Luiz Antônio da Guia: mais que um jogador, o Bangu. De 1912 a 1931

Em 1912, um jogador negro, baixinho, nascido em 1894 – seis anos após a abolição da escravatura -, primeiro filho de uma família de onze irmãos, estreava como jogador do Bangu na posição de beque. Em 1931, ou seja, 19 anos depois, este mesmo atleta fazia sua última partida com a camisa alvirrubra. Seu nome: Luiz Antônio da Guia, que os jornais dariam o apelido de “O Perfeito”.

Mesmo atuando em uma época onde se privilegiava o ataque, como se vê nas escalações com apenas dois zagueiros, três médios e cinco atacantes, Luiz Antônio se sobressaía, sendo um exemplo de lealdade em campo, não sofrendo uma expulsão sequer na sua longa carreira. Foi o atleta que mais tempo vestiu a camisa alvirrubra, embora seus 19 anos de dedicação ao clube, tenham lhe valido 269 jogos no time principal e apenas o título de campeão da 2ª divisão, em 1914.

historiadores-dos-esportes-bangu-atletico-clube-carlos-molinari-luiz-antonio-da-guia-2Assediado pelo América, Luiz Antônio respondeu ao convite dizendo que talvez não fosse tão difícil sair do Bangu, mas, difícil mesmo, era vestir outra camisa e jogar contra o seu Bangu.

Foi convocado poucas vezes para o Selecionado Carioca, em uma época que a presença de atletas negros não era bem vista pela elite dirigente do esporte. Por este motivo preconceituoso jamais foi convocado para a Seleção Brasileira, tendo que ver jogadores brancos, sem a mesma técnica que ele, atuarem pelo selecionado.

Alijado da convocação para o Campeonato Sul-Americano de 1920, em Santiago do Chile, um torcedor foi enfático em sua defesa nas páginas do jornal Correio da Manhã:

 

“Deixar de mandar Luiz Antônio, o velho full-back de todos os tempos, o melhor da defesa brasileira no Rio, faz-me duvidar da sinceridade de todos os brasileiros que com verdadeiro patriotismo organizaram o selecionado. É velha a má vontade”.

 

Sempre era comparado com seu irmão mais famoso, Domingos da Guia, que jogava na mesma posição de zagueiro. Seu pai, o velho Targino Antônio da Guia, em entrevista ao Jornal dos Sports, em 1948, foi enfático:

 

“Domingos é café pequeno ao lado de Luiz. Bangu nunca teve coisa melhor em historiadores-dos-esportes-bangu-atletico-clube-carlos-molinari-luiz-antonio-da-guia-3futebol. Luiz contava antes o que ia fazer em campo como se entrasse a sentar numa mesa de jogo. Só ele dava cartas. Sereno, elegante, impassível, intransponível. Igual a Luiz nem Domingos”.

 

Domingos da Guia, que se tornaria o maior zagueiro de todos os tempos, também fez questão de enaltecer as qualidades de seu irmão mais velho em um depoimento prestado em 1967 para o Museu da Imagem e do Som. Para o “Divino Mestre”, Luiz Antônio foi um “craque que, infelizmente, não teve chance de aparecer”.

Para o cronista Mário Filho, irmão mais velho de Nelson Rodrigues, Luiz Antônio “era mais que um jogador. Era o clube”. E aproveita para narrar em seu livro O Negro no Futebol Brasileiro, de 1947, uma deliciosa história do craque banguense:

 

“Uma vez o Bangu estava perdendo de 6 a 0 para o Flamengo. Faltava um minuto para acabar o jogo, houve um córner contra o Flamengo. Luiz Antônio veio correndo lá de trás, chamando todo o time do Bangu para a porta do gol do Flamengo. Não havia tempo a perder, era a última oportunidade. Quem bateu o córner foi ele, um córner perfeito, que deu em gol. Luiz Antônio quase enlouqueceu de alegria, pulando feito uma criança, gritando ‘Bangu’. Só porque o Bangu não tinha perdido de zero, fizera o seu gol de honra.”

 

Luiz Antônio era um torcedor apaixonado. Em 1933, quando seus irmãos Ladislau e Médio jogavam pelo Bangu e foram até as Laranjeiras decidir o título com o Fluminense, o irmão mais velho ficou em casa, esperando o resultado. Quando soube que o Bangu venceu por 4 a 0, teve uma síncope:

 

“Cientificado do retumbante feito do seu clube, Luiz Antônio experimentou uma emoção fortíssima, a qual, seu organismo torturado pela ansiedade, não resistiu. Uma alegria indescritível que degenerou em repentina alucinação” – reportou o jornal Diário da Noite.

 

Como não voltasse mais desse estado débil, Luiz Antônio foi internado num quarto particular no Hospital Nacional de Psicopatias, na Avenida Pasteur.

O antigo zagueiro recebeu alta do hospital, voltou para Bangu, mas a sanidade nunca mais foi a mesma. Curiosamente, passou a não se conformar em ficar de fora enquanto o Bangu jogava. Bastava que o time não viesse bem num Campeonato e Luiz Antônio se oferecia para atuar novamente. Ia treinar e quando se achava em forma queria ser escalado, independentemente de já contar com mais de 40 anos.

Lógico que nenhum técnico o escalava. Luiz Antônio, então, desaparecia da Rua Ferrer por um tempo, inconformado, sem compreender como não o queriam mais no time…

Faleceu em 1969, aos 75 anos, em Bangu. Caminhava na calçada de um lado para o outro, o dia inteiro. Estava esquecido pelos torcedores e vitimado pela loucura que, segundo as más línguas, devia-se ao fato de querer sempre tirar as pesadas bolas de couro das proximidades da grande área com cabeçadas.

 

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Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu

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