O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, a segunda competição nacional do futebol brasileiro: 1967, 1968, 1969 e 1970.

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa (TRGP) foi o precursor do campeonato brasileiro. Ele foi realizado entre os anos de 1967 e 1970. Suas quatro edições foram vencidas por Palmeiras, 1967 e 1969, Santos, 1968, e Fluminense, 1970. A partir de 1971, o Campeonato Brasileiro começou a ser disputado.

 

O nome Roberto Gomes Pedrosa

Seu nome era uma homenagem ao dirigente Roberto Gomes Pedrosa. Carioca nascido em 1913, Pedrosa atuou como goleiro pelo Botafogo, Estudante Paulista, São Paulo e Seleção Brasileira, tendo participado da Copa do Mundo de 1934. Encerrada sua carreira de jogador, ele foi Diretor do São Paulo e Presidente da Federação Paulista de Futebol de 1947 a 1954, ano do seu falecimento. Em 1950, durante a sua administração, o Torneio Rio x São Paulo foi retomado. Antes disso, ele havia sido realizado com sucesso apenas  uma única vez, em 1933, pois as edições de 1934 e 1940 não foram concluídas.

Depois do seu falecimento em 1954, o Torneio Rio x São Paulo adotou o nome oficial de Torneio Roberto Gomes Pedrosa até a sua última edição, realizada em 1966. Em 1967, com a organização do novo campeonato nacional, a CBD decidiu manter o nome oficial Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

 

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Roberto Gomes Pedrosa

 

Um campeonato que chamaram de Torneio

Torneio é um campeonato organizado em chaves: oitavas-de-final, quartas-de-final-semifinal e final. A Copa do Brasil, por exemplo, é um torneio. As quatro edições do TRGP foram organizadas da mesma forma: uma fase classificatória dividida em dois grupos, com os dois primeiros colocados de cada grupo se classificando para o quadrangular final. O clube que somasse mais pontos era o campeão. Assim, o TRGP, apesar do seu nome, era um campeonato.

É importante destacar que até mesmo o Torneio Rio x São Paulo era um campeonato, e não um torneio. O Rio x São Paulo adotou o sistema de pontos corridos em 14 de 17 edições. As exceções foram os anos de 1961, 1962 e 1965, que tinham uma fase classificatória e uma fase final. A final de 1965 não foi disputada pois o Palmeiras terminou em primeiro nos dois turnos.

 

A fórmula de disputa

O TRGP tinha uma fórmula simples de disputa: os clubes eram organizados em dois grupos, jogando todos contra todos em um único turno. Os dois primeiros colocados se classificavam para o quadrangular final disputado também em turno único. O campeão era o clube que somasse mais pontos nos três jogos. Essa fórmula foi utilizada nas quatro edições do TRGP. Dois comentários:

 

  • A primeira edição do TRGP teve 15 clubes. As demais foram disputadas com 17 clubes;

 

  • A fórmula do TRGP não era perfeita, mas era simples, racional e de fácil entendimento. Nas quatro edições, ela gerou apenas uma única distorção. Em 1969, o Internacional ficou na terceira colocação do Grupo A com 20 pontos, ficando atrás de Corinthians, com 24, e Cruzeiro, 22. No Grupo B, os classificados foram Palmeiras, com 19 pontos, e Botafogo, 18. O Internacional, que não havia se classificado, havia somado mais pontos que os dois classificados do Grupo B.

 

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa e a Taça Brasil

A Taça Brasil foi o primeiro campeonato nacional brasileiro e o TRGP o segundo. Isso não significa que um foi a evolução do outro. Os dois eram completamente distintos tanto por composição quanto por fórmula.

 

Fórmula

De 1959 a 1966, a Taça Brasil foi disputada integralmente pelo sistema de mata-mata. As edições de 1967 e 1968 tiveram um modelo híbrido, com mata-mata e pontos corridos em algumas Zonas e Grupos na fase classificatória. O TRGP tinha uma fase classificatória em turno único com todos jogando contra todos. Os dois melhores colocados do Grupo A e B se classificam para o quadrangular final, também disputado em turno único. A Taça Brasil guarda algumas similaridades com a Copa do Brasil, disputada desde 1989. Contudo, quando se analisa a fórmula de disputa e o critério de participação, se constata que são campeonatos completamente distintos. Por sua vez, o TRGP é, sem dúvida alguma, o precursor do campeonato brasileiro.

