No Chile, a Copa do Mané – Parte 3

O texto “No Chile, a Copa do Mané” foi dividido em quatro partes. Segue os links das outras três partes: Parte 1Parte 2 e Parte 4.

 

Das quartas-de-final à final da Copa

Em Viña Del Mar, no Estádio Sausalito, no dia 6 de junho de 1962, o primeiro tempo de Brasil e Inglaterra terminou com o placar de 1 a 1. Garrincha abriu a contagem aos 31 minutos e Hilchens empatou sete minutos depois.

Pouco antes de começar o jogo, Garrincha se viu as voltas com um cachorro que invadiu o campo. Tentou pegá-lo, chegava perto, mas Bob fugia. Quem conseguiu pegar o cão foi um jogador inglês sob aplausos do público. O cão driblou Mané.

No segundo tempo, a seleção brasileira chegou à vitória com gols de Vavá aos 8 minutos e Garrincha aos 14. Mané deu um show de bola. O Brasil estava nas quartas-de-final e o adversário era o dono da casa, o selecionado chileno.

 

 

No dia 13 de junho de 1962, o hino nacional chileno, cantado pelos torcedores, ecoava pelas ruas de Santiago. Os jornais estampavam manchetes: “Ahora vamos a moler café”.

O grito vitorioso do General San Martin, herói nacional, era lembrado: “Viva Chile, mierda”. O triunfo da seleção chilena por 2 a 1 sobre a União Soviética, em Arica, reforçava o entusiasmo da massa torcedora.

Os jornais além de publicarem a frase histórica do general, acrescentavam; “Despues del caviar, café”. O sentimento de patriotismo se misturava com o sonho de uma grande vitória.

Na opinião do experiente Carlos Nascimento, supervisor da seleção  brasileira, se vencêssemos o Chile a Copa seria nossa. A preocupação de Aymoré Moreira, na concentração de El Retiro, era instruir Garrincha, o homem chave para aquela batalha:

 

“Você vai ganhar o jogo Mané. Tem que liquidar com eles de saída.”

 

Coube a Garrincha abrir o caminho da vitória. Zagallo cruzou da esquerda, Amarildo chutou, a bola sobrou para Mané, que de curva com a perna esquerda acertou o ângulo esquerdo da meta de Escuti aos 9 minutos.

Os chilenos se assustaram e os torcedores no Estádio Nacional, de Santiago, silenciaram. Ainda no 1º tempo, aos 32 minutos, um escanteio batido por Zagallo sobre a área chilena encontrou Garrincha, que, fora de suas características, cabeceou para assinalar o 2º gol brasileiro.

Faltavam três minutos para terminar a primeira etapa e Zito cometeu falta. O atacante Toro bateu com perfeição, marcando para o Chile. A arbitragem do peruano Artur Yamasaki não agradava os brasileiros. O que poderia acontecer no 2º tempo?

No intervalo, Aymoré pediu calma aos jogadores. O gol de Vavá logo aos 2 minutos veio num momento importante, restaurando a vantagem de dois gols. O Chile voltou a diminuir a diferença por intermédio de Leonel Sanches, batendo pênalti aos 16 minutos.

Garrincha continuava endiabrado. Aos 33 minutos driblou dois adversários e da linha de fundo cruzou para Vavá assinalar o 4º gol. Agora, restava apenas superar a Tchecoslováquia para chegar ao bicampeonato.

Paulo Amaral nos deu conhecimento de alguns fatos ocorridos na nossa concentração e expôs sua opinião sobre o jogo final:

 

“Na véspera do jogo contra a Tchecoslováquia nós fomos de trem. Resolvemos não falar mais sobre o jogo. Mesmo não concordando, respeitei o combinado. À medida que os jogadores terminavam o almoço, iam jogar conversa fora num gramado embaixo dos arvoredos. Nisso, chega o Mané e se fez um silêncio mortal, porque alguma sacanagem ia acontecer. A primeira coisa que ele fez, foi pegar nos ombros do Belini, com quem ninguém brincava, e apertando com as mãos dizia: “Esteja preso, esteja solto”. O Belini deu um chega prá lá e o Mané sentou-se. Logo depois perguntou: “Com quem nós vamos jogar amanhã?”. Foi uma gargalhada geral, por causa do acordo de não se falar no jogo. Aí, o falecido Castilho falou: “Com a Tchecoslováquia”. Ele disse: “Que time é esse?”. Castilho respondeu: “É aquele time de camisa branca, que o Pelé se machucou”. Garrincha respondeu: “Ah! Aquele time que tem uma porrada de Paulo Amaral”. Já para mexer comigo. Eu perguntei: uma porrada de Paulo Amaral por que? Ele me respondeu: “São todos grandes, fortes, mas não jogam merda nenhuma.”

