O Bairro de Bangu e o Rio de Janeiro no tempo da fundação do Bangu Athletic Club

Bangu, 1904

O que era Bangu em 1904, ano da fundação do Bangu Athletic Club por mestres têxteis britânicos da Companhia Progresso Industrial do Brasil?

Nas páginas dos jornais, Bangu era chamado de “pitoresca povoação”, um avanço, já que anteriormente utilizava-se o termo pejorativo “antigo arraial”. Na época, a fábrica de tecidos empregava 1.286 operários e, certamente, a população não passava de 5 mil pessoas. Além de um pequeno comércio, das casinhas da vila operária, do enorme estabelecimento fabril e da linha férrea que cortava o bairro, Bangu era ainda uma imensa roça, repleta de chácaras, com vários produtores rurais.

Um deles, Mário Oliveira, estava furioso. Na madrugada de 30 de abril, um cavalo foi furtado de dentro de sua cocheira. O proprietário chegou a anunciar nos jornais e oferecer uma recompensa bastante digna de 50 mil-réis por informações do paradeiro do animal que, segundo ele, era “bom de sela e esperto ao ser montado”. É pelos anúncios de jornais que ficamos sabendo que João Rodrigues Villar tencionava vender duas vacas, uma com cria e dando 12 garrafas de leite por dia. Quem quisesse procurá-lo bastava ir a um quiosque, que ficava em frente à estação de Bangu.

Enquanto isso, outro proprietário daquela ampla zona rural, o italiano Felippe Júlio Chiara anunciava a venda de duas carroças, seis animais e arreios. Pedia a significativa quantia de 1 conto e 500 mil-réis pelo “pacote” completo e queria urgência, por motivo de mudança. Estaria o imigrante percebendo que o tempo de viver na roça já teria acabado?

Os poucos moradores que viviam na vila operária ou nas chácaras tinham motivos para se acharem reféns da distância que separava Bangu da área central do Rio de Janeiro. O último trem que ia até o bairro saía da Central às 20h30. O comerciante João Ermida até tentou mudar essa realidade. Fez um abaixo-assinado e pediu para um deputado entregá-lo ao sr. Osório de Almeida, o diretor da Estrada de Ferro, na época. Queria que o trem que saía da Central à 0h30 e ia somente até a Realengo, esticasse a viagem e fizesse de Bangu a sua estação final.

O requerimento dos moradores de Bangu foi indeferido. Segundo o sr. Osório, “a estação em que residem não está em condições de servir de ponto terminal de trens”, acrescentando que “a concessão que pedem é prejudicial ao serviço da estrada”.

Mesmo que não pudessem ficar até tarde em outros bairros, o morador de Bangu tinha diversão ali mesmo. Além da Sociedade Musical Progresso do Bangu, fundada em 1895, e que realizava bailes para as famílias dos operários, havia ainda o Carnaval, quando a rixa era intensa entre a Sociedade Recreativa Carnavalesca Flor da União e o Grêmio Carnavalesco Flor da Lyra.

É por meio de um folião “dedo-duro” da S.R.C. Flor da União que ficamos sabendo de uma pequena confusão praticada pelos adeptos do G.C. Flor da Lyra no momento em que tentavam entrar na sede da Sociedade Musical Progresso do Bangu:

 

Ao chegar o Grupo defronte à Sociedade, um dos que vinham na frente tentou entrar, no que foi obstado pelo porteiro e seu auxiliar. Bastou isso para a irritação dos que faziam parte do Grupo. Daí partiam gritos e protestos, um dizia: “Escangalha!”; outros: “Entra!”, até que enfim surgiu um tipo que é cognominado “Grosso”, que há tempo foi demitido da fábrica como recalcitrante, tomando parte mais saliente e proferindo palavras que a moral manda calar.

Um dizia: “Eu hoje estive em sociedade mió do que esta!”. Para acalmar os ânimos foi preciso a intervenção da digna diretoria da Sociedade; esta manifestou-se em linguagem comedida, evitando quanto possível o emprego de palavras ou frases que pudessem melindrar a cordialidade e concluindo por ceder a entrada a todos. Felizmente não passou de um vocabulário porco, por parte dos fantasiados, pois ainda podia ser pior.

