Os Jogos Antropológicos de 1904: o Esporte a Favor do Racismo

A edição de número 3 dos Jogos Olímpicos da Era Moderna ocorreu na cidade norte-americana de Saint Louis, no estado do Missouri, nos Estados Unidos, em 1904. A princípio, os Jogos estavam marcados para acontecerem em Chicago, no estado de Illinois, já naquela época uma metrópole com inúmeras facilidades esportivas.

 

Porém, prevaleceram, acima dos interesses do Comitê Olímpico Internacional, os interesses dos responsáveis por uma grande feira de negócios que ocorreria em 1904 em Saint Louis, sem nenhuma relação com esporte: a Louisiana Purchase Exhibition, que pretendia celebrar o centenário da compra da região sudeste dos Estados Unidos, então pertencente à França de Napoleão Bonaparte.

 

As Exposições Universais

As grandes “exposições universais”, como se dizia, eram feiras gigantescas, onde diversos países montavam pavilhões e mostravam para os visitantes seus progressos técnico-científicos, criando uma imagem própria de pujança para ser admirada. Assim, ficaram famosas as Exposições de Londres, em 1851; da Filadélfia, em 1876; de Paris, em 1878, 1889 (quando foi erguida a Torre Eiffel) e em 1900 (quando foi disputada, concomitantemente, a segunda edição dos Jogos Olímpicos); de Chicago em 1893, de Buffalo em 1901 (quando o presidente norte-americano McKinley foi assassinado).

 

Durante os grandes eventos que se tornaram as Exposições Universais, os próprios países – primeiro em estandes e pouco a pouco em pavilhões isolados – passaram, assim, a exibir produtos e invenções em diferentes áreas, ampliando ainda mais as possibilidades de comparações e atraindo, evidentemente, admiração e também adeptos e consumidores. Pode-se dizer que nessas feiras estreitavam-se contatos e intercâmbios entre autoridades, técnicos, artistas e cientistas, e pouco a pouco consolidava-se uma mentalidade liberal atenta às invenções mais, também, voraz no consumo de novidades.[1]

 

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A integração com os Jogos Olímpicos de 1904

Nada mais natural que, em 1904, novamente a invenção esportiva do Barão de Coubertin fosse integrada a um evento maior, com farta presença de público. Afinal, os Jogos Olímpicos estavam longe de ser uma grande atração mundial, como são hoje.

 

O Barão de Coubertin, presidente do Comitê Olímpico Internacional, era partidário da realização dos Jogos em Chicago. Porém, o próprio presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, chamado a arbitrar a questão, preferiu Saint Louis. Coubertin informou que não compareceria à cerimônia de abertura. Ficou em Paris e mandou o húngaro Ferenc Kemény como representante único do COI.

 

Desta forma, quem organizou os Jogos Olímpicos foi o secretário da Amateur Athletic Union, James Edward Sullivan, que se tornou o “chefe de cultura física da Exposição Comercial de Louisiana”. Munido de boas intenções, Sullivan tentou ocupar cada dia da exposição com um evento esportivo. O problema é que a feira teve a duração de seis meses, então, várias provas intituladas de “olímpicas” não passavam de competições entre clubes norte-americanos. O torneio de pólo aquático, por exemplo, foi disputado entre os Athletic Clubs de New York, Chicago e Missouri e acabou por não ser considerada uma modalidade olímpica pelo COI.

 

Um fiasco

Os Jogos de Saint Louis 1904 foram um fiasco. Primeiro, pela ausência quase total de participantes estrangeiros. Os países europeus não organizaram delegações esportivas para atravessar o Atlântico.

