“Da primeira fila”: a crônica de Mário Filho, publicada em 1942 no “O Globo”, sobre o primeiro jogo entre Bangu e America disputado em 1905.

No dia 26 de setembro de 1942, o jornalista Mario Filho publicou no jornal “O Globo” a crônica “Da primeira fila” onde ele idealizava como teria sido o primeiro jogo entre Bangu x America disputado no dia 6 de agosto de 1905, vencido pela equipe alvi-rubra por 6×1.

 

Bangu x America é o clássico mais antigo do Rio de Janeiro, anterior, inclusive, ao clássico Fluminense x Botafogo, que foi disputado pela primeira vez 4 meses depois, no dia 22/10/1905, com a vitória Tricolor por 6×0.

 

Carlos Molinari

 

“Jayme Faria Machado passou a maleta da mão direita para a mão esquerda – a maleta guardava as shooteiras, as meias pretas de lã, os calções brancos, a camisa negra, com o escudo no peito – e cumprimentou Alberto Armstrong. “Então?” – Alberto Armstrong olhou em volta. Alfredo Koehler e Oswaldo Morhrsted estavam sentados em um banco. Henrique Morhrsted e Romeu Maina passeavam de braço dado pela gare. “Então?” – repetiu Alberto Armstrong. Ainda não tinham chegado o Guilherme Pinto, o Jayme Pina, o Amílcar Teixeira Pinto, o João Bermuder. “O Waldemar – Waldemar era o irmão dele, Alberto Armstrong – o Waldemar ficou com Gustavo Bruno no café”. Jayme Faria Machado arrastou Alberto Armstrong por um braço. “Eu estou contente, Alberto. E você sabe qual é a impressão que eu tenho?”. Alberto Armstrong não sabia. “Pois eu tenho a impressão de que o dia de hoje não se parece com os outros. Que o dia de hoje é assim como um dia de batizado, de primeira comunhão”. Ra, ra, ra. O riso de Alberto Armstrong cortava-se em pedaços. Separando-se. Entre um ra e outro ra, havia uma pausa. “E você diz isso só porque hoje é dia de jogo”.

Alberto Armstrong ficou calado. “Em que dia mesmo eu fui com o Henrique Morhrsted à garage do Boqueirão?”. Alberto Armstrong sabia que tinha sido em uma segunda-feira. A garage do Boqueirão ficava na praia da Lapa, em um barracão da praia da Lapa, junto ao Passeio Público. “O Athletic Club, deixe eu lembrar, o Athletic mandou Bernardo de Carvalho e Arnaldo Siqueira. Pelo Fluminense foram Oscar Cox e Victor Etchegaray”. E um sorriso iluminou a fisionomia de Alberto Armstrong. “Em que você está pensando?” – perguntou Jayme Faria Machado, olhando para o relógio. Nove e meia. Ainda temos bastante tempo. “Eu estou pensando em como conheci o Villas Boas. O Villas Boas foi representar o Bangu – ele e o John Stark – na reunião para a fundação da Liga Metropolitana de Football”. “E você – Jayme Faria Machado tinha tudo isso na cabeça – e você e o Henrique Morhrsted representaram o América. A primeira reunião foi no dia 21 de maio”. Alberto Armstrong estalou os dedos. “Exatamente. A primeira reunião foi no dia 21 de maio e a segunda no dia 8 de julho”. O Villas Boas, muito amável – ele acabara de ser eleito presidente da Liga Metropolitana de Football – convidara o América para um amistoso lá em Bangu. “Por que vocês não dão um salto até lá?”. A voz de Jayme Faria Machado cortou o fio do pensamento de Alberto Armstrong. “Vamos tomar o trem”.