 

Garrincha jogou febril a final. Foi uma partida maravilhosa. Os tchecos jogavam bem e nós demos sorte do goleiro engolir um frango no terceiro gol. Djalma Santos deu uma puxada de costas, mandando a bola para a área, o goleiro saiu, tocou na bola, o Sol na cara dele, largou e o Vavá empurrou a bola para dentro do gol. Em 62, foi mais difícil porque os jogadores estavam mais cansados, o Nilton e o Djalma com idades mais avançadas”.

 

As armações nos bastidores para Garrincha jogar

Expulso na partida diante do Chile, Garrincha estava fora da grande final frente à Tchecoslováquia. Os dirigentes brasileiros se movimentaram para ter Mané em campo. O bandeirinha uruguaio Esteban Marino era a testemunha chave, porque chamara a atenção do árbitro peruano Arturo Yamasaki para o pontapé de Garrincha em Eládio Rojas.

 

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Mané sai expulso sem entender o que estava acontecendo

 

Coube a João Havelange, Presidente da CBD, convencer Esteban Marino a deixar o Chile antes do julgamento de Garrincha. O próprio Yamasaki aceitou se omitir. Sem esclarecimentos claros sobre os fatos ocorridos, a FIFA não puniu o nosso Mané que, apesar de estar com 38º de febre, enfrentou a Tchecoslováquia.

Vencemos a Tchecoslováquia no dia 17 de junho de 1962, no Estádio Nacional de Santiago, sob a arbitragem do russo Nicolai Latischev. O jogo começou com os tchecos no ataque. Masapust, o melhor jogador do time, aos 15 minutos inaugurou o marcador.

Dois minutos depois do gol tcheco, Amarildo entrou pela esquerda, junto à linha de fundo e chutou entre a trave e o goleiro Schroif. Muitos acreditaram que o Possesso quis centrar e bola tomou o rumo da rede.

Conversei com Amarildo e ele esclareceu o lance:

 

“Rezende, algumas pessoas ficaram em dúvida se eu ia centrar ou finalizar para o gol, porque estava sem ângulo. Após observar em outros lances iguais, que o Schroif dava um passo para a esquerda, quando ele se movimentou e abriu o canto, chutei e fiz o gol”.

 

Terminado o primeiro tempo, o placar marcava 1 a 1. A partida se desenrolava equilibrada, quando o zagueiro Popluhar rebateu mal. A bola caiu nos pés de Amarildo e Schroif correu para diminuir o espaço. O atacante brasileiro tocou por cima do goleiro, para Zito, quase dentro da meta, empurrar de cabeça para dentro do gol aos 25 minutos.

Com a visão ofuscada pelo Sol, o excelente Schroif soltou a bola alçada sobre a área e Vavá que acompanhava o lance não teve trabalho de aos 34 minutos encerrar o marcador: Brasil 3 a 1.

 

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A categoria e a elegância de Didi se sobressaiam no meio-campo brasileiro contra o Chile
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No vestiário brasileiro, Garrincha aparece com a cabeça enfaixada
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Aos 28 minutos do 2º tempo, Amarildo arranca pela esquerda, passa por três adversários, finge que vai chutar, Schroif fecha o ângulo e não sai da meta. Amarildo centra com precisão na cabeça de Zito: Brasil 2 a 1

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Garrincha cercado por dois tchecos no jogo final da Copa de 62

 

José Rezende é jornalista, torcedor do Fluminense, responsável pelo Blog Álbum dos Esportes e autor dos livros “Hei de Torcer até Morrer”, sobre o America-RJ, “Eternamente Bangu”, e co-autor, juntamente com o historiador Raymundo Quadros, do livro “Vai dar Zebra”, sobre a história dos clubes pequenos do Rio de Janeiro.

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