Bangu, 1933: profissionais com alma de amadores

O texto “Profissionais com Alma de Amadores” foi escrito por Mário Rodrigues Filho e publicado no livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, lançado em 1947. Carlos Molinari o reproduziu no seu livro “Nós que somos banguenses”.

 

O Bangu nunca tinha levantado um campeonato. Era um clube pequeno de subúrbio, fazia um jogador, os clubes davam em cima dele, o jogador acabava indo embora, para o Vasco, para o América. Assim, como é que o Bangu podia competir com os clubes da cidade? Só se o deixassem em paz, não se preocupassem com ele, não cobiçassem os seus jogadores. O que houve em 33.

 

O Fluminense, o Flamengo, o Vasco e o América convencidos de que o Bangu não ia fazer nada. Se o Bangu não levantara um campeonato com o amadorismo, quanto mais com o profissionalismo. Um time que custava uma ninharia. Em luvas nem se falava. Ordenados de 300, de 400 mil réis no máximo.

 

Mas para os mulatos e os pretos do Bangu era muito, nunca tinham visto tanto dinheiro. O negro velho, pai do Tião, ficava esperando pelo filho lá em Bangu. Com o ‘bicho’ de uma boa vitória, 100 mil réis, a família do Tião ia passar bem uma porção de dias.

 

O negro velho não facilitava: Tião com dinheiro no bolso podia até se desencaminhar. Não era só o negro velho, pai do Tião, que tomava conta dele. Havia Luiz Vinhaes, havia o tenente Rincão.

 

Luiz Vinhaes largara o Fluminense, cansado de lutar com jogador branco, de boa família, cheio de chiquê. Os pretos do Bangu, outra coisa: simples, modestos, de alma aberta, sem complicações. Respeitando Luiz Vinhaes, ouvindo-o de cabeça baixa.

 

Vinhaes pegara um escrete de desconhecidos, o escrete da Copa Rio Branco, com uma porção de pretos como eles, derrotara três vezes os uruguaios, campeões do mundo. Por isso o que Vinhaes dizia em Bangu era o que se fazia.

 

O Bangu tinha de arranjar uma casa para os jogadores. Os jogadores não podiam ficar soltos, antes e depois dos treinos, dos jogos, metendo-se em botequins, bebendo cachaça. A Companhia Progresso Industrial do Brasil nem discutiu. O Chalé dos Ingleses estava vazio. Mandou-se limpar o Chalé dos Ingleses que se transformou, de um dia para outro, na casa dos jogadores.

 

Os jogadores passavam o dia lá, debaixo das árvores, muita laranjeira, afastados de todas as tentações, principalmente dos botequins, da cachaça. Somente às quintas-feiras, antes do treino, Vinhas permitia visitas. As famílias dos jogadores, pais, irmãos, mulheres, namoradas, apareciam, espalhavam-se com eles pelo quintal, formando grupinhos, parecia que havia piquenique.

 

Fora disso, nada. Ninguém entrava e ninguém saía, a não ser com ordem. De noite se podia ver os soldados do tenente Rincão, fuzil no ombro, andando de um lado para o outro, as sentinelas do Chalé dos Ingleses, do time do Bangu.

 

Os jogadores deitavam-se, religiosamente, às 10 horas. O quíper e os beques num quarto, os alfes noutro, os atacantes noutro. Ideia de Luiz Vinhaes: para tornar mais camaradas os jogadores que iam jogar juntos. Euclides, o ‘Tatibitate’, Mário, Camarão e Sá Pinto em camas quase encostadas. Enquanto o sono não chegava, batiam papo. Sobre futebol, é claro.

 

Enquanto durasse o campeonato, os moradores do Chalé dos Ingleses não podiam pensar em outra coisa. Nem tinham tempo. Às 7 horas, Vinhaes tocava a sineta. Os jogadores levantavam-se, calçavam os seus sapatos de tênis, enfiavam-se nos calções, tratavam de se apressar, sabiam que Luiz Vinhaes os estava esperando na estrada. Não tomavam café, o café ficava para depois.