 

Carnaval agitado o de 1904…

Fora isso, o que um operário poderia fazer num momento de folga? Nem carteado ele podia jogar mais. O delegado da 3ª circunscrição suburbana, Arthur Cherubim Gonçalves da Silva, iniciou uma “campanha contra o jogo e a vadiagem”, procurando por casas de tavolagem na região de Bangu e Campo Grande.

Delegado polêmico. Para uns, era graças à sua energia que se devia a paz reinante na localidade, impedindo que gatunos, vagabundos e desordeiros se estabelecessem no bairro. Para outros, porém, Arthur Cherubim era um desastre. O Coronel Jacintho Leite, negociante em Bangu, chegou a dizer que não existia “pessoa criteriosa e que em boa fé procure defender o sr. delegado”. Já o Tenente Jacintho Alcides foi além, afirmando em carta à imprensa, que “há muito que Cherubim com as respectivas asas e penas deveria ter sido alijado da polícia”.

Cherubim era, ao menos, esperto. Durante a famosa Revolta da Vacina (entre 10 e 16 de novembro de 1904), quando a população do Centro do Rio, especialmente quem morava na região portuária, se levantou contra a lei 1.216, que tornava a vacina contra varíola obrigatória e começou a virar bondes, fazer barricadas e utilizar os escombros das reformas urbanas do prefeito Pereira Passos para guerrear com as tropas policiais, Cherubim não largou seu posto lá no longínquo Bangu. No dia 14, para fazer média, telegrafou ao Chefe de Polícia, o Dr. Cardoso de Castro, “dizendo que os múltiplos serviços de sua delegacia o impediam de estar ao seu lado neste momento de conflagração”.

O último caso policial em Bangu, em 1904, tinha ocorrido em junho, quando o italiano João Granado tinha agredido e ferido o português Joaquim Francisco, com uma cassetada na cabeça…

Era, de fato, uma comunidade pacata, que impressionou até mesmo o Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Joaquim Arcoverde, que veio visitar o bairro no dia 18 de setembro, realizando muitos batizados e casamentos. As ruas estavam caprichosamente ornamentadas. “A multidão que se aglomerava nas imediações da estação acompanhou o carro, artisticamente ornado de flores naturais, que conduziu a passo S. Ex. Revma. à poética capelinha consagrada a S. Sebastião, ereta junto da majestosa serra do Bangu”.

No dia seguinte, ao se despedir do espanhol João Ferrer, diretor-gerente da fábrica, o Arcebispo Arcoverde disse: “O senhor tem bons operários”. Ferrer, católico fervoroso, respondeu: “É que nos corações generosos desses homens do trabalho cintila a luz da fé”.

O conceito de “bons operários” ia além da produtividade que eles poderiam obter. Era, principalmente, ser um elemento ordeiro, que aceitasse o ritmo de trabalho imposto, que visse a fábrica como uma dádiva, afinal dali ele tiraria o seu sustento e o de toda sua família. O bom operário imaginado (e desejado) era dócil e resignado.

Com o tempo, o próprio clube de futebol do bairro iria ajudar a mudar este perfil, para melhor (os diretores exigiam disciplina para ser jogador do Bangu) e para pior (a torcida logo se tornou extremamente grosseira com os adversários e até com os juízes que apareciam por lá)…

 

Rio de Janeiro, 1904: palco da Revolta da Vacina

 

Historiadores-dos-Esportes-Carlos-Molinari-Bangu-Rio-de-Janeiro-1904-1905 2
Os bondes virados e alguns deles até incendiados deram o tom da Revolta da Vacina na Praça da República, no Centro do Rio, em novembro de 1904

 

Naquele longínquo ano de 1904, uma preocupação pairava pela cabeça dos cariocas: ser contaminado pela varíola e, ao mesmo tempo, ser obrigado a se vacinar contra ela. Doença que gerava intoxicação, febres e dores pelo corpo, a varíola tinha sua marca mais visível nas bolhas que surgiam no corpo do indivíduo infectado, razão pela qual a doença era mais conhecida como “bexiga”. Causada por um vírus transmissível pelo ar, era muito mais difícil de ser combatida do que outras doenças que tinham em insetos e animais os vetores de transmissão.

Por isso, o debate surgia em torno de uma novidade da ciência: a vacinação contra a varíola. Segundo o médico sanitarista Oswaldo Cruz, Diretor-Geral de Saúde Pública da prefeitura, esse era o único meio de extinguir a doença. Para isso, era preciso vacinar toda a população, mesmo que o povo não entendesse muito bem como os mecanismos de funcionamento do anticorpo a partir do vírus da varíola bovina e visse como um atentado à moral a vacina ser aplicada na virilha das mulheres. “Os tais pelintrecas dos médicos só vacinam os homens nas pernas e as mulheres na virilha”, reclamava um popular.

