No Chile, a Copa do Mané – Parte 1

O texto “No Chile, a Copa do Mané” foi dividido em quatro partes. Segue os links das outras três partes: Parte 2, Parte 3 e Parte 4.

 

O grande terremoto ocorrido no dia 21 de maio de 1960, em território chileno, não impediu a realização da VII Copa do Mundo naquele país andino. As dificuldades foram superadas com os esforços do povo e do governo e com a ajuda da FIFA.

Brasil, campeão do mundo, e Chile, país anfitrião, não disputaram as eliminatórias. As seleções classificadas foram divididas em quatro grupos de quatro, cada um com o seu cabeça-de-chave. Essas posições foram ocupadas pelos principais representantes sul-americanos: Argentina, Brasil, Chile e Uruguai.

Após o sorteio compuseram o grupo I com o Brasil, em Viña del Mar,  Espanha, México e Tchecoslováquia. As demais seleções ficaram assim agrupadas: grupo II – Colômbia, Iugoslávia, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e Uruguai; grupo III – Alemanha Ocidental, Chile, Itália e Suíça; e grupo IV – Argentina, Bulgária, Hungria e Inglaterra.

O plano de trabalho da Copa de 58 foi mantido para o mundial de 62 e o elenco brasileiro sofreu poucas mudanças: Jair Marinho (Fluminense), Jurandir (São Paulo), Altair (Fluminense), Zequinha (Palmeiras), Mengálvio (Santos), Jair da Costa (Portuguesa de Desportos), Coutinho (Santos), e Amarildo (Botafogo) substituíram, respectivamente, De Sordi, Orlando Peçanha, Oreco, Dino Sani, Moacir, Joel, Mazzola e Pepe.

No comando técnico, Vicente Feola, por motivo de saúde, cedeu seu lugar a Aymoré Moreira. O time titular, campeão do mundo, era praticamente o mesmo com Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. Na quarta zaga, Zózimo que era reserva de Orlando, assumiu a posição de titular.

Orlando Peçanha nunca encontrou explicação convincente que justificasse  sua a ausência na Copa de 62, no Chile:

 

“O que posso dizer é que o Feola e o Aimoré estiveram, em Buenos Aires, conversando comigo. Acertaram tudo com o Alberto Jota Armando, presidente do Boca Juniors, que me liberou. Feola e Aimoré, ainda, me disseram: “Dentro de um mês você estará treinando conosco no Brasil”. Diz o Nilton Santos, brincando ou não, que quando ele perguntou se eu seria chamado, já que estava tão perto, disseram que não havia dinheiro para pagar a minha passagem. Deve ser brincadeira. A idade não teve influência. Eu estava com 26 anos e tinha jogadores, como o Nilton Santos com 37 anos. O time foi praticamente o mesmo”.

 

Altair, convocado para a Copa de 62, nos falou como incluiu seu nome entre os jogadores que foram ao Chile:

 

“Olha, eu acredito que o maior objetivo de um jogador é disputar uma Copa do Mundo. Em 58, eu não esperava ser convocado, mas em 62 eu estava certo da minha convocação pelas minhas atuações no Fluminense. Em 62 foi difícil. Eram quatro em cada posição. Eu disputava com três laterais do Botafogo: Nilton Santos, Rildo e Ivan que jogou no América.

 

Havia um esquema para o Garrincha dar mole contra eles nos treinos. Contra o Altair forçar os dribles. Fomos para Friburgo e nos treinos Nilton Santos no time A, eu no B e o Rildo no C. O Garrincha me disse que iria correr mais um pouco. Respondi que estava tudo bem, vamos pra luta. Naquele dia não deu prá pegá-lo. Depois entrou o time C com o Rildo. Aconteceu que o Garrincha não passou uma bola pelo Rildo. De Friburgo fomos para Campos de Jordão. No dia seguinte, os jornais publicam às atuações dos jogadores. Nilton Santos, a Enciclopédia, treinou muito bem; Altair levou um baile do Garrincha; e o Rildo anulou completamente o Garrincha. No primeiro treino, em Campos de Jordão, eu fiz o que normalmente não fazia. Falei com o Jurandir que ia colar mais no Mané, porque do contrário ia me complicar.