 

Todos os dias a mesma coisa. Só tinham estranhado a primeira vez. Também Luiz Vinhaes não dissera nada, guardara segredo até o último instante. Aí apontara para uma elevação, lá no fundo da paisagem, o morro do Engenho. Era mais uma ladeira do que um morro. Ficava longe, porém, uma légua, ida e volta, os jogadores achando que nunca chegariam, que não iam agüentar.

 

Luiz Vinhaes foi logo dando as costas, apressando o passo. A ida seria assim, numa marcha. A volta, não. Luiz Vinhaes desceu a ladeira correndo, sem esperar por ninguém, continuou correndo, não se virando uma só vez para ver se os jogadores vinham atrás dele. Vinham, não havia dúvida.

 

O sol já alto, batendo de cheio na cabeça, no peito, nas costas nuas de Vinhaes, dos jogadores, todos suados, vermelhos, pegando fogo. Quando chegassem ao Chalé dos Ingleses encontrariam a mesa posta. Mas precisavam descansar um pouco, esfriar o corpo, meter-se debaixo do chuveiro.

 

Antes do café, a gemada. Luiz Vinhaes colocava uma gema de ovo, crua, numa colher de sopa, espremia um pouco de limão em cima. Os jogadores, enfileirados, aproximavam-se um por um, abriam a boca, engoliam a gema do ovo. E podiam, então, sentar-se em volta da mesa comprida, tomar o seu café com leite, farto, muito pão, muita manteiga.

 

Acabado o café, quintal. Quem sabia tocar violão ficava dedilhando as cordas, enquanto os outros estiravam as pernas debaixo das laranjeiras, aproveitando a sombra, que tinha a frescura de um lençol limpo, de papo para o ar, olhando o céu, talvez à procura de avião. Não era raro um avião aparecer. Quando aparecia voava baixo, chegava a derrubar as laranjas maduras pela deslocação do ar. De propósito.

 

O Campo dos Afonsos perto do Bangu, o que não faltava era aviador torcendo pelo clube da fábrica. Daí os piqués, parecia que o avião ia se despedaçar no quintal do Chalé dos Ingleses. Os jogadores, cá embaixo, corriam, apontando para cima, feito crianças. O aviador tinha avisado: ‘amanhã vou tirar umas laranjas para vocês’. E tirava mesmo.

 

O chão do quintal ficava cheio de laranjas. Assim o tempo passava mais depressa, os jogadores nem sentiam chegar a hora do almoço. A sineta tocava meio-dia. Só depois do toque da sineta é que os jogadores percebiam que estavam morrendo de fome.

 

Devoravam o almoço. Alguns deles, o ‘Tatibitate’, o Camarão, o Ferro, o Santana, o Médio, o Ladislau, até Tião, apesar de não engordar nunca, sempre magro, só comiam em prato fundo. Enchiam o prato fundo de feijão, não dispensavam o seu feijão, a sua carne seca, a sua farinha.

 

Luiz Vinhaes tivera de desistir de um menu ‘à Fluminense’, cozinha francesa. Os jogadores estranhando, chegando a reclamar. O remédio foi fazer feijoada todos os dias. Comida de fazenda, com muita verdura, muita carne. Os bifes sangrentos, grossos, enormes. Os que comiam no prato fundo repetiam os bifes.

 

Quando acabavam de comer parecia que não tinham comido: o prato fundo limpo, branco, brilhante. Luiz Vinhaes, na cabeceira da mesa, sorria satisfeito da vida. Comendo bem, treinando muito, aqueles jogadores iam dar o que falar.

 

Em cada treino, em cada jogo, se notava uma diferença para melhor. O individual de manhã cedo virara passeio. Estavam todos tão acostumados que iam e voltavam, do Chalé dos Ingleses ao morro do Engenho, correndo. Os que comiam no prato fundo correndo mais. Luiz Vinhaes fazendo questão de puxar por eles. Não queria que nenhum jogador engordasse, ficasse pesado. Os grandes, Camarão, Santana, Médio, Ladislau, eram só músculos.

