O banguense Francisco Carregal, o primeiro jogador negro da história do futebol carioca

O Bangu subverte a ordem e escala um jogador negro no seu time em 1905. Pode isso?

 

A Família Carregal

No dia 21 de abril de 1949, em Paraguaçu, uma cidadezinha do Sul de Minas, um pioneiro da luta contra o racismo no futebol brasileiro morria praticamente esquecido. Francisco Carregal – filho de Francisco Gomes Carregal, português branco, com Henriqueta de Almeida Carregal, negra brasileira – trabalhava como gerente-técnico da Paraguassu Têxtil, utilizando os conhecimentos que acumulou durante anos e anos na Fábrica Bangu. Tinha 65 anos.

 

Desconhece-se a data em que seu pai chegou ao Brasil, nem a sua data de casamento. Sabe-se, porém, que em 1891, Francisco Gomes Carregal já era mestre da seção de teares da Companhia Brazil Industrial, uma fábrica de tecidos situada em Paracambi, no Estado do Rio.

 

É certo que, em 1894, Francisco Gomes Carregal – apelidado de “Barbudo” – já vivia e trabalhava em Bangu. O português, porém, acabou demitido da Fábrica Bangu em 1899, por ficar ao lado do Capitão Jorge Estrella – uma espécie de “capitão-do-mato”, que tinha o cargo de “administrador do movimento externo da Companhia”. Jorge Estrella entrou em rota de colisão com os mestres ingleses da Companhia e perdeu o cargo e os privilégios que tinha – inclusive o direito de morar num belo sítio na região. Carregal, que apoiava o polêmico capitão, acabou “despedido a bem da disciplina do serviço da fábrica”.

 

Curiosamente, essa demissão não serviu para fazer com que a família Carregal abandonasse a residência que possuía na Rua Fonseca. Seu filho, Francisco Carregal, mulato, nascido em 26 de março de 1884, começou a trabalhar na Companhia Progresso Industrial do Brazil aos 10 anos, como aprendiz de teares. Em 1904, aos 20 anos, passou a contra-mestre dos teares, numa evolução rápida até demais. Em 1916, aos 32, tornou-se contra-mestre geral. E, enfim, em 1919, aos 35 anos, virou mestre geral da Fábrica Bangu. Em 1922, um simples boato de que seria demitido, alarmou os operários. A consternação foi tão grande que a diretoria temeu o início de uma greve entre os subordinados de Carregal e avisou à polícia. Dez praças de infantaria foram mandados vigiar a fábrica para evitar tumultos.

 

Em agosto de 1926, Carregal passou por algo mais sério do que um simples boato de demissão. Viu falecer seu filho, João Carregal – o “Carregalzinho”, ainda bastante jovem. Casado com Dona Noêmia (Nica), Francisco tinha outros três filhos: Francisco Modesto Carregal, Mário Carregal e Noêmia Pires Carregal. A morte de um filho não era algo novo na vida do casal. Em dezembro de 1913, Francisco e Nica perderam Heitor, um bebezinho de apenas um ano. A mortalidade infantil era, à época, um mal que entristecia muitas famílias em todo o país.

 

Em 1928, Francisco Carregal mudou de emprego: passou a ser mestre-geral da Fábrica Aliança, nas Laranjeiras e foi morar na pitoresca rua General Glicério. Lá enfrentou o maior desafio de sua carreira: logo no primeiro ano em que estava lá, a companhia têxtil sofreu um violento incêndio, que prejudicou sua produção.