 

Dos 625 atletas oficialmente registrados, apenas 92 não eram americanos, e, mesmo assim, 41 vieram do vizinho Canadá. Os Jogos não mereceram maior atenção internacional em boa parte devido à tensão que envolvia o planeta. A armada britânica protegia o Canal de Suez por causa da guerra entre Japão e Rússia, e diante das ameaças de ampliação do conflito.[2]

 

As Olimpíadas, como jogos envolvendo atletas de várias nações, foram um fracasso. Alguns pesquisadores olímpicos, como o argentino Edgardo Martolio, chegam a colocá-la como a pior de todos os tempos, segundo um ranking por ele mesmo elaborado.[3]

 

Os Dias Antropológicos

Porém, Sullivan não era um homem somente ligado aos esportes, era um homem de seu tempo, sujeito aos pensamentos, ideologias e influências de sua geração. Provavelmente conhecia as ideias de Francis Galton, o antropólogo britânico que estudava a biologia humana e cunhou o conceito filosófico de “eugenia” em 1883, afirmando que a raça humana podia ser “melhorada” com a exclusão de pessoas “inferiores”.

 

Sullivan não queria excluir ninguém. Mas, com o apoio do Diretor de Antropologia da Exposição, William John McGee, destinou dois dias dentro dos Jogos Olímpicos para uma série de experiências, com “todo nativo que, de seu ponto de vista, fosse etnicamente exótico: africanos, pigmeus, patagônios, moris (das Filipinas), ainus (habitantes de uma ilha do arquipélago japonês), turcos, coropas (indígenas do México), índios sioux dos Estados Unidos e sírios”.[4]

 

Não foi preciso ir tão longe buscar esses nativos. Todos eles estavam na própria Exposição, em pavilhões que mostravam ao mundo esses povos de lugares tão longínquos. Além de saciarem a curiosidade dos homens caucasianos durante a feira de Louisiana, a etapa seguinte seria participar dos chamados Anthropology Days, nos dias 12 e 13 de agosto de 1904, preenchendo o longo calendário olímpico e, ao mesmo tempo, com o intuito de comprovar as teses de que outras raças humanas não eram tão hábeis e inteligentes quanto os brancos.

 

A diferenciação de raças

Basear-se na ciência para diferenciar as raças e provar que negros e índios eram realmente inferiores aos brancos era uma tendência muito comum no final do século XIX. A antropologia se prestava a este papel, que ia de encontro ao discurso imperialista dos países europeus, que possuíam colônias e possessões na África. A dominação desses povos incultos, inábeis parecia justificada, afinal sem os brancos em seus territórios, eles estariam condenados ao atraso que sempre os caracterizou.

 

Daniel Brinton, primeiro professor de antropologia nos colégios americanos, afirmava categoricamente, em 1896, que: “as raças negra, marrom e vermelha diferem muito anatomicamente da branca. Assim, mesmo que tivessem capacidade cerebral equivalente, eles nunca conseguiriam rivalizar com os brancos e atingir os mesmos resultados em provas de esforço”.[5]

 

A diferenciação de raças no Brasil

Não era só nos Estados Unidos que esse discurso se fazia presente. No mundo ocidental, mesmo em países periféricos, como o Brasil, as ideias de distinção e da falta de capacidade dos negros também circulavam. No caso, não para justificar o imperialismo, mas para tentar manter a mão de obra escrava. As obras de Alberto Sales, um dos ideólogos do movimento republicano paulista, utilizavam-se de conceitos científicos para discutir com muita naturalidade preceitos que hoje soariam racistas e preconceituosos:

 

O africano, além de ser muito diferente do europeu, debaixo de muitos pontos de vista anatômicos e fisiológicos, ainda se acha em um grau muito embrionário da evolução mental. (…) A raça africana pela sua inferioridade moral e pela sua inaptidão social e política, sendo introduzida brusca e violentamente no seio de população inteiramente distinta, certamente não podia contribuir para o seu desenvolvimento moral e intelectual, senão para o seu atraso.[6]

 

