No Chile, a Copa do Mané – Parte 2/3

O Brasil na primeira fase da Copa

No dia 30 de maio de 1962, o Brasil venceu o México por 2 a 0, no Estádio de Sausalito. Após um mau 1º tempo, a seleção brasileira marcou por intermédio de Zagalo aos 11 minutos e de Pelé aos 27 da etapa final.

O time brasileiro atuou com Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo.

Com a mesma escalação e no mesmo estádio da estréia, três dias depois, a seleção empatou com a Tchecoslováquia de 0 a 0. Nessa partida, um traiçoeiro tufo de grama tirou Pelé da partida e do restante da Copa. O jogador brasileiro caiu se contorcendo em dores. Após ser atendido, voltou a campo. Na primeira bola que recebeu, nenhum jogador tcheco o combateu. Quem sabe numa atitude de respeito ao extraordinário craque?

 

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Pelé, antes de sair de campo por contusão, chuta contra a meta tcheca

 

Paulo Amaral contou sobre os momentos da contusão de Pelé na partida diante dos tchecos:

 

“O bicampeonato foi muito mais difícil. Primeiro, a contusão do Pelé. O respeito dos tchecos foi tão grande com o Pelé, que quando ele voltou para o campo e recebeu a primeira bola nenhum tcheco foi combatê-lo. Ele caminhou com a bola e o lateral-esquerdo abriu passagem para ele. Pela caminhada, o Dr. Hilton viu que ele não ia continuar. Ele ficou em campo um pouco mais e saiu.

 

Mais tarde, o Dr. Hilton Gosling confirmava o diagnóstico: distensão na virilha. À noite, Pelé não dormiu, tendo a seu lado, na concentração de El Retiro, o incansável Mário Américo. Na manhã seguinte, a preocupação de Pelé era o jogo diante da Espanha. Mário Américo nada respondia. Dr. Gosling afirmava que o craque não enfrentaria a Espanha. E acrescentava que dificilmente voltaria a atuar naquela Copa.

 

O reserva natural de Pelé era o jovem Amarildo. O comando da seleção estava focado em como prepará-lo para a missão de substituir um craque da projeção de Pelé. O sempre ponderado Dr. Gosling advertia: “O negócio é psicológico. Nada de botar muita responsabilidade nos ombros do rapaz”.

 

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Aymoré conversa com Pelé que está sentado; Garrincha está preocupado; Mário Américo se aproxima; e até o adversário põe as mãos na cabeça. A contusão de Pelé não só o retirou da partida bem como o afastou do restante da Copa

 

O jogo Brasil e Espanha decidia o destino da seleção brasileira na Copa. Para Amarildo se jogasse bem era a glória, se fracassasse estava liquidado.

No Estádio de Sausalito, em Viña Del Mar, no dia 6 de junho de 1962, a partida Brasil e Espanha começou tensa. O time brasileiro não acertava uma jogada e o domínio espanhol era evidente.

O grande Puskas, oito anos antes, liderara o selecionado húngaro no mundial da Suíça, agora, depois de se naturalizar espanhol, vestia a camisa da “Fúria”, no Chile, ao lado de Santamaría, Peiró, Del Sol, Gento.

Di Stéfano durante os treinamentos da semana mostrava-se preocupado junto ao técnico Heleno Herrera com a contusão na perna esquerda. No último treino, o craque argentino, naturalizado espanhol, se definiu: “Impossible, Don Herrera. Sigo muy malo.”

Aos 35 minutos de jogo, o grande Jorge Curi, locutor padrão do rádio brasileiro, narrava:

 

“Pelota com García, que evolui rapidamente. Cede a Puskas. Lá vai o Major Galopante. Puskas no buraco a Abelardo. Perigo para o Brasil! Chuta Abelardo. Gilmar estica-se. É gol! Ganha a Espanha por 1 a 0. O Brasil caminha para a desclassificação.”

 

Os comentários no intervalo não pouparam nem os veteranos, como Didi, Nilton Santos, Zagallo, nem o novato Amarildo. No 2º tempo, o Brasil entrou para mudar a história do jogo.

Garrincha passou a ser mais acionado e a ditar o ritmo da seleção brasileira. Mas, a preocupação continuava presente nas vozes dos nossos locutores esportivos:

 

“O Brasil continua mal. Escoa-se o tempo regulamentar. Agora só um empate milagroso o salvará”.