 

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José Villas Boas

 

Parecia que o trem estava parado. E que era a paisagem que corria. Se o trem não trepidasse, a impressão seria perfeita. Amílcar Teixeira Pinto voltou-se para Alfredo Koehler. “Você me perguntou alguma coisa?”. Alfredo Koehler respondeu que sim. “Eu queria saber o que você acha. A gente pode fazer alguma coisa?”. “Nada”. “Então…”. Alfredo Koehler não terminou. “Uma vez tinha que ser a primeira – Amílcar Teixeira Pinto deixou de olhar as casas correndo – e, quanto mais demorasse, pior. Você já pensou, Koehler, em uma coisa? O América tem quase um ano de vida. Daqui a um mês e pouco será 18 de setembro outra vez. E parece incrível que seja hoje o dia da primeira partida do América”. Alfredo Koehler mudou de posição. Cruzou as pernas. “É. Eu quase me esquecera da data do aniversário do América”. Houve uma pausa. Bandeiras de papel de seda. Foguetes. “Banda de música, não – monologava Alfredo Koehler – Banda de música é muito caro”. Corpo de Bombeiros. Atlético Tijuca. Sessenta mil réis. “A banda de música do Corpo de Bombeiros custa sessenta mil réis”. Amílcar Teixeira Pinto não compreendeu aonde Alfredo Koehler queria chegar.

Romeu Maina veio caminhando de pernas abertas, segurando-se nos bancos. Junto de Alfredo Koehler e de Amílcar Teixeira Pinto, ele parou. “Escute, Alfredo. E o almoço?”. Alfredo Koehler sorriu. “Deixe por minha conta”. O match devia começar às três horas e meia da tarde, não era? Pois bem. O trem chegaria a Bangu às onze hora ou onze e pouco. “Lá em Bangu – Alfredo Koehler ainda respondia a Romeu Maina – lá em Bangu será fácil arranjar um restaurante. E Alfredo Koehler repetiu a palavra restaurante. Ficando vermelho. Por um triz ele não dissera “freje mosca”. “Eu pensei – disse Romeu Maina – que você já tivesse contratado o almoço”. Não. Para que contratar o almoço com antecedência? Romeu Maina deu as costas. Voltando para o banco de onde tinha vindo. Algumas palavras pronunciadas por Amílcar Teixeira Pinto alcançavam-lhe os ouvidos. “O team do Bangu… ingleses… Dizem que é bom… Muito melhor do que o team do América deve ser…”.

Acabara o almoço. Alfredo Koehler tinha mandado juntar as mesas. “Quantos são? – perguntara o dono do “freje mosca”, um português de cara redonda, e bigodes úmidos de sopa – Três, seis, nove, doze, quinze!”. Aí um grito ressoou na sala. “Quinze! Feijoada para quinze!”. Havia em cima da mesa pequenos frascos com flores. E as moscas não queriam largar a toalha. Alfredo Koehler rira. “Eu acho – disse ele a Amílcar Teixeira Pinto – que a gente não encontraria nada melhor”. Agora chegara o momento dos palitos e da conta. “A conta, faz favor?” – Alfredo Koehler coçou o bolso. À procura da carteira. O garçom estava diante dele, somando com os dedos. “Quinze almoços a mil e cem cada um, cinco, cinco e um, seis, um dezesseis e quinhentos!”. Alfredo Koehler jogou uma nota de vinte mil réis sobre a toalha. E o dono do “freje mosca” ainda veio até a porta, todo mesuras. “Quando os senhores voltarem a Bangu, não se esqueçam de dar um pulo até cá”. Que diabo! Não era todo dia que apareciam fregueses assim.