Em 1904, no entanto, todas essas ideias ainda ecoavam no mundo ocidental, mesmo não existindo mais escravidão negra nas Américas. A experiência de colocar negros, índios, patagônios, nativos, homens “exóticos” em geral para competirem entre si era a chance de fazer um laboratório que provasse tudo o quanto os cientistas escreviam, mas não tinham tido uma oportunidade de verificar na prática. “Essa reunião de raças e povos será utilizada em estudos sistemáticos das características físicas e mentais desses homens”, dizia o antropólogo William John McGee, para justificar a vinda de integrantes das mais diversas etnias à Feira de Louisiana.[7]

 

Inferiores e inaptos

O relato mais detalhado sobre o que aconteceu em Saint Louis nos dias 12 e 13 de agosto de 1904 veio do próprio Edward Sullivan, que escreveu várias páginas sobre o Anthropology Days no Spalding´s Official Athletic Almanac, publicado em 1905.

 

O objetivo, claríssimo, era não só provar que negros, índios, patagônios eram inferiores intelectualmente – fato que o mundo ocidental tinha certeza – mas esclarecer de uma vez por todas que eles também eram inaptos para atividades físicas, sem habilidade para ações atléticas e, por fim, seres inúteis por natureza.

 

“Por muitos anos fomos levados a crer, por aqueles que deveriam saber, por artigos na imprensa e por livros, que o selvagem médio tinha pés velozes, membros fortes, precisão com o arco e a flecha e conhecimento em jogar pedras” – redigiu Sullivan.

 

Para concluir logo em seguida: “Ouvimos maravilhas dos corredores indígenas, da resistência dos negros do sul da África, e das habilidades naturais dos selvagens em questões atléticas. Mas os eventos em Saint Louis provam o contrário destas histórias”.[8]

 

Na verdade, a própria experiência tinha seus erros. No primeiro dia, as várias tribos competiam entre si para escolher dois dos seus melhores representantes para as finais das provas esportivas, que ocorreriam no dia seguinte. Evidente que os resultados seriam desapontadores, afinal os negros, os pigmeus, os índios jamais tinham participado de competições semelhantes. Praticar atletismo com índices satisfatórios leva tempo e muito treino – tudo o que os “selvagens” de Sullivan não tiveram.

 

Uma experiência antropológica que levou ao escárnio geral

Autora do livro “The 1904 Anthropology Days and Olympic Games: sport, race and American Imperialism”, publicado em 2008, a professora de antropologia Susan Brownell concedeu uma entrevista à BBC sobre aqueles dois dias de “experiências” e “escárnio geral”:

 

O que para mim é interessante é que aqueles dois homens pensaram as Jornadas Antropológicas com seriedade. McGee pensou as Jornadas como um experimento sério de antropologia, enquanto Sullivan tratou o evento com seriedade do ponto de vista do esporte, das medições, dos recordes. Os nativos tiveram duas etapas de competição, uma de tentativas e outra de finais, portanto não tiveram quase nada de experiência. As regras eram explicadas em inglês, que muitos não entendiam, eles não tinham nenhum treinamento, nunca tinham praticado os esportes, e o que foi ainda mais ridículo foi que muitos foram desqualificados depois de queimar largadas nas modalidades de atletismo. Naturalmente, até passar por esse processo todo, o seu desempenho era muito pior do que a dos homens civilizados.[9]

 

Ao todo, foram 15 provas. E entre todas as etnias “exóticas” que participaram, o pior rendimento acabou sendo dos pigmeus africanos. Os resultados foram expostos no almanaque esportivo do ano seguinte, com alguns comentários jocosos do próprio Sullivan.

 

Um pigmeu, um quilo de sal e uma peça de roupa

Os pigmeus foram trazidos para a Exposição pelo missionário Samuel Phillips Verner, que os negociou – tal como se fazia com os escravos nos séculos anteriores – no território do Congo Belga, onde viviam como prisioneiros das forças do Rei Leopoldo II. O pigmeu Ota Benga foi trocado por um quilo de sal e uma peça de tecido, por exemplo. Tinha aproximadamente 23 anos, 1m49 e 46 quilos. Para causar impacto na Feira de Saint Louis, os dentes deste pequeno jovem ainda foram talhados, de forma a se parecerem com presas “para devorar carne humana”, segundo era divulgado pela imprensa. Para mostrá-los, bastava jogar uma moeda de cinco centavos e o pigmeu sorria para o visitante.