 

Composição

A Taça Brasil era um campeonato disputado por um representante de cada Estado, geralmente o campeão estadual. Em alguns casos, um Estado foi representado por duas equipes desde que uma delas tivesse sido o campeão da Taça Brasil do ano anterior. Assim, a Taça Brasil, nos seus 10 anos de existência, foi um campeonato que contou com a participação de equipes de praticamente todos os Estados brasileiros.

Por sua vez, o TRGP foi um campeonato que contou com a participação dos clubes do Rio (5), São Paulo (5), Minas Gerais (2), Rio Grando Sul (2) e Paraná (1). A partir da segunda edição, o campeonato passou a contar com a participação de uma equipe da Bahia e de Pernambuco.

A composição do TRGP privilegiava as equipes de Rio e São Paulo, mas ampliou a participação de equipes de outros Estados. Isso se deve ao efeito da Taça Brasil que deixou claro que existia futebol altamente competitivo fora do eixo Rio-São Paulo. Reparem que há 50 anos, o TRGP já dava uma forte indicação sobre a quantidade de clubes que comporiam a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro, disputada desde 2006 por 20 clubes.

 

As equipes de fora do Eixo Rio x São Paulo e o quadrangular final

Se por um lado o TRGP somente foi conquistado por equipes do Rio e de São Paulo, por outro as equipes de Minas e Rio Grande do Sul marcaram presença nos quatro quadrangulares finais:

 

1967 – Palmeiras, Internacional, Corinthians e Grêmio;

1968 – Santos, Internacional, Vasco e Palmeiras;

1969 – Palmeiras, Cruzeiro, Corinthians e Botafogo;

1970 – Fluminense, Palmeiras, Atlético-MG e Cruzeiro.

 

 

O Campeonato Brasileiro e a perda do legado do TRGP

A partir de 1971, o Campeonato Brasileiro começou a ser disputado. Um dos aspectos que mais me chama a atenção é que depois das quatro edições do TRGP, o Campeonato Brasileiro seguiu por um caminho completamente distinto de 1971 a 2002, que pode ser dividido em três fases: Irracionalidade, de 1971 a 1979; Excentricidade, de 1980 a 1985; e Bagunça, de 1986 a 2002. O Campeonato Brasileiro somente recuperou a racionalidade a partir de 2003, com a implantação da disputa por pontos corridos.

 

A irracionalidade, de 1971 a 1979

De 1971 a 1979, o Campeonato é marcado pelo aumento constante de clubes até chegar ao absurdo número de 94 clubes em 1979. A quantidade de participantes ano-a-ano é: 1971, 20 clubes; 1972, 26; 1973, 40; 1974, 40; 1975, 42; 1976, 54; 1977, 62; 1978, 74, e 1979, 94. Esse período também é marcado pela existência da segunda divisão, sem acesso e rebaixamento, apenas nos anos de 1971 e 1972.

 

A excentricidade, de 1980 a 1985

De 1980 a 1985, os Campeonatos tiveram 44 participantes. A exceção foi 1984 com 41 clubes. Esse período é marcado pelo retorno da segunda divisão, com acesso, mas sem rebaixamento, e por experiências excêntricas como o acesso da segunda divisão para a primeira no decorrer da competição. Foi assim que o Corinthians começou o Campeonato Brasileiro de 1982 na segunda divisão, subiu para a primeira e chegou às semi-finais, quando foi eliminado pelo Flamengo.

 

A bagunça, de 1986 a 2002

Em 1986, a CBF tentou, mas não conseguiu, implementar o rebaixamento para fechar os grupos da primeira e segunda divisão e acabar com os critérios de classificação (colocação nos estaduais e ranking histórico) que eram utilizados até então. Ela acabou perdendo o controle da situação e desistiu de organizar o Campeonato Brasileiro de 1987. Em 1988, o rebaixamento foi finalmente implementado;

Em 1992, veio a operação de resgate do Grêmio, rebaixado para a segunda divisão em 1991;

Em 1997, o rebaixamento de Fluminense e Bragantino em 1996 foi anulado em decorrência do escândalo do esquema de corrupção de arbitragens envolvendo Corinthians e Atlético-PR;

Em 1999, o Caso Sandro Hiroshi envolvendo Gama, Botafogo, Internacional e São Paulo fez com que a CBF desistisse de organizar o Brasileiro de 2000, surgindo assim a Copa João Havelange.

