Como aproveitei o 7 de setembro de 1913

Acordei cedo naquele domingo. Era 7 de setembro de 1913, o Brasil comemorava 91 anos de independência. Tinha decidido vivenciar aquela festa magna ao máximo.

 

Sai rápido de casa. Os trens de Bangu sempre eram mais morosos aos domingos. Na véspera, na estação de São Diogo, dois carros vazios, que se destinavam a uma composição suburbana, descarrilharam e o horário dos trens ficou comprometido. Atrasos e acidentes eram muito comuns naquela época.

 

“O ilustre diretor da Central, para que o público não pudesse ser prejudicado, determinou que os trens de Bangu e Santa Cruz fizessem parada em todos os trens de subúrbio” – informava O Paiz naquele feriado.

 

Partindo da estação de Bangu, logo me deparei com uma multidão de praças do Exército, que embarcou na estação de Realengo. O trem ficou cheio, mas ainda tinha espaço para que na estação da Vila Militar, entrassem centenas de alunos da Escola Militar. O trem só foi ficar vazio quando chegamos na estação de São Cristóvão, por volta de 8 horas da manhã. Todos os fardados desceram. A concentração para o desfile da Independência seria na Quinta da Boa Vista.

 

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Charge retratando o presidente Hermes da Fonseca

Caminhei lado a lado com as tropas e fiquei ali observando o movimento. A chegada das forças de terra e mar, a brigada policial, os estudantes militares da Praia Vermelha, o regimento de cavalaria, o vai e vem dos populares e a expectativa que tomava conta pela chegada do presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca.

 

“Logo que o chefe da nação entrou na Quinta, ouviram-se as salvas de artilharia e foram-lhe prestadas as continências da pragmática” – registrou A Época.

 

Entendi que era o momento de correr se quisesse assistir ao desfile, que seria no Campo de São Cristóvão, a um quilômetro dali.

 

“As arquibancadas e o pavilhão central, vistosamente ornamentados, estavam repletos de pessoas gradas, notando-se nas arquibancadas inúmeras famílias do extenso bairro de São Cristóvão, e no pavilhão central quase todo o mundo oficial”.

 

Ainda achei um espaço para me espremer entre tantas senhoras lindamente trajadas, crianças vestidas como se fossem adultos em miniaturas e homens de terno impecável e chapéu de feltro.

 

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As arquibancadas do campo de São Cristóvão estavam lotadas para prestigiar o desfile de 7 de setembro, comemorando os 91 anos de Independência do Brasil

 

As tropas vieram marchando da Quinta da Boa Vista até o Campo Público de São Cristóvão: 12 mil homens. O início do desfile só começaria depois que o Marechal Hermes estivesse no pavilhão destinado às autoridades. Apelidado de “Dudu”, o nosso presidente era satirizado pela imprensa como um bocó, manipulado pelo senador gaúcho Pinheiro Machado.

 

Na véspera, porém, o Marechal Hermes demonstrara não ser tão bobo assim. Viúvo há pouco tempo, o presidente de 58 anos tinha ficado noivo da caricaturista Nair de Teffé, meros 27 anos. A diferença de idade era visível e gerou comentários maldosos dos populares que avistavam o casal. O desfile de 7 de setembro era a primeira aparição pública dos dois “pombinhos”.

 

O desfile começou às 11h45 e às 13h15 toda a tropa já tinha marchado e se retirado para os quartéis próximos. O calor e má alimentação gerou uma cena constrangedora. Alguns praças e alunos desmaiaram diante de nossos olhos, o que gerou críticas do jornal A Época:

 

“Se fosse à 1 hora da tarde, as praças e os alunos se alimentariam melhor e resistiriam aos sacrifícios da penosa formatura mais facilmente, não dando lugar a que muitos tombassem de fraqueza, como aconteceu com praças e três alunos do Colégio Militar, crianças de pouca idade, que foram acometidas de síncope e, felizmente, socorridas a tempo”.

 

Saí rápido das arquibancadas, com a mesma fome que acometia os alunos do Colégio Militar. Mas não podia perder tempo. Iria lutar com vários outros populares por um lugar nos bondes da Light. Fui de São Cristóvão até o Passeio Público, no Centro.

 

Cheguei na hora de presenciar outro evento importante naquele 7 de setembro. Lá estavam o prefeito do Distrito Federal, General Bento Ribeiro e o poeta Olavo Bilac descerrando o busto em bronze de Castro Alves. Na ocasião, uma menina recitou o poema “Vozes d´África” e a banda de música do Corpo de Bombeiros executou o hino nacional.

 

Era uma justa homenagem. Nenhum poeta foi mais veemente e engajado à causa social e humanitária do abolicionismo como o baiano Castro Alves.