 

Um exemplo de exposição dos negros africanos: a Exposição Universal de Bruxelas de 1897

Exibir negros como uma espécie de curiosidade em exposições não foi uma primazia da feira de Saint Louis. Em 1897, o Rei Leopoldo II queria que na Exposição Universal de Bruxelas fosse apresentada uma cenografia daquele Congo longínquo e pitoresco que lhe trazia tão notáveis benefícios. Fez trazer da África 267 homens, mulheres e crianças entre os quais dois pigmeus e organizou uma representação da vida africana que atraiu a atenção de um milhão de visitantes.

 

Os africanos dançavam diante de réplicas de choupanas de bambu com telhado de palha. Os visitantes lançavam-lhes comida, o que produziu indigestões entre os selvagens, ao ponto de ser colocado um cartaz que dizia: “Os negros só podem ser alimentados pelo comitê organizador”. Quando chegava a noite, eram recolhidos nos estábulos reais.[10]

 

Jogos, resultados e irritação

Sete anos depois, esses mesmos povos eram colocados como “atletas” em pleno estádio durante as Olimpíadas de Saint Louis.

 

A prova das 100 jardas

Na prova das 100 jardas (91,44 metros), o melhor negro, o pigmeu Lamba, cumpriu o curto percurso em 14s6, ficando em último lugar na disputa com todas as outras etnias (moros, patagônios, sírios, índios Cocopa do México e índios Sioux norte-americanos). “O pigmeu africano leva uma vida ao ar livre, caça, corre, nada, salta e usa o arco e flecha e a lança, mas, no entanto, descobrimos que ele leva 14s6 para correr 100 metros”[11] – ironizou Edward Sullivan, afirmando ainda que o campeão norte-americano, Arthur Duffy, venceria uma hipotética corrida com 40 jardas de vantagem. Para a antropóloga dos tempos atuais, Susan Brownell, Sullivan estava comparando algo como “maçãs e bananas”.

 

O arremesso de peso de 7 quilos

Na prova do arremesso de peso de 7 quilos, os índios Sioux tiveram os melhores resultados. Os africanos, mais uma vez, foram mal. O melhor deles foi um negro chamado Gondola, que lançou o objeto à distância de 9m06. Os pigmeus e alguns membros da tribo Bacuba foram motivos de risos da assistência. Ota Benga – o pigmeu trocado por um quilo de sal e uma peça de tecido – foi o pior de todos: atirou o peso a 3m73 do próprio pé. Para efeitos de comparação, o campeão olímpico, o norte-americano Ralph Rose, conseguia mandar o peso a 14m81.

 

A irritação

A experiência antropológica irritou o único observador do Comitê Olímpico Internacional presente à Saint Louis, o húngaro Ferenc Kemény:

 

Não estive presente apenas a um evento esportivo, mas a uma feira onde houve esporte e trapaça e monstros foram exibidos para o escárnio geral. Estes homens de todas as idades, das mais diferentes estaturas, de cores variadas, nunca ouviram antes falar de arremesso de peso, de corrida de obstáculos, de uma pista que demanda do corredor ciência e preparação específicas. Sua gesticulação provocava risos revoltantes.[12]

 

A prova das 440 jardas

A humilhação dos africanos continuou na prova seguinte: as 440 jardas (402 metros). Gondola, da tribo Batatela, do Congo, foi o melhor deles, completando o percurso em 1min10s6. O melhor entre os “atletas exóticos” foi um índio da tribo Cherokee, que foi 7 segundos mais rápido que o “selvagem negro”.

