o Estado. Além dos 4 grandes, desde 2003, quando o campeonato passou a ser disputado por pontos corridos, São Paulo também contou com Ponte Preta, Portuguesa, Guarani, Grêmio Prudente/Barueri, Santa André e São Caetano.

As federações poderiam criar um mecanismo em que toda vez que um clube, que não seja um dos 4 grandes, se classifica para a primeira divisão do brasileiro, automaticamente estará classificado para o Octogonal Final. Isso diminuiria a quantidade de vagas em disputa, mas compensaria este clube por ele estar na primeira divisão. Bem, isto é apenas uma ideia.

 

As demais vagas

Estas seriam preenchidas pelos clubes que se classificassem através de um campeonato mais longo, sem a participação dos grandes e dos classificados para a primeira divisão, bem elaborado e que respeitasse, principalmente, a inteligência do torcedor, que, novamente, não é burro como muitos acreditam.

Com relação aos clubes que participam da segunda divisão do campeonato brasileiro, também disputada por pontos corridos desde 2006, eles poderiam ingressar na fase final do campeonato antes do Octogonal Final. Ou seja, eles seriam poupados da disputa do campeonato.

 

E as Taças de turno do Rio de Janeiro?

Por mais que se fale muito da Taça Guanabara e da Taça Rio, apenas a Taça Guanabara é disputada de forma ininterrupta como turno desde 1972. A Taça Rio, mesmo quando as taças do segundo turno tinham outros nomes, não foi disputada em 1994, 1995, 2014 e 2015. Em 2016, o campeonato foi organizado de uma forma em que ela não foi disputada pelos 4 grandes[6]. Assim, podemos ver que a tradição é mais pela Taça Guanabara, e que ninguém morreu quando a Taça Rio deixou de ser disputada.

Se o campeonato do Rio passasse a ser decidido através de um Octogonal Final, a Taça do campeonato poderia ser a própria Taça Guanabara.

Lembrando que esse tipo de discussão é completamente irrelevante para o campeonato paulista.

 

E se a opção for por manter as finais?

Se a opção for por manter as finais, pode-se adotar o modelo que mencionei que já foi utilizado no Rio (1979 (Especial), 1980, 1982, 1983, 1984, 1985, 1986, 1989, 1991, 1992, 1993, 1996, 1998, 1999 e 2000) e em São Paulo (1973, 1974, 1975 e 1982). Os vencedores dos turnos, disputado por pontos corridos com 7 jogos, se classificariam para a final, disputada em dois jogos. O clube que somasse mais pontos entre os dois vencedores dos turnos, teria a vantagem do empate. Caso houvesse um terceiro clube que somasse mais pontos que os vencedores dos turnos, o título seria decidido em um triangular final, disputado em turno único, como foi feito no Rio em 1982, 1983, 1984 e 1985.

 

 

Os demais Estados

Neste caso, tem que se considerar a quantidade de clubes grandes e que disputam a primeira divisão. Geralmente, os Estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Bahia e Pernambuco são representados por seus principais clubes, podendo contar com outros ocasionalmente.

A solução poderia ser um campeonato curto com 8 clubes por pontos corridos com turno e returno. Ou até mesmo menos clubes. Mas o importante é que não houvesse a subestimação da inteligência do torcedor com fases classificatórias que não valem nada, pois a classificação dos principais clubes é praticamente certa, ou semifinais e finais de turno, desvalorizando a fase final por chaves, o que de fato importa.

Com relação aos Estados que não possuem representantes na primeira divisão, muitos nem mesmo na segunda, acredito que exista mais uma forma de motivar o seu torcedor. Uma vez definido o campeonato, as federações poderiam organizar torneios rápidos com o campeão e vice de outros estados, no formato de um quadrangular com turno e returno, 6 jogos no total para cada clube. Exemplos: Pará x Amazonas, Maranhão x Piauí, Acre x Rondônia, Mato Grosso x Mato Grosso do Sul. Isso é apenas uma ideia e não se trata de um campeonato regional, mais longo e complexo.