 

Mal pude admirar a herma do poeta, tal a quantidade de populares que cercavam a estátua. Estava atrasado para o meu terceiro compromisso. Tomei outro bonde, do Passeio Público até a Rua Guanabara, nas Laranjeiras.

 

Depois de ver a multidão de soldados na Quinta da Boa Vista, de populares no Campo de São Cristóvão e de famílias no Passeio Público, finalmente fui a um lugar vazio naquele domingo: o campo do Fluminense Football Club.

 

Era a última rodada do 1º turno do Campeonato Carioca. O São Cristóvão, que normalmente jogava no seu bairro, devido ao desfile de 7 de setembro, teve que pegar o campo do Fluminense emprestado para o seu compromisso com o Bangu.

 

Desci do bonde, comprei um lanche num bar e cheguei no momento em que o árbitro encerrava a preliminar de segundos times. Jogo fraco e um empate em 2 a 2, que realmente não merecia ser visto.

 

O jogo entre os primeiros times era mesmo só para cumprir tabela. O São Cristóvão, com 8 pontos em 8 jogos, já estava classificado para o 2º turno. O Bangu, com 4 pontos em 9 partidas, já estava rebaixado para a 2ª Divisão em 1914. Pelo regulamento da época, dos 10 participantes, os três últimos iriam para o descenso e sequer participariam do returno.

 

A expectativa era de que o Bangu não incomodasse. Mas, os jogadores queriam terminar o Campeonato de forma honrosa. Às 16 horas, em ponto, o árbitro Mário Pernambuco apitou o início da partida. Sou obrigado a confessar, mais do que o evento cívico de 7 de setembro, era o jogo de futebol o que tinha me tirado de casa naquele dia…

 

“A assistência era regular em número, vendo-se, entretanto, muitos sportmen e famílias de distinção social nas arquibancadas e ao redor da cerca da área do jogo”.

 

No 1º tempo, posicionado ali, à beira do campo, vibrei muito com o nosso atacante, Loth da Silva. Ele arriscou um chute de longe e surpreendeu o goleiro Hydarnés, do São Cristóvão. O Bangu levava para o intervalo a boa vantagem de 1 a 0.

 

Na etapa final, na cobrança de um córner, o São Cristóvão empatou. O banguense Roldão Maia, na ânsia de cortar, cabeceou para trás e a bola foi parar justamente no fundo das redes do goleiro Juventino Oliveira. Puro azar.

 

Depois disso, os alvirrubros correram desesperados atrás do prejuízo:

 

“Faltavam 12 minutos para terminar o 2º tempo, quando o Bangu entrou a atacar admiravelmente, de modo a obrigar o adversário a concentrar-se na defesa, sem que, contudo, se livrasse dos constantes sustos, porque o assédio à sua barra era cerrado e bem organizado. A bola saía para o meio do campo, para logo voltar ligeira aos chutes dos backs do Bangu, que a devolviam aos seus forwards. Somente por uma considerável falta de sorte do Bangu não foi aumentado o seu score – avaliou o Jornal do Brasil.

 

O Correio da Manhã também enalteceu os nossos jogadores-operários: “A equipe do Bangu desenvolveu um jogo brilhante, principalmente de defesa, a qual era raramente ultrapassada”.

 

Mesmo assim, saí frustrado com aquele empate em 1 a 1…

 

Esperei os jogadores tomarem banho para subir no bonde até a Central do Brasil com os meus heróis. Coincidentemente sentei ao lado de Roldão Maia. O capitão do time e autor do gol contra estava com cara de poucos amigos. Aos 25 anos, mesmo sem usar bigodes, parecia mais velho do que era. Evitei puxar assunto. No banco de trás, iam os dois jovens negros Antônio Carregal e Luiz Antônio, que tanta segurança davam para a defesa. Em outro banco, estavam os britânicos Patrick Donohoe e James Stirling conversando animadamente. Quando passamos pelo Passeio Público percebemos que o jardim continuava movimentado e, agora, totalmente iluminado. O monumento a Castro Alves estava todo circundado de farta e variada iluminação elétrica e várias bandas de música continuavam alegrando o público presente.

 

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Inauguração do busto de Castro Alves no Passeio Público. Novamente, o público carioca compareceu em massa.

 

“À noite, todos os navios foram iluminados, funcionando os seus projetores. Nos bairros e jardins públicos foi grande o movimento de carros e automóveis, que se cruzavam, fazendo também na Avenida animado corso. Todas as repartições públicas e quartéis iluminaram as suas fachadas.” – destacou o Jornal do Brasil.

 

A Belle Époque no Rio de Janeiro era uma festa que parecia que nunca ia acabar… menos para os jogadores-operários do Bangu. Apesar da tentação da festa iluminada do Passeio Público, segunda-feira o trabalho recomeçava às 6 horas da manhã para todos eles na fábrica de tecidos…

 

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Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

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