 

Salto em distância

Na quarta prova, o salto em distância, os índios Sioux foram os melhores, seguidos pelos filipinos e pelos índios Cocopa. Para os antropólogos, os negros realmente eram inferiores e totalmente inaptos às atividades físicas mais básicas do homem. O melhor entre eles foi o Príncipe Lotuna, filho do Rei Ndombe, da tribo Bacuba, também no Congo. Era um mero adolescente de 15 anos e saltou 3m14, dois metros a menos que o “vencedor antropológico”.

 

Uma prova curiosa

A quinta prova ficou restrita aos atletas patagônios, que arremessaram uma corda com pequenas bolas nas extremidades. Na modalidade seguinte, o arremesso de uma bola de baseball à distância, Gondola, que segundo os relatos tinha aproximadamente 23 anos, foi o melhor africano, alcançando 60m96, colocando os negros em quarto lugar, atrás dos índios norte-americanos, dos patagônios e dos índios mexicanos.

 

O arremesso de peso-pesado de 25 quilos

Outros esportes previstos para aqueles Dias Antropológicos não contaram com a presença dos tribais. Assim, o arremesso do peso-pesado de 25 quilos, a corrida de 120 jardas com barreiras, o lançamento de bola de rugby com precisão, o salto em altura e o cabo-de-guerra não tiveram nenhum “negrito”.

 

A prova de 1 milha e Lentauw, o guerreiro Zulu

Um bom resultado para os negros africanos ocorreu na prova de 1 milha (1,609 km): o guerreiro Zulu, Lentauw chegou em terceiro lugar. O resultado animou o competidor e ele decidiu participar da Maratona nos Jogos Olímpicos, tornando-se o primeiro atleta da África negra da história das Olimpíadas. Sobrevivente da Guerra dos Bôeres, que eclodiu em 1900 na África do Sul, Lentauw conseguiu a 9ª colocação após percorrer os 40 quilômetros da prova entre 32 participantes e ainda desperdiçou um bom tempo ao ser atacado por dois cachorros.[13]

 

Os zulus eram, até o final do século XX, o maior grupo étnico da África do Sul, com 7 milhões de indivíduos, o que significava aproximadamente um terço da população negra, num país que tinha 40 milhões de habitantes. Consideram-se representantes de um antigo reino cujas raízes são mais profundas no solo do sul da África do que as de qualquer dos Estados criados pelos europeus, e resistiu à invasão imperialista britânica e bôer (holandesa) no século XIX.[14]

 

O lançamento de dardo

No lançamento de dardo, o pigmeu Shamba ficou em segundo lugar, atrás apenas de um filipino, também considerado pertencente a uma etnia exótica para os organizadores dos Anthropology Days.

 

A prova da subida ao pau de sebo

Na prova da subida ao pau de sebo, brincadeira típica de festas juninas no interior do Brasil, os africanos conseguiram a 2ª, a 5ª e a 6ª colocação, com Bushow, Lotuna e Loumbungo.

 

Arco e Flecha

Por fim, para decepção do autor do relatório sobre a “farsa” antropológica, ocorreu a competição de Arco e Flecha, onde apenas dois concorrentes conseguiram acertar o alvo, ganhando a prova um índio, ainda menino, da tribo Cocopa, do México. O pigmeu Shamba ficou em terceiro lugar. James Edward Sullivan, porém, não poupou crítica a seus “competidores improvisados”:

 

A competição de tiro com arco foi outra decepção. Temos sido levados a acreditar que os Igorottes, os africanos, os pigmeus, os Cocopas e os Ainus, que têm vivido por anos com o arco e flecha, e para quem atirar com a seta é uma ocorrência diária, deveriam exibir uma qualidade no tiro ao alvo das mais maravilhosas que alguém já tenha testemunhado. (…) Seja como for, a exposição de tiro de arco e flecha pelas tribos selvagens foi muito decepcionante, especialmente para aqueles que, algumas semanas mais tarde tiveram o prazer de ver os arqueiros americanos usarem seus arcos e flechas. A diferença foi a mesma que em outros esportes.[15]

 

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Lançamento de dardo.