No mês de agosto, um abaixo-assinado rodou as fábricas de tecidos. Passou por Bangu, onde vários operários sinalizaram ser contrários à vacinação obrigatória. “Contra o corpo de um homem sadio não tem o parlamento o direito de um assalto qualquer a pretexto da saúde pública”, bradavam os jornais.

Mas, com as 72 vítimas fatais da varíola no Rio de Janeiro só na última semana de outubro, o projeto foi adiante e virou lei, aprovado pelo Congresso Nacional em 31 de outubro de 1904. Agora restava saber se, pelas ruas, casas de cômodos e cortiços que habitavam, os trabalhadores cariocas se submeteriam de forma passiva a tais arbítrios…

Para piorar, no dia 9 de novembro o jornal A Notícia publica o projeto de regulamentação da lei de vacinação obrigatória. Os termos, escritos pelo médico Oswaldo Cruz, são considerados autoritários e começa a indignação popular. No dia 10, o povo se aglomera no largo de São Francisco. “Morra a polícia! Abaixo a vacina!”, gritam os oradores. A multidão desce a rua do Ouvidor e, na praça Tiradentes, encontra os policiais. Ao final, quinze presos.

No dia 11 de novembro, a Liga Contra a Vacina Obrigatória marca um comício no largo de São Francisco. Seus líderes não comparecem. Mas, exaltada, a multidão recebe a polícia com pedras, paus e pedaços de ferro da construção da nova Avenida Central. À noite, cerca de 3 000 pessoas marcham contra o Palácio do Catete, sede do governo, já cercado por tropas. Na volta, pela Lapa, há novos confrontos e tiros. Morre o primeiro popular.

Nos dias 12, 13 e 14, a cidade se transforma num campo de batalha, com barricadas em diversos pontos. Bondes e postes são depredados. A Companhia de Carris Urbanos contava 22 bondes destruídos, com um prejuízo avaliado em cerca de 80 contos de réis. Trilhos e calçamentos eram arrancados. Delegacias, repartições públicas e casas de armas, invadidas. A polícia é expulsa de bairros pobres, como a Saúde, na região portuária. Tropas do Exército de Lorena (SP) e São João Del Rey (MG) são requisitadas. Até a Marinha entra no conflito. Doze pessoas haviam morrido somente no dia 14 de novembro. Segundo o escritor Lima Barreto, que presenciou a revolta: “pela vez primeira, eu vi entre nós não se ter medo de homem fardado. O povo se convenceu de que eles também eram mortais”.

Isolados em Bangu, os operários da Companhia Progresso Industrial do Brasil não apareciam nas listas de desordeiros, nem seus nomes eram publicados nos jornais como participantes das balbúrdias no Centro do Rio. Porém, nas Laranjeiras, um grupo de operários da Fábrica de Tecidos Alliança entregara-se a “toda a sorte de depradações”, tomando parte ativa do motim, no dia 13 de novembro. Na Gávea e no Jardim Botânico, onde se localizavam duas importantes fábricas de tecidos – a Corcovado e a Carioca – os trabalhadores também se envolveram ativamente nos protestos, quebrando os lampiões e atacando a delegacia de polícia tal qual acontecia em diversos bairros da cidade. As opções e atitudes que tomavam, como a destruição de vidros e máquinas de empresas, que nenhuma relação direta tinham com o projeto de vacinação, mostravam, porém, ter a sua revolta sentidos muito específicos – sendo ali um dos poucos lugares nos quais a fúria dos manifestantes se voltou contra entidades privadas e não contra o poder público.

No dia 14 de novembro, aproveitando-se do clima de insegurança nas ruas, houve uma tentativa de golpe de estado contra o presidente Rodrigues Alves. Líderes políticos – especialmente o senador de oposição Lauro Sodré – conseguem sublevar a Escola Militar, na Praia Vermelha, de onde saem 300 cadetes armados, rumo ao Catete. Golpistas e tropas legalistas se enfrentam. O governo reforça a segurança do palácio. O presidente se recusa a se refugiar num navio da Marinha. O encouraçado Deodoro bombardeia a Escola Militar. Os rebelados se rendem. Fracassa o golpe.