 

A recuperação da racionalidade, a partir de 2003

O Campeonato Brasileiro passou a ser disputado por pontos corridos a partir de 2003. A quantidade de clubes foi sendo reduzida gradativamente até se chegar ao número de 20 clubes em 2006, número que vem sendo mantido desde então. Esse período teve dois problemas que não tiveram relação com a organização do campeonato: em 2005, o escândalo da “Máfia do Apito” levou a anulação de algumas partidas do campeonato, e em 2013, o problema do rebaixamento envolvendo Flamengo e Portuguesa.

 

Era possível o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e a Taça Brasil terem coexistido?

As duas competições coexistiram por dois anos: 1967 e 1968. Em 1967, o TRGP foi disputado de Março a Junho, enquanto a Taça Brasil foi disputada de Julho a Dezembro. Em 1968, as duas competições foram iniciadas em Agosto e terminariam em Dezembro. Isso fez com que as duas fases finais fossem disputadas ao mesmo tempo, o que teve duas consequências: Santos e Palmeiras abandonaram a Taça Brasil antes da realização dos seus jogos na fase final e a definição do campeão somente ocorreu em Set/1969 (!).

Se tomamos como base o calendário de 1967, vemos que era possível organizar o calendário de forma a coexistirem as duas competições. Outro detalhe interessante é que de 1959 a 1966, a Taça Brasil coexistiu com o Torneio Rio x São Paulo, que era disputado de forma ininterrupta desde 1950.

Acredito que a Taça Brasil não teve continuidade por falta de interesse, tanto por parte dos clubes quanto por parte da CBD. Isso foi uma pena. Por mais que naquele período o futebol brasileiro estivesse buscando sua identidade através de uma competição nacional, já haviam referências na Europa da coexistência de duas competições nacionais:

 

  • Inglaterra – A Copa da Inglaterra (The Footabll Association Challenge Cup) é disputada desde 1871 e a Liga de Futebol da Primeira Divisão (Football League First Division), atual Premiere League, desde 1888;

 

  • Alemanha – A Copa da Alemanha (Deutscher Fußball-Bund-Pokal) é disputada desde 1934 e a Bundesliga desde 1963. Obs.: 1) a Alemanha já tinha campeonatos regionais desde 1903 e 2) os dois campeonatos passaram por períodos de interrupções;

 

  • Espanha – A Copa do Rei (Copa de sua Majestad el Rey de Fútbol) é disputada desde 1903 e o campeonato espanhol (Liga de Fútbol Profesional) desde 1928;

 

  • Itália – A Copa da Itália (Coppa Italia) é disputada desde 1922 e o Campeonato Italiano (Lega Nazionale Professionisti Serie A) desde 1898. Obs.: os dois campeonatos passaram por períodos de interrupções.

 

Com o fim da Taça Brasil, o Brasil ficou com uma única competição nacional de 1969 a 1988 (TRGP em 1969 e 1970, e o Campeonato Brasileiro de 1971 a 1988). Em 1989,  com o início da Copa do Brasil, o Brasil voltou a ter dois campeonatos nacionais.

 

Os Troféus

Diferente da Taça Brasil, que teve apenas dois troféus de posse transitória em suas 10 edições, sendo que um ficou com o Santos e o outro com o Botafogo, o TRGP teve um troféu para cada uma de suas quatro edições. Assim que for possível, colocarei a foto do Troféu recebido pelo Santos em 1968.

 

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Troféu do TRGP de 1967 entregue ao Palmeiras
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Troféu do TRGP de 1969 entregue ao Palmeiras
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Troféu do TRGP de 1970 entregue ao Fluminense
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Troféu do TRGP de 1970 entregue ao Fluminense

 

 

O reconhecimento do Torneio Roberto Gomes Pedrosa como campeonato brasileiro

Em 2010, a CBF reconheceu os 10 campeões da Taça Brasil e os 4 campeões do Torneio Roberto Gomes Pedrosa como campeões brasileiros. Cada título foi diplomado e cada clube recebeu uma miniatura do troféu do campeonato brasileiro que foi entregue aos campeões de 1993 a 2013, com exceção de 2000 (Copa João Havelange).

 

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Palmeiras, Campeão do TRGP de 1967
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Santos, Campeão do TRGP de 1968
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Palmeiras, Campeão do TRGP de 1969
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Fluminense, Campeão do TRGP de 1970

 

RSSSF – Tabelas das 4 edições do TRGP

 

Agradecimentos: José Rezende, Paulo Cezar Filho e Wágner Augusto Álvares de Freitas.

 

Jorge Priori é torcedor do Fluminense e gosta muito de história.

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