 

Francisco Carregal e o histórico jogo Bangu 5×3 Fluminense de 1905

Seu êxito profissional, porém, acaba ficando em segundo plano perto de sua participação esportiva. Não foi um grande atacante, é verdade. Mas foi um pioneiro. Em 1905, quando muita gente ainda torcia o nariz para a aceitação do negro em iguais condições dentro da sociedade, Francisco Carregal foi escalado pelo Bangu para um jogo amistoso contra o Fluminense. A partida, disputada no dia 14 de maio, terminou com a vitória banguense por 5 a 3, mas não há registros de quem fez os gols. Há, em contrapartida, uma foto do time alvirrubro posado, Francisco Carregal ao lado de ingleses, italianos, portugueses, com a bola nas mãos. Para valorizar ainda mais a presença pioneira de um jogador negro no futebol elitista de então, o cronista Mário Filho – que hoje dá nome ao Maracanã – escreveu uma crônica sobre a participação de Carregal baseando-se unicamente na fotografia que viu:

 

“Francisco Carregal, talvez por ser brasileiro e mulato, o único brasileiro, o único mulato do time, caprichou na maneira de vestir. Era o mais bem vestido dos jogadores do Bangu. Um verdadeiro dândi em campo. (…) As botinas travadas de Francisco Carregal, novinhas em folha. Se não novinhas, engraxadas de manhã para o jogo. Chama a atenção a diferença entre o apuro de Francisco Carregal, preocupado em não fazer feio, e o pouco se me dá de William Procter, que não ligava para essas coisas. Francisco Carregal, um simples tecelão, comprou tudo de novo: as botinas travadas, as meias de lã, os calções. (…) No meio de ingleses, de portugueses, de italianos, sentia-se mais mulato, queria parecer menos, quase branco. Passava perfeitamente. Pelo menos não escandalizava ninguém.”

 

Historiadores-dos-Esportes-Bangu-Francisco-Carregal
A histórica fotografia de 14 de maio de 1905, que comprova que Francisco Carregal (primeira fileira, centro, olhando fixamente para a câmera) foi o primeiro jogador negro a figurar num time de futebol no país. Pioneirismo puro do Bangu

 

Bangu, o primeiro clube a lutar contra o racismo

Em 1905, jogava pelo 1º time. Em 1906, tinha sido rebaixado para o 2º time – equipe que fazia as preliminares do time principal. Mesmo assim, sua presença nos jogos da Liga Metropolitana acabou incomodando. O Bangu colocara Manuel Maia – goleiro negro – no 1º time e Francisco Carregal – atacante mulato – no 2º time. Os demais clubes da Liga não gostaram de ver seus atletas brancos, de boas famílias, alguns estrangeiros, disputando em igualdade de condições com operários “de cor”. A reprimenda veio em maio de 1907, às vésperas do início do segundo Campeonato Carioca.

 

“Comunico-vos que a diretoria da Liga, em sessão de hoje, resolveu por unanimidade de votos que não sejam registrados como amador nesta Liga as pessoas de cor. Para os fins convenientes ficou deliberado a todos os clubs filiados se oficiasse nesse sentido, a fim de que cientes dessa resolução, de acordo com ela possam proceder”.

 

O ofício, suprassumo do preconceito racial típico do início do século XX, vinha assinado pelo secretário da Liga, José da Rocha Gomes. O Bangu tinha que optar. Ou continuava na Liga e expulsava Francisco Carregal e Manuel Maia dos seus quadros, ou ficava ao lado dos seus jogadores negros e, consequentemente, ao lado da grossa maioria dos operários da fábrica, que eram pardos, mulatos, mestiços e negros. Venceu a segunda opção. O Bangu se desfiliou da Liga, deixou de participar do Campeonato Carioca e, quando surgiram na imprensa, boatos de que poderia voltar a participar da entidade, o secretário Andrew Procter escreveu aos jornais que estava “muito feliz por haver saído da tal agremiação”.

 

Historiadores-dos-Esportes-Bangu-Francisco-Carregal-2

Francisco Carregal e o Bangu

A carreira de Francisco Carregal no Bangu foi longa. Durou até 1912, quando já estava com 28 anos. Em determinados momentos, quando precisava, chegou a jogar até de goleiro. Neste mesmo ano em que se despediu dos gramados (após disputar 27 jogos pelo 1º time alvirrubro), adquiriu um cinema – o Cinema Bangu – em sociedade com o imigrante russo Ludwig Grigorovski. O primeiro cinema do bairro chegou a abrigar, inclusive, lutas de boxe e fez diversas sessões beneficentes.