Enfim, ideias existem. O que não se pode é assistir de braços cruzados algumas federações trabalharem de forma tão árdua pelo fim dos campeonatos que formaram a base do futebol brasileiro.

 

 

historiadores-dos-esportes-os-campeonatos-estaduais-nao-precisam-acabar-10

Rubens Lopes, Presidente da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo desde 2006, junto com seus 10 vice-presidentes (link), um trabalho “brilhante” e “espetacular” de “valorização” do campeonato do Rio, visando o “futuro” de uma competição disputada desde 1906.

 

 

[1] As exceções foram os campeonatos de 1927, organizado pela Associação Paulista de Esportes Atléticos, vencido pelo Palestra Itália, atual Palmeiras; 1936, organizado pela Liga Paulista de Futebol, também vencido pelo Palestra Itália, e 1969, organizado pela Federação Paulista de Futebol, vencido pelo Santos.

[2] O campeonato paulista de 1902 foi disputado por 5 clubes no sistema de pontos corridos com turno e returno. SPAC e Paulistano terminaram empatados com 12 pontos cada e tiveram que decidir o campeonato em uma partida extra. No dia 26/10/1902, o SPAC venceu o Paulistano por 2×1 e se sagrou o primeiro campeão paulista. O SPAC voltou a vencer o campeonato em 1903 e 1904, se sagrando o primeiro tricampeão paulista da história. O clube, que nasceu como São Paulo Athletic Clube, ainda existe, mas com o nome Clube Atlético São Paulo. Ele participou do campeonato paulista pela última vez em 1912.

[3] As exceções foram os campeonatos de 1924 da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, vencido pelo Vasco; 1936 da Federação Metropolitana dos Desportos, também vencido pelo Vasco, e os campeonatos de 1953, 1954 e 1955, os três conquistados pelos Flamengo;

[4] Em 1979, o Rio teve dois Estaduais, ambos vencidos pelo Flamengo. A taça do primeiro turno do primeiro Estadual, que passou para a história como o campeonato “Especial”, se chamou Taça Luiz Aranha. A taça do primeiro turno do segundo campeonato se chamou Taça Guanabara. Em 1980, a Taça Guanabara, vencida pelo Flamengo, foi uma competição à parte do campeonato carioca. A taça do primeiro turno do campeonato carioca se chamava João Baptista Coelho Netto “Preguinho” e foi vencida pelo Fluminense;

[5] A Taça Guanabara nasceu em 1965 como um campeonato à parte do campeonato carioca. Ela indicava os clubes que participariam da Taça Brasil, primeira competição nacional que foi disputada até 1968. Após o fim da Taça Brasil, a Taça Guanabara continuou a ser disputada como competição à parte até 1971. Em 1972, ela se transformou em sinônimo de primeiro turno do campeonato do Rio;

[6] Os 16 clubes foram organizados nos Grupos A e B com 8 clubes cada. Os 4 primeiros colocados de cada grupo se classificaram para o segundo turno, disputado em turno único, com 7 partidas para cada clube. O primeiro colocado, além de conquistar a Taça Guanabara, se classificou para as semifinais do campeonato juntamente com o 2º, 3º e 4º colocados. O Vasco conquistou o campeonato e a Taça Guanabara. O 5º e o 6º colocado se classificaram para as semifinais da Taça Rio. Os 4 últimos colocados dos Grupos A e B da primeira fase, foram organizados em um novo grupo. Disputado em turno único, os dois primeiros colocados se classificaram para as semifinais da Taça Rio, vencida pelo Volta Rendonda. Os dois últimos colocados foram rebaixados para a segunda divisão do Estadual.

 

 

Este artigo é especialmente dedicado a John Robert Mills, historiador do SPAC, falecido em Dez/2018.

 

 

Jorge Priori é torcedor do Fluminense e gosta muito de história.

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