“Belo campo! – Amílcar Teixeira Pinto parara em frente ao field do Bangu Athletic Club – Belo campo”. Era um campo grande. “Quase com as medidas internacionais” – dissera Villas Boas – “E o senhor quer saber de uma coisa? Eu acho que o ground do Bangu é o mais bonito de todos”. Alfredo Koehler fizera logo uma comparação. Qual? Era melhor não pensar no campo da rua Coronel Pedro Álvares. Também, o Bangu tinha a fábrica. “Era – concordara Villas Boas – o Bangu tinha a fábrica”. E não tinha só a fábrica. Tinha ingleses. “Onde há ingleses, há clube. Há football. Cricket. Esporte”. Com um ar de entendido, Amílcar Teixeira Pinto pisava na grama. Batendo com o pé. Uma cerca de ferro fechava o field. E do lado direito havia uns três degraus de arquibancada. Tábuas em cima de tijolos. “A sede do Bangu fica ali defronte” – Villas Boas voltara-se, apontando para o outro lado da rua. “Quando vocês quiserem mudar de roupa, não façam cerimônia”. Amílcar Teixeira Pinto puxou o relógio tipo cebola do bolso do colete. “Ainda é muito cedo, senhor Villas Boas. Uma hora da tarde”. Villas Boas sorriu: “Eu não esperava vocês tão de madrugada”.

Um quarto da sede do Bangu foi cedido ao América como vestiário. Alfredo Koehler começou a mudar de roupa. Dentro em pouco ouvia-se o ranger das travas no assoalho. Alfredo Koehler curvara-se para amarrar as shooteiras. E, diante dele, alguém parou, já uniformizado. Alfredo Koehler examinou as shooteiras de bico redondo de Amílcar Teixeira Pinto. As meias pretas, de lã. O calção comprido. A camisa negra. “Como será a camisa do Bangu?”. Oswaldo Morhrsted aproximou-se. “Que tal o keeper?”. “Você – disse Amílcar Teixeira Pinto – será o keeper”. “E eu?” – perguntou Guilherme Pinto, que todos chamavam de Cheché. “Você jogará como full-back-right. Gustavo Bruno como full-back-left”. Alfredo Koehler levantou-se, batendo com as shooteiras no chão. Sim. “Eu serei winger right. O Jayme inside right”. João Bermuder abriu a porta do quarto. Um jogador do Bangu passou de camisa de listas finas, brancas e vermelhas, e calções azuis. “Eu já sei como é a camisa do Bangu” – e João Bermuder sentiu-se um pouco feliz por causa disso.

Alguns espectadores estavam trepados nos degraus da arquibancada. “Olhe – dizia um para outro – o senhor Villas Boas vai apresentar os jogadores do Bangu aos jogadores do… como é que se chama mesmo o clube da camisa preta, hein?”. “América” – Henrique Morhrsted – ele estava debruçado na cerca – explicou amável. No centro do campo Amílcar Teixeira Pinto estendia a mão para James Hartley, full-back do Bangu. “Este aqui é James Hartley. Venha cá, Thomas. Thomas Donohoe joga de center-forward”. Amílcar T. Pinto não guardava os nomes dos ingleses, nomes complicados como os de William Hellowell, Fred Jacques e César Bochialini. “E este aqui é Arlindo Barbosa, center-half. Nem todos os jogadores do Bangu são ingleses”. Amílcar Teixeira Pinto apertou com força a mão de Arlindo Barbosa. E, junto da grade de ferro, Henrique Morhrsted acompanhava, com olhos curiosos o que se passava em campo. “Eu acho – pensou ele – que as cores do Bangu foram tiradas da bandeira inglesa. O azul do calção, o vermelho e o branco da camisa… Está disfarçado, não resta dúvida. A mim, porém, eles não enganam”.

“Vocês – Villas Boas voltou-se para Henrique Morhrsted – vocês ainda precisam aprender muito”. Henrique Morhrsted riu sem jeito. O Bangu acabara de marcar o quinto gol e os torcedores, trepados nos degraus da arquibancada, gritavam hip, hip, hurrah. “É a primeira vez que o América joga, senhor Villas Boas”. Villas Boas sabia perfeitamente que era a primeira vez. “E há ainda o seguinte – Henrique Morhrsted achou engraçado que Villas Boas procurasse justificar a derrota do América –, o Bangu tem ingleses. E o football nasceu na Inglaterra”. Hip, hip, hurrah! “O Bangu marcou o sexto gol, senhor Villas Boas”. Villas Boas não prestava mais atenção ao match. “Vocês não devem desanimar”. “Não – Henrique Morhrsted ficou sério -, pelo contrário”. E quase ele deixou escorregar um: “é levando na cabeça que se aprende”. Os torcedores batiam com os pés nas tábuas que serviam de degrau de arquibancada. “Eu sabia que o América ia apanhar uma surra – pensou Henrique Morhrsted -, mas não assim”. Oswaldo Morhrsted nem se mexeu, deixando passar o sétimo gol do Bangu*.