 

“O sr. Francisco Carregal, proprietário do Cinema Bangu, tem empregado os maiores esforços para melhorar os espetáculos, renovando as sessões com lindas e mimosas fitas” – chegou a elogiar o jornal A Época, em sua coluna sobre os subúrbios do Rio.

 

Entre 1911 e 1915, virou tesoureiro do Bangu Athletic Club, na gestão do inglês James Hartley. Em 1916, quando já tinha deixado o cargo, Carregal demorou a apresentar os relatórios financeiros do ano anterior, o que irritou a nova diretoria. Ademais, Carregal sequer tinha assinado documentos da quantia do saldo entregue ao novo tesoureiro. A questão se tornou uma quimera.

 

“Foi entregue pelo ex-tesoureiro do club a quantia de 335$600 em dinheiro e diversos vales. O sr. Salino declara que não se satisfaz com a entrega que lhe foi feita e pede à diretoria para convidar o sr. Carregal para dar as explicações necessárias” – diz a ata de 17 de janeiro de 1916.

 

Na reunião seguinte, em 20 de janeiro de 1916, nada mudou:

 

“O sr. presidente submete à deliberação da diretoria o procedimento do sr. Francisco Carregal, ex-tesoureiro do club, que convidado, não compareceu à reunião. O sr. Firmino Carvalho, Diretor Sportivo, se compromete a saber do referido sr. Carregal quais os motivos que o levaram a faltar a reunião e ao mesmo tempo saber das responsabilidades do club e pedir as informações que o sr. tesoureiro julgasse necessárias”.

 

Fora da diretoria, Carregal estava em guerra com os dirigentes de 1916. No mês de fevereiro passou a colocar os cartazes dos filmes que seu cinema exibia no muro do campo de futebol da Rua Ferrer. O presidente Noel de Carvalho não gostou e resolveu cobrar o “pagamento de uma mensalidade” dos donos do Cinema Bangu, o que viria a ser o primeiro contrato publicitário em campos de futebol no Brasil. Porém, como Francisco Carregal estava realmente brigado com o Bangu, inclusive tendo dito que “não prestava absolutamente obediência à diretoria do Bangu Athletic Club”, a proposta não foi aceita:

 

“O sr. presidente traz ainda ao conhecimento da diretoria que os srs. Grigorovski e Carregal continuam a colocar os seus cartazes no muro do campo de football e que não prestaram a mínima atenção ao ofício que foi lhes mandado” – registra a sessão de 16 de março de 1916 da diretoria do Bangu.

 

No fim de sua vida, uma merecida homenagem

Carregal não passaria a vida brigado com o Bangu. Em 1941, ajudou a fundar a seção de veteranos do clube, proporcionando diversão aos antigos jogadores. Em 15 de novembro de 1947, quando o Bangu encerrou as atividades do histórico campo da Rua Ferrer e inaugurou o Estádio Proletário, Francisco Carregal voltou a ser lembrado. Juntamente com o italiano Seccondo Maffeo e o inglês William Hellowell – pioneiros da fundação do clube, em 1904 – Carregal arriou a bandeira alvirrubra da Rua Ferrer, desfilou com ela pelas ruas do bairro, até hasteá-la novamente em Moça Bonita.

 

Estava plenamente desagravado o pioneiro na luta contra o racismo no futebol.

 

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu

 

3 thoughts on “O banguense Francisco Carregal, o primeiro jogador negro da história do futebol carioca

    1. Rogério, os textos do Carlos Molinari são o resultado de suas pesquisas realizadas nos últimos 20 anos. Suas fontes são as atas do próprio Bangu e os jornais da época que podem ser consultados através do site da Biblioteca Nacional Digital (www.memoria.bn.br). Att, Jorge

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