No dia 12 de dezembro de 2018, há 70 anos, o Botafogo de Futebol e Regatas conquistava o inesquecível título de campeão carioca de 1948. O responsável: Carlos Martins da Rocha, o conhecido Carlito Rocha.

 

Eleito em 12 de dezembro de 1947, Carlito Rocha tomou posse em 2 de janeiro de 1948. Foram muitas as críticas no início de sua gestão. No dia em que o Botafogo perdeu para o São Cristóvão por 4 a 0 o time foi vaiado. Carlito após o jogo manteve a serenidade e confiante declarou:

 

“São uns bobos, não entendem nada de futebol. Ainda nem sabem que vamos ser campeões! Temos time para não perder mais nenhuma partida. Essa derrota só pode ser explicada por esses acasos do futebol. Os rapazes estão bem preparados, correndo bem, com resistência e fôlego! Jogamos com azar, mas, se Deus quiser, ainda ganharemos o campeonato”.

 

Assim aconteceu, exatamente, um ano depois de ser eleito. No dia 12 de dezembro de 1948, o Botafogo venceu o Vasco, em General Severiano, sagrando-se campeão carioca.

 

Carlito Rocha teve a coragem de manter os seus pontos de vista, convicto de que suas atitudes eram sempre para o bem do Botafogo. Deixou o consagrado técnico uruguaio Ondino Viera ir para o Fluminense e promoveu Zezé Moreira, ex-jogador e formado pela Escola Nacional de Educação Física, que nunca dirigira uma equipe principal.

 

Vendeu Heleno de Freitas, maior ídolo da torcida, ao Boca Juniors e comprou o passe de Pirilo, jogador tido como acabado no Flamengo. Dispensou os pontas Rogério e Teixeirinha. Cedeu para o São Paulo, Ponce de Leon e Santo Cristo. Em contrapartida, sensibilizou-se com o futebol do novato Nilton Santos; contratou Rubinho; recuperou Pirilo, Ávila, ex-Internacional de Porto Alegre, e Braguinha; trouxe o Dr. Paes Barreto para o Departamento Médico; oficializou a presença do cachorro Biriba como mascote do time. Supersticioso, carro em que ele estivesse não dava marcha ré; e mandava dar nós nas cortinas para amarrar os adversários.

 

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As cortinas com os nós feitos por Carlito Rocha

 

Carlito Rocha não se importou com as piadas sobre as gemadas e as laranjas com açúcar dadas aos jogadores. Dizia:

 

“Deixem que eles achem graça, porque eu ficarei com o campeonato”.

 

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Vasilhame de leite para fazer as gemadas

 

Como grande líder, Carlito fez os jogadores acreditarem  em Deus e nele. Era o protetor, o conselheiro, o confidente e o pai severo e carinhoso ao mesmo tempo. Infundia coragem, força moral, convicção e resistência atlética ao elenco.

 

A gemada era o símbolo do preparado físico da equipe. Carlito dava gemada na boca de cada jogador.  A gemada era um rito. Carlito Rocha fiscalizava pessoalmente a alimentação de cada jogador. A gemada de Carlito foi um símbolo de tudo que o Botafogo fez pelos seus jogadores.

 

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Osvaldo Baliza serve gemada para Zezinho

 

Não eram apenas as cores preto e branco, que faziam do Biriba o mascote do time. O cachorro, que só comia filé “mignon” e que tomava a sua gemada, tinha algo mais. Quando entrava em campo apresentava um ímpeto, uma alegria refletida na disposição dos jogadores. Carlito cuidava pessoalmente do Biriba.

 

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Carlito Rocha e Biriba

 

A maioria dos torcedores alvinegros não acompanhou a emocionante caminhada até o título de campeão carioca de 1948. Tenham a certeza de que foi uma das maiores conquistas da gloriosa história do Botafogo. Fiquem certos, também, de que nunca existiu um botafoguense como Carlito Rocha.

 

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Na concentração, Osvaldo, Nilton Santos e Zezinho lêem o telegrama enviado por Heleno

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Os jogadores do Botafogo, ainda, no gramado vibram após a vitória sobre o Vasco por 3 a 1

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Equipe do Botafogo campeã carioca de 1948

 

 

José Rezende é jornalista, torcedor do Fluminense, responsável pelo Blog Álbum dos Esportes e autor dos livros “Hei de Torcer até Morrer”, sobre o America-RJ, “Eternamente Bangu”, e co-autor, juntamente com o historiador Raymundo Quadros, do livro “Vai dar Zebra”, sobre a história dos clubes pequenos do Rio de Janeiro.