 

E o Bangu começou a vencer jogo atrás de jogo, tomou a frente do campeonato, para decidir o título com o Fluminense. Vinhaes largara o Fluminense, fora para o Bangu, e quando acaba era aquilo, parecia coisa do destino, Bangu e Fluminense. Os pretos lá de cima, os brancos cá de baixo.

 

No dia do jogo muita gente de Bangu, que não vinha à cidade há anos, desceu bem cedinho, para garantir o seu lugar na geral, na arquibancada do Fluminense. Trazendo um embrulho de comida. Um pacote de fogos. Os torcedores do Bangu avisando uns aos outros: ‘levem fogos’. E o segredo ficava entre eles, ninguém que não fosse Bangu devia saber, senão estragaria tudo.

 

Os tricolores sem desconfiar de nada, de mãos vazias, para bater palmas só, as palmas compassadas, tatatá, tá-tá-tá-tá. O Fluminense entraria em campo, palmas, a coisa de sempre, com o ‘iurrarré’ de costume. E os operários de Bangu, os soldados da Vila Militar, esperando. Tudo combinado.

 

Luiz Vinhaes seria o primeiro a aparecer, de roupa de casimira. Todo mundo de branco, o verão chegara, e ele de roupa de casimira, um suador. Era, porém, a roupa de casimira azul-marinho que ele vestira na Copa Rio Branco, a roupa da sorte, da vitória. Logo que Luiz Vinhaes aparecesse, quem tivesse um foguetão, um buscapé, uma cabeça de negro, podia soltar. O estádio do Fluminense ia tremer com as explosões. Uma coisa que nunca se vira, que talvez não se visse nunca mais.

 

O time do Bangu só foi para o estádio do Fluminense em cima da hora. Tinha saído de Bangu num vagão especial. Os jogadores entraram, um a um, todos sérios, graves, compenetrados. Nem mesmo os hurrahs, os ‘como é, como é, como é? Ao Bangu, nada?’ arrancaram um sorriso deles.

 

Durante a viagem, Luiz Vinhaes conversou pouco. Conversar sobre o quê? Só se fosse sobre o jogo. Quanto menos se falasse no jogo, melhor. ‘Não pensem no jogo, faz de conta que o jogo não é hoje’.

 

Bom de dizer. Quem é que podia pensar em outra coisa? E era preciso, Vinhaes tinha de dar um jeito. Por isso, chegando na gare Pedro II, ele não levou o time do Bangu para Álvaro Chaves. No vestiário, trancados, respirando mal, ouvindo barulho da multidão, os jogadores ficariam mais nervosos. Vinhaes distribuiu os jogadores pelos táxis alugados, mandou os chauffeurs tocarem para a Quinta da Boa Vista.

 

Ainda faltavam duas horas para o jogo começar. Bastante tempo para distrair, para descansar os jogadores. Luiz Vinhaes deu o exemplo, deitou-se, de barriga para baixo, num gramado perto do lago, os jogadores em volta dele, puxou conversa sobre outros assuntos. Com um pouco ninguém pensava mais em jogo.

 

E quando alguém pensava era como o Tião, lembrando-se do pai, de repente. O pai dele estaria na estação, à espera do trem, para receber o ‘bicho’ da vitória. O pai do Tião, todos os pais, todos os irmãos, as mulheres, as namoradas, os amigos dos jogadores.

 

Se o Bangu vencesse haveria Carnaval lá em cima, noite de São João, todas as festas do ano fundidas numa só. O que ajudava os jogadores do Bangu, os três brancos, os oito mulatos e pretos do time, a compreender que não era apenas o pai do Tião que esperava pela vitória do Bangu. Era todo mundo lá em cima.

 

E foi mais para dar um dia de festa a Bangu que eles correram em campo, do primeiro ao último minuto. Os brancos do Fluminense não estavam preparados para aquilo. Um gol do Bangu, mais outro, mais outro, mais outro, parecia que o Bangu não ia acabar nunca de fazer gols, que os torcedores do Bangu não iam acabar nunca de soltar foguetes.