Em pleno feriado do dia 15 de novembro, o Chefe de Polícia, por ordem expressa do presidente Rodrigues Alves, determinou o fechamento das redações dos jornais Correio da Manhã e O Comércio do Brasil, as duas principais fontes de oposição ao governo na imprensa carioca.

Por fim, no dia 16 de novembro, o governo suspende a obrigatoriedade da vacina, retraindo a revolta e instaura Estado de Sítio por 30 dias no Distrito Federal e em Niterói. A última resistência dos revoltosos, no bairro da Saúde, também tinha acabado com a prisão de alguns líderes. Saldo daquela semana: 110 feridos, 30 mortos, 945 pessoas presas, das quais 454 foram deportadas para o Acre e sete estrangeiros foram extraditados.

“Nosso povo é um povo ordeiro, não lhe cabe a menor responsabilidade nas perturbações que afligiram o Rio de Janeiro no mês de novembro” – concluía o Chefe de Polícia, Dr. Cardoso de Castro, no relatório que apresentou ao Ministro da Justiça. Para ele “os operários de verdade não teriam se envolvido naquele levantamento absurdo e injustificável, promovido pelos desocupados que infestam o Rio de Janeiro”.

 

Rio de Janeiro, 1905

 

Historiadores-dos-Esportes-Carlos-Molinari-Bangu-Rio-de-Janeiro-1904-1905 3
A canhoneira portuguesa Pátria

 

Era um Rio de Janeiro bem português aquele do início do século XX. Em 1905, viviam no Rio aproximadamente 57 mil cidadãos lusitanos. Ou seja, era quase impossível não cruzar com um deles pelas ruas, nos comércios ou nas fábricas. Por ser a maior população estrangeira no Rio, a chegada da canhoneira “Pátria” no porto, no dia 23 de setembro, foi um acontecimento que mexeu com a cidade. Canhoneira era como se intitulavam os navios de guerra naquela época. E a “Pátria” era justamente um vaso de guerra genuinamente português.

Desde 1890 que os portugueses viviam uma verdadeira onda de indignação. Tinham perdido a proteção da Inglaterra, que lhes deu um ultimato a respeito da ambição do expansionismo luso na África. A Monarquia portuguesa, então, percebeu que precisava comprar ou construir navios para a sua desprovida marinha de guerra. Para sanar o problema da falta de recursos, a partir daquele ano foram abertas subscrições entre a colônia lusitana no Brasil. O objetivo era construir no arsenal de Lisboa um moderno navio de guerra.

Construída em aço, no Arsenal de Marinha de Lisboa, sob a direção do engenheiro francês Cronneau, foi apenas o terceiro navio de construção metálica ali construído. O assentamento da quilha verificou-se no dia 5 de Novembro de 1901 e o lançamento à água em 27 de Junho de 1903. Ao todo, a “Pátria” custou 230.417$736. Sua lotação máxima era de 160 homens. A canhoneira fez sua primeira viagem no Tejo no dia 10 de agosto de 1903. De Portugal, o navio foi para Angola, e só depois veio para o Brasil para ser mostrado aos portugueses que tinham pago a sua construção. O primeiro porto que recebeu a embarcação foi o de Recife. A recepção foi extremamente calorosa. Mas a verdadeira apoteose aconteceu quando a “Pátria” chegou ao Rio de Janeiro, onde ficou de 23 de setembro a 19 de outubro de 1905. Ancorada no Cais Pharaoux, a Canhoneira Pátria foi aberta à visitação. Os cariocas queriam ver aquele navio que era o maior esforço de guerra português até então.

Já os oficiais foram alvo de banquetes, festas, recepções e homenagens praticamente todos os dias. Parecia que cada português de posses que vivia no Rio ou em Niterói queria ofertar a mais bela cerimônia a tão ilustres hóspedes.

 

Historiadores-dos-Esportes-Carlos-Molinari-Bangu-Rio-de-Janeiro-1904-1905
18 de setembro de 1904: Dia de festa em Bangu com a chegada do Arcebispo Dom Joaquim Arcoverde. A Rua Estevão, caminho que ia da estação de trem até a capela de São Sebastião, estava toda enfeitada

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu

 

 

One thought on “O Bairro de Bangu e o Rio de Janeiro no tempo da fundação do Bangu Athletic Club

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s