 

Os resultados poderiam ter sido melhores?

As Olimpíadas dos nativos terminavam ali. No seu papel de cientista, William John McGee, um geólogo, etnólogo e antropólogo autodidata, ainda tentou observar que os nativos, talvez, fossem capazes de obter resultados melhores nas provas, se lhes fosse permitido um pouco mais de prática. Já Sullivan discordou que a “total falta de habilidade” dos nativos para a prática do esporte se devesse à falta de treino:

 

O Dr. McGee atribui esta total falta de habilidade atlética dos selvagens ao fato de que eles nunca foram instruídos ou educados. Ele crê que talvez se eles tivessem um pouco de treinamento profissional poderiam ser tão proficientes quanto muitos americanos. Este autor discorda, já que as demonstrações dadas durante esses dias em particular não atestam por eles. O encontro prova conclusivamente que tem-se exagerado o homem selvagem do ponto de vista atlético.[16]

 

O relatório final vai além e dedica um parágrafo à falta de compromisso dos pigmeus, que não pareciam interessados em participar daquela competição. Segundo Sullivan, “eles não levam absolutamente nada a sério, fora uma espécie de luta entre eles e o arvorismo”. Autores recentes, no entanto, disseram que os pigmeus foram utilizados também para alguns testes de inteligência:

 

Submeteram os pigmeus a diversos testes de inteligência que, com indissimulado racismo, serviram para proclamar que os negrinhos “se comportavam da mesma forma que pessoas mentalmente deficientes”, cometendo muitos erros estúpidos e demorando muito tempo em executar as provas mais simples.[17]

 

Por fim, Sullivan deixa um recado, ao final do relatório, para os cientistas que quisessem se interessar em estudar os resultados daquela competição: “Acadêmicos e pesquisadores: no futuro, por favor, omitam qualquer referência às habilidades atléticas naturais dos selvagens, a menos que possam consubstanciar suas supostas qualidades”[18], escreveu.

 

Entretanto, como observou a professora de antropologia Susan Brownell, “nenhum dos antropólogos da época publicou nenhum estudo sobre o evento. No fim, eles devem ter se dado conta de que se tratava simplesmente de ciência de má qualidade, ou que não era ciência e ponto” – declarou em entrevista à BBC, em 2012.

 

A reação do Barão de Coubertin

A “experiência científica”, que procurou ridicularizar os índios, os negros, os pigmeus, os filipinos e os patagônios, ressoou no pai dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, o Barão Pierre de Coubertin, que registrou por escrito sua crítica e enviou aos organizadores dos Jogos de Saint Louis, criticando o “sensacionalismo tipicamente norte-americano”[19] e dizendo que “eles mais parecem crianças em busca de sensações”[20].

 

Dois aspectos destes Jogos nos devem levar à reflexão: o truque e a comédia. (…) Quanto a este tipo ultrajante de comédia, ela vai perder a graça quando homens negros, amarelos e vermelhos aprenderem a correr, saltar e arremessar, e deixarem os brancos para trás.

 

A previsão se mostraria profética, já que na própria Olimpíada de Saint Louis o atleta negro norte-americano George Poage ficaria em terceiro lugar nas provas de 200 metros e 400 metros com barreiras e outro afro-americano, Joseph Stadler ficou em segundo lugar no salto em altura sem corrida e em terceiro lugar no salto triplo sem corrida – competições atualmente extintas.[21]

 

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Pierre de Coubertin, o Barão de Coubertin: pedagogo, historiador e criador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna.

 

Oto Benga e sua vida após os Dias Antropológicos

As experiências antropológicas, no entanto, não pararam por aí. Depois do fim da Exposição de Saint Louis, o explorador Samuel Verner levou os “negritos” para o Congo. Um deles, no entanto, decidiu não ficar mais na África e retornou aos Estados Unidos: era o pigmeu Ota Benga.