 

Findo jogo, foi que se viu quanta gente tinha descido de Bangu. O campo ficou cheio de torcedores lá de cima, que carregavam os campeões em triunfo, pulando, gritando, chorando. Era uma amostra, uma pequena amostra do que ia haver em Bangu. Lá em cima, como se dizia.

 

Do que estava havendo. Coisa fácil de imaginar: a estação embandeirada, a banda de música tocando no Cassino, todas as casas iluminadas e vazias, o povo na rua, ‘Bangu, Bangu!’. Os jogadores com vontade de chegar lá em cima e demorando, indo jantar na Minhota, que ficava na Praça Tiradentes, para dar tempo ao tempo.

 

Queriam chegar a Bangu, todo mundo esperando por eles, eles nada de chegar. Às oito e meia é que se levantaram da mesa, os automóveis de capota arriada prontos, como para um corso de Carnaval. Não era muitos: sete, ao todo. Bastavam para os jogadores, para os diretores, para os torcedores que tinham ficado na cidade. O da frente com a bandeira do Bangu no capô, torcedores nos estribos queimando fogos de bengala.

 

À medida que o cortejo se afastava da cidade, mais gente nas estações, nas ruas suburbanas. A festa não era só do Bangu, era dos subúrbios. A velha rivalidade entre o lá em cima e o cá embaixo. O Bangu, o subúrbio, o Fluminense, a cidade. Mais gente em Madureira do que no Méier, mais ainda em Bento Ribeiro do que em Madureira.

 

Em Realengo, na ponte da Piraquara, os automóveis tiveram de parar. Depois seguiram a passo, quase empurrados pela multidão, até Bangu. Em Bangu, os jogadores foram arrancados das capotas dos carros, levados nos braços da multidão para o Cassino.

 

Damas e cavalheiros se desenlaçaram, a banda parou de tocar um sambara, era a hora do Hino Nacional. E a festa continuou pela noite afora, pela madrugada adentro. No Cassino, onde não cabia mais ninguém, nas ruas, no largo da igreja, na estação, nos botequins.

 

Os donos dos botequins de Bangu ainda se lembram, com saudade, daquela noite. Não sobrou nada nas prateleiras, uma garrafa de cerveja, de vermute, de cachaça.

 

As moças dançando. Os homens fazendo roda, de mãos dada, como meninos, para lá e para cá. Uma roda tinha mais de trezentos metros, ia da estação à porta do Cassino. Brincadeira que seria de menino se, de quando em quando, quem brincava não fosse beber seu trago. Resultado: uma bebedeira geral.

 

Muito torcedor do Bangu dormindo na rua, deitado na calçada, até na porta da igreja. Uma pontezinha de jardim, no largo, virou albergue. No dia seguinte, o que não faltou foi mãe à procura do filho, mulher à procura do marido. O marido, o filho, eram encontrados como mortos, as moscas em cima, eles nada de acordar.

 

O apito da fábrica tocando, chamando os operários, feito um despertador. Faltaram mais de 500 operários, quase que a fábrica teve de parar. Efeitos da festa.

 

A administração da Companhia Progresso Industrial do Brasil não estranhou, compreendeu, quem ia pensar em trabalho um dia depois do Bangu levantar o campeonato? Também o gerente da fábrica era o presidente do Bangu, José Alberto Guimarães, um português naturalizado brasileiro. Foi ele quem mandou tocar o apito de saída da fábrica às duas horas da tarde. Não era justo que uns trabalhassem e outros não, quando todos iam receber a mesma coisa.

 

Ideia de José Alberto Guimarães: abonar o dia de trabalho aos quinhentos e tantos operários faltosos. Os operários faltosos, porém, se recusaram a receber o abono. Em homenagem ao Bangu. O Bangu merecia muito mais.

 

 

FILHO, Mario Rodrigues. O Negro no Futebol Brasileiro. Rio de Janeiro, 1947. Editora Mauad, 2003, 4ª edição, p. 198-203.

 

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

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