 

E o milagre aconteceu aos 27 minutos. Vavá dominou a bola com dificuldade. Prende a bola, estuda a jogada e estende a Zagallo junto à linha de fundo. O ponteiro recebe com o pé direito, ajeita para esquerda, dribla Rodrigues com toque sutil e centra rasteiro e forte. Amarildo aparece e coloca a bola no fundo da meta espanhola. Goooool do Brasil!

 

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Garrincha, no 2º tempo, passou a infernizar a defesa da Espanha. Ele deixa um “João” espanhol para trás

 

Os locutores se animam. Amarildo é o “Possesso” pela garra, a vontade de vencer, como o apelidou depois Nelson Rodrigues. A seleção parte em busca da vitória. Faltam quatro minutos para terminar o jogo. Garrincha, o “Demônio da Copa”, passa por Pachim. Para a bola. Dribla Pachim outra vez. Aplica-lhe uma finta e corre junto à lateral do campo. Centra alto e, como aconteceu no primeiro gol, aparece Amarildo que de cabeça marca o 2º gol do Brasil. Os locutores gritam mais do que nunca. O Brasil vence a Espanha.

Amarildo chorava, pulava, gritava. Aymoré, Dr. Gosling, Mário Américo, e, especialmente, Paulo Amaral, seu maior admirador, invadem o campo. Todos querem abraçar o “Possesso”.

Amarildo encarou com naturalidade sua escalação no jogo contra a Espanha:

 

“A minha escalação contra a Espanha foi um fato normal, porque eu era o reserva do Pelé”.

 

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Após a grande vitória sobre a Espanha, Amarildo é ovacionado por sua extraordinária atuação

 

Não nos esqueçamos de Garrincha que a partir da ausência de Pelé assumiu a responsabilidade de levar o Brasil ao bicampeonato. Ninguém mais segurou Mané.

Em 1973, eu estava na Rádio Vera Cruz com Waldir José, Adhemar Gonçalves e Roberto Feijó, três saudosos companheiros, quando chegou o convite do Banco Comercial Aplik para o lançamento do livro “O Demônio de Pernas Tortas” de Renato Peixoto Santos, primo de Garrincha, no dia 17 de dezembro de 1973, na Av. Graça Aranha, 81-A. Naquele dia tivemos a oportunidade de ouvir o próprio Mané falar sobre as suas reações em campo:

 

“Não sou de chorar. Faço um gol, vibro. Na Copa de 62, não senti nenhuma emoção maior. Fui ao Chile jogar futebol, como sempre fiz na minha vida.

 

Quando o Pelé se machucou, não fiquei preocupado. O time era quase o mesmo de 58. Fiquei mais solto. Dizem que a posição de ponta é para não deixar a bola sair pela lateral.

 

O Aymoré se preocupava mais com a defesa. Deixava a gente à vontade. No jogo contra a Inglaterra fiz o gol mais bacana. Chutei de perna esquerda, de fora da área.

 

Achei a minha expulsão na partida contra o Chile uma palhaçada do bandeirinha. Dei o drible e o cara me deu um chute. Dei um chutinho na bunda dele de gozação e fui expulso.”

 

Outro ponto positivo na partida frente à Espanha foi a experiência do veterano Nilton Santos. Fez um pênalti em Adelardo, na lateral esquerda da área, quando foi driblado, impedindo a passagem do adversário com a perna esquerda. Rapidamente deu um passo pra frente, parou fora da área com os braços erguidos, sinalizando o falso local da falta. O árbitro chileno Sérgio Bustamente estava distante do lance, marcou a falta fora da área, caindo na conversa da “Enciclopédia do Futebol”.

 

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Zagallo marca contra o México o primeiro gol brasileiro na Copa de 62

 

 

José Rezende é jornalista, torcedor do Fluminense, responsável pelo Blog Álbum dos Esportes e autor dos livros “Hei de Torcer até Morrer”, sobre o America-RJ, “Eternamente Bangu”, e co-autor, juntamente com o historiador Raymundo Quadros, do livro “Vai dar Zebra”, sobre a história dos clubes pequenos do Rio de Janeiro.

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