“Então? – Villas Boas, que fora tomar uma cerveja, voltara para junto de Henrique Morhrsted – então? Vamos ver o segundo half-time. E Villas Boas esfregou as mãos. Henrique Morhrsted ficou quieto. Para que dizer que Amílcar Teixeira Pinto ia jogar de center-forward? Henrique Morhrsted ainda julgava ouvir Jayme Pina: “Agora comigo não tem conversa”. Que vai fazer Jayme Pina, o portuguesinho? – perguntava Henrique Morhrsted. “Ele é capaz de tacar o pé nos ingleses”. Comigo não tem conversa. Comigo não tem conversa. E Amílcar T. Pinto estava com a bola nos pés. Pronto para dar a saída. Que era aquilo? Henrique Morhrsted surpreendeu-se gritando: “Aí, Amílcar! Aí, Alfredo!”. Alfredo Koehler driblara César Bochialini, chegara dentro da área. E antes que James Hartley chegasse junto dele, entregara a bola a Amílcar Teixeira Pinto. Fred Jacques atirou-se. A bola passou a risca do gol. Henrique Morhrsted não se conteve. Deu um salto. Atirou no ar o chapéu de palha. Hip, hip, hurrah! E com os olhos cheios de lágrimas ele encarou os torcedores trepados nos degraus da arquibancada. Como se perguntasse: “Por que vocês não batem palmas agora?”.

“Eu, apesar de tudo – Amílcar Teixeira Pinto recostou-se no banco do trem, esticando as pernas – eu, apesar de tudo, estou contente”. Jayme Faria Machado não respondeu. Quem respondeu foi Romeu Maina. “Eu também estou contente, Amílcar. Porque o América não perdeu a zero”. Alfredo Koehler olhava para Jayme Pina. Uma associação de ideias trouxe-lhe à imaginação um touro. “Você parecia um touro, Pina. Abaixava a cabeça e toca a derrubar inglês”. “Eu estou contente – continuou Amílcar Teixeira Pinto – porque o Villas Boas gostou da gente. Venham jogar aqui de quando em quando, disse ele. O campo está às ordens. E o Victor Villas Boas, o filho dele, sabe o que ele me perguntou? Quanto era a mensalidade do América. E como se entrava para sócio”. Jayme Faria Machado fechou os olhos. Quem o visse haveria de pensar que ele estava dormindo, sonhando com coisas boas. E Jayme Faria Machdo estava apenas repetindo: “Agora o América é um clube, agora o América é um clube”, acompanhando o ritmo das rodas do trem.”

 

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Desde 1905, Bangu e America já se enfrentaram 283 vezes com 112 vitórias do America, 103 vitórias do Bangu e 68 empates. O America marcou 519 gols e o Bangu 445. Este dados estão atualizados até 2018.

 

No dia 18 de fevereiro de 2016, as duas equipes voltaram a se encontrar pela primeira fase do campeonato de futebol do Rio de Janeiro. Este jogo marcou os 110 anos do Clássico Bisavô e foi vencido pelo America por 3×2. Desde 1990, uma partida entre os dois clubes não era transmitida pela TV.

 

*No final do nono parágrafo, Mário Filho fez menção a um sétimo gol do Bangu. Quando a crônica foi escrita em 1942, ele tinha a informação, diga-se de passagem, equivocada, de que esse jogo havia terminado com o placar de 7×1, quando na verdade foi 6×1.

 

 

 

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

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