 

Didi começou a meter aquelas bolas de curva para o Garrincha. Numa delas, quando a bola chegava eu dei uma pancada no Garrincha, que ele voou por cima de uma cerca de mais ou menos um a um metro e meio e foi cair lá dentro do mato, num barranco de uns cinco a seis metros. Quando eu olhei, ele estava paradão. Eu disse para mim mesmo, matei o Garrincha. Nisso aproximaram-se o Aimoré Moreira, Dr. Hilton Gosling, Mário Américo e o Dr. João Havelange. Eles olharam para mim e perguntaram se eu estava maluco. Pensei, então, vão me cortar agora. Quando eles trouxeram o Garrincha todo sujo de mato, vi que ele estava bem. O Aimoré virou-se para mim e disse: “Você não pode fazer uma coisa dessas”. Respondi que daquele momento em diante, ia meter a pancada em qualquer um que aparecesse na ponta-direita. Nos treinos seguintes, Garrincha não passou mais por mim. Fui para o Chile e os outros dois do Botafogo ficaram. Com aquela pancada assinei meu passaporte”

 

Paulo Amaral esteve presente no Chile, exercendo a mesma função de quatro anos atrás na Suécia:

 

“Quando o presidente João Havelange telefonou para minha casa, eu, sinceramente, pensei que seria convidado para ser o técnico da seleção. Mas, ele me disse que iria precisar de mim mais uma vez como preparador físico. Respondi que trabalhar na seleção brasileira era sempre um orgulho para mim. Apenas, perguntei quem seria o técnico. Ele me perguntou: “Por que?”. Expliquei: presidente, não me leve a mal, mas não quero botar azeitona na empada dos outros. Aí ele me disse que era um grande amigo meu, Aimoré Moreira.

 

Começamos a trabalhar, até que, em Viña Del Mar, nós fomos fazer um treinamento. Quando estávamos fazendo o aquecimento antes do “circuit training” e do bate-bola com os jogadores, o Mário Américo entrou no campo e me deu o recado que quando eu acabasse o aquecimento o Aimoré iria começar um coletivo. Eu disse ao Mário para dizer ao Aimoré que quando eu terminasse o meu trabalho, ele teria os jogadores à disposição. Terminei meu trabalho, continuamos amigos, mas o fato definiu o que é uma Comissão Técnica: cada um cumprindo a sua missão”.

 

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Delegação brasileira antes do início da Copa de 62 na concentração, em Viña Del Mar: em pé, Jurandir, Mário Américo (massagista), Djalma Santos, Didi, Mengálvio, Jair Marinho, Castilho, Pelé, Pepe e Garrincha; sentados, Mário Trigo (dentista), Hilton Gosling (médico), Ronaldo Moreira e Paulo Machado de Carvalho (chefe da delegação).
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Delegação brasileira antes do início da Copa de 62 na concentração, em Viña Del Mar: Zózimo, Zito, Vavá, Gilmar, Mauro, Zequinha, Coutinho, Belini, Amarildo, Nilton Santos, Zagallo, Francisco Assis (roupeiro) e Altair; sentados, Aymoré Moreira (técnico), Prof. Ernesto Santos (observador técnico-tático), José de Almeida (administrados), Adolpho Marques e Carlos Nascimento (supervisor)
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Orlando no empate Brasil 0 x Inglaterra 0, na Copa do Mundo de 1958, protege Gilmar da investida do atacante Kevan

 

 

José Rezende é jornalista, torcedor do Fluminense, responsável pelo Blog Álbum dos Esportes e autor dos livros “Hei de Torcer até Morrer”, sobre o America-RJ, “Eternamente Bangu”, e co-autor, juntamente com o historiador Raymundo Quadros, do livro “Vai dar Zebra”, sobre a história dos clubes pequenos do Rio de Janeiro.

 

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