 

De volta aos Estados Unidos, o explorador vendeu alguns animais capturados na África a diferentes zoológicos. Segundo explica Phillips Verner Bradford, neto de Verner e co-autor, com Harvey Blume, do livro Ota Benga: The Pigmy In The Zoo, o explorador entrou numa bancarrota, seu patrimônio foi embargado e a tutela de Ota Benga ficou nas mãos do Museu Americano de História Natural. Ota Benga acabou em Nova Iorque.

 

William Hornaday, diretor do Bronx Zoological Garden, quis então tornar realidade uma velha aspiração: formar a hierarquização das raças numa espécie de representação que mostrasse a supremacia do homem branco sobre os selvagens africanos, a quem considerava análogos aos macacos. Com tal motivo, misturando um verniz “pseudo-antropológico” com uma representação circense, Ota Benga foi encerrado numa jaula, compartilhando espaço com um orangotango.

 

Inicialmente, ele podia caminhar pelo zoológico e inclusive ajudava na alimentação dos animais. Mas quando foi colocado em exibição, Benga passou a fazer parte da “Casa dos Macacos”. O espetáculo deprimente durou todo o mês de setembro de 1906 e chegou a atrair mais de 40 mil pessoas ao zoológico do Bronx. Com seus dentes afiados, “para devorar carne humana”, Benga a mais estranha atração que as teorias racistas jamais produziram.

 

Instituições religiosas, no entanto, o resgataram daquele papel. Se a Igreja agiu por caridade ou apenas para impedir a difusão das teorias evolutivas, de que o homem realmente teria vindo do macaco e o pigmeu era uma prova inconteste disso, não se sabe. Ota Benga foi levado para um orfanato, onde ficou até 1910. Enfim, foi adotado pela poetisa Anne Spencer e passou a trabalhar numa fábrica de fumo.

 

No entanto, a vida nos Estados Unidos, onde era sempre visto como uma aberração ou um ser exótico, não fez bem ao pigmeu. Em 1916, aos 32 anos, roubou uma pistola e disparou contra o próprio peito. Acabava assim a história do “único genuíno canibal africano na América atualmente”.[22]

 

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Ota Benga, o pigmeu que ficou nos Estados Unidos e chegou a ser uma atração de um Zoológico.

 

O pensamento de uma época

Em síntese, apesar de não ser considerada uma experiência científica válida, os dois Dias Antropológicos resumiam boa parte do pensamento da América Wasp (white, anglo-saxônica e protestante), de que não havia como comparar nem em força, nem em inteligência, qualquer etnia ao redor do mundo com o homem caucasiano. Para aquela sociedade, a teoria evolutiva parecia fazer sentido. A prova estava ali, saltando aos olhos: os pigmeus – negrinhos brincalhões, sem compromisso, que pareciam não se importar em se exibirem para o público da Exposição – eram seres inferiores. Fazia todo sentido acreditar nesta tese em 1904.

 

Futuramente, os antropólogos largariam essas ideias e trabalhariam com uma abordagem cultural das diferenças entre as pessoas, como fez o teuto-americano Franz Boas que, em 1927, publicou:

 

Qualquer pessoa que tenha vivido com tribos primitivas, que tenha partilhado as suas alegrias e tristezas, as suas privações e abundâncias, que veja nelas não apenas objetos de estudo a serem examinados, como células a um microscópio, mas seres humanos pensantes e com sentimentos, concordará que não existe uma “mente primitiva”, um modo de pensar “mágico” ou “pré-lógico”, mas cada indivíduo numa sociedade “primitiva” é um homem, uma mulher, uma criança da mesma espécie com o mesmo modo de pensar, sentir e agir que qualquer homem, mulher ou criança da nossa sociedade.[23]

 

Infelizmente, até os dias de hoje, há pessoas que não acreditam nessas ideias e continuam a segregar seres-humanos por causa de diferenças raciais e étnicas, insistindo em ter a mesma visão do organizador dos Jogos Antropológicos: a de que o “outro” é sempre inferior e assim merece ser tratado. O racismo está aí, espalhado nas competições esportivas pela Europa, para provar isso.

 

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Pigmeus dançam e se divertem durante a Exposição Universal de Saint Louis, em 1904. Jovens africanos foram testados pelos cientistas da época para provar teorias evolutivas e racistas.

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

 

[1] PEREIRA, Margareth da Silva. A Exposição Nacional de 1908 ou o Brasil visto por dentro in: PEREIRA, Margareth da Silva (org.). 1908 – Um Brasil em exposição. Editora Casa 12. Brasília, 2011, p. 16.

[2] VERAS, Marcus. História das Olimpíadas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1992, p. 16.

[3] MARTOLIO, Edgardo. Citivs, altivs, fortivs: mais rápido, mais alto, mais forte – História dos Jogos Olímpicos. Editora Caras. São Paulo, 2005, p. 1161.

[4] CARDOSO, Maurício. De Atenas a Atlanta: 100 anos de Olimpíadas. Editora Página Aberta. São Paulo, 1996, p. 33.

[5] BROWNELL, Susan. The 1904 Anthropology Days and Olympic Games: Sport, Race and American Imperialism. University of Nebraska, 2008, p. 192.

[6] GOMES, Laurentino. 1889. Globo Livros. São Paulo, 2013, p. 162.

[7] BROWNELL, Susan, p. 69.

[8] SULLIVAN, James Edward. Spalding´s Athletic Almanac for 1905. American Sports Publishing Co. Nova York, 1905, p. 249.

[9] Os trechos da entrevista da antropóloga Susan Brownell encontram-se disponíveis no site: http://www.bbc.co.uk/portuguese/videos_e_fotos/2012/07/120717_olympics_galeria_olimpiadas_antropologicas_pu.shtml

[10] A descrição encontra-se no livro “Ota Benga – The Pigmy in the zoo – An African´s odyssey in savage turn-of-the-century America”, publicado por Phillips Verner Bradford e Harvey Blume, publicado em 1993. Uma resenha do livro encontra-se no site: http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=2241

[11] SULLIVAN, James Edward. Spalding´s Athletic Almanac for 1905. American Sports Publishing Co. Nova York, 1905, p. 251.

[12] CARDOSO, Maurício. De Atenas a Atlanta: 100 anos de Olimpíadas. Editora Página Aberta. São Paulo, 1996, p. 33.

[13] LANCELLOTTI, Silvio. Olimpíada 100 anos – História Completa dos Jogos. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1996, p. 33.

[14] JORNAL DO BRASIL, 29 de agosto de 1993, p. 22.

[15] SULLIVAN, James Edward. Spalding´s Athletic Almanac for 1905. American Sports Publishing Co. Nova York, 1905, p. 255.

[16] Idem, p. 257.

[17] http://www.mdig.com.br/?itemid=2241

[18] SULLIVAN, James Edward. Spalding´s Athletic Almanac for 1905. American Sports Publishing Co. Nova York, 1905, p. 259.

[19] LANCELLOTTI, Silvio. Olimpíada 100 anos – História Completa dos Jogos. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1996, p. 31.

[20] VERAS, Marcus. História das Olimpíadas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1992, p. 17.

[21] MALLON, Bill. The 1904 Olympic Games – Results for all competitors in all events, with commentary. McFarland & Company Publishers. North Carolina, 1998, p. 12.

[22] PAREZO, Nancy J. & FOWLER, Don D. Anthropology goes to the fair – The 1904 Louisiana Purchase Exposition. University of Nebraska, 2007, p. 204.

[23] BOAS, Franz. Arte Primitiva. Tradução de Paula Maria Ribeiro Seixas. Editora Fenda, 1996.

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