Jordan, o melhor marcador de Mané

Quando falamos de Jordan, ex lateral esquerdo do São Cristóvão e do Flamengo, nos referimos, na história do futebol, ao melhor marcador de Mané Garrincha.

Fomos ao seu encontro no dia 14 de novembro de 2005, em Del Castilho. O apartamento ficava no 3º andar de um dos blocos do conjunto, salvo engano, do antigo IAPC.

O prédio sem elevador nos fez subir pela escada. Quando chegamos ao apartamento, abriu a porta aquele negro musculoso, meio tímido que nos recebeu com leve sorriso e no olhar a alegria de a nossa presença: “você se lembrou de mim”. Respondi: claro Jordan, assisti você no São Cristóvão e depois no Flamengo contra o meu Fluminense:

 

“Sinceramente, todos os flamenguistas têm a ilusão de que eu sou Flamengo. Mas eu sou São Cristóvão. Eu gosto do São Cristóvão. O Flamengo é o meu segundo time”.

 

Mangueirense, Jordan fez questão de lembrar seus primeiros passos com a bola no Morro da Mangueira:

 

Tenho grande lembrança do campo do Bandeirante, onde comecei lá no Morro da Mangueira. Lá todos gostam de mim e constantemente estou na Mangueira. Na pelada eu brincava muito na frente e fazia muitos gols de center-forward. Depois, mesmo nas peladas, comecei a recuar quando nós estávamos ganhando, para ajudar a defesa. Quando cheguei ao São Cristóvão para treinar, fui para a lateral esquerda.

 

Comecei no São Cristóvão com 15 anos e lá fui progredindo desde o juvenil. Dois anos depois, já com 17 anos, estava jogando no primeiro time. Nesta época, jogavam comigo Carlyle, que não é aquele que jogou no Fluminense, Julinho, Ivan, Luís Borracha, Tórbis.

 

No meu tempo, a defesa funcionava da seguinte maneira: o zagueiro central marcava sempre o centroavante, os laterais, que eram os beques direito e esquerdo, marcavam os extremas. Nós íamos até o meio de campo, passávamos a bola e parávamos. Não podíamos ir até a área do adversário.

 

Nosso time jogava bem. Formamos um bom conjunto e tivemos algumas boas vitórias. Eu me lembro quando ganhamos do Vasco por 2 a 0, em Figueira de Melo.

 

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São Cristóvão, 1951: Waldir, Luís Borracha, Tórbis, Ney, Geraldo Bulao e Jordan; Geraldino, Cunha, Nonô, Ivan e Carlinhos

 

As atuações de Jordan chamaram à atenção dos dirigentes do Flamengo e o jovem lateral tomou o rumo da Gávea:

 

Eu conversei uma vez com o Flávio Costa sem o conhecimento do São Cristóvão. O Flamengo deu em cima e o São Cristóvão não queria me largar. Eu falei se o Flamengo quer me levar, deixa eu ir. Deixa eu arrumar a minha vida. Aí, num dia de treino, o Flávio Costa foi à Figueira de Melo, me chamou perante à diretoria e disse que eu iria para o Flamengo. Respondi: o São Cristóvão é que resolve.

 

A convivência com Flávio Costa durou apenas um ano. O técnico retornou ao Vasco no final da temporada de 1952. A partir do ano seguinte, o Flamengo passou a ser dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich:

 

No Flamengo, substituí o Bigode que retornou ao Fluminense. O Fleitas Solich manteve a base. Garcia, Rubens já estavam lá. Eu fui o último do grupo que conquistou o título de 53 a chegar.

 

Formei com Jadir e Dequinha a intermediária do Flamengo por muito tempo. Era importante porque a gente se conhecia. Isso levava a gente a jogar bem. Marcar, passar a bola, saber onde o adversário ia lançar uma bola. Não precisávamos gritar, nós nos conhecíamos um ao outro. Quando um saía para dar combate o outro já fazia a cobertura.

 

Com Solich, que ficou conhecido como o “Feiticeiro”, o Flamengo conquistou seu segundo tricampeonato: 1953, 1954 e 1955. Jordan nos três anos foi titular absoluto. A maior emoção ficou por conta da disputa do título de 1955 quando Flamengo e América decidiram o campeonato numa série melhor de três:

 

Nós ganhamos a primeira por 1 a 0. No segundo jogo, veio a goleada do América em cima da gente de 5 a 1. Nós relaxamos. Foi um relaxamento geral mesmo. Tanto que veio a terceira partida e nós ganhamos. Nós não sabíamos nem explicar como foi.

 

Na partida decisiva, a saída do Alarcon ajudou um pouco. O lance da falta do Tomires no Alarcon foi casual. O Tomires sempre jogou duro.

 

O Presidente Gilberto Cardoso estava sempre presente e era muito nosso amigo. O que a gente precisava ele estava presente e cedia. Depois de seu falecimento as coisas ficaram mais difíceis para nós. Nós precisávamos de umas certas coisas e não tínhamos. Com ele sempre tinha.

 

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Uma das formações do Flamengo em 1955, ano da conquista do tricampeonato carioca: Pavão, Servílio, Anibal, Tomires, Dequinha e Jordan; Joel, Paulinho, Evaristo, Dida e Zagallo

 

No retorno de Flávio Costa ao Flamengo, segundo Jordan as mudanças feitas pelo técnico influenciaram no rendimento do time:

 

Ele voltou e mexeu muito no time. Flávio Costa mudou o time do tri sem querer saber quem estava bem ou não.

 

Na decisão de 62 contra o Botafogo, o Flávio queria que o Gerson desse o primeiro combate ao Mané. Todas às vezes que o Mané pegasse a bola eu recuava. Mas o Gerson não queria fazer isso. Eu fiz o que ele mandou. Recuava para guardar a entrada da grande área. Se o Gerson não conseguisse tomar a bola do Mané, eu sairia na cobertura dele. Na minha opinião, o Gerson não tinha de maneira alguma condições de dar esse primeiro combate. Se o Flávio invertesse, eu ir na frente e o Gerson vir por trás fazer a cobertura, seria muito melhor.

 

Garrincha nesse jogo não jogou acima do normal, ele jogou o jogo dele. Garrincha fez o que queria e infelizmente o Gerson levou um baile. O Gerson falava: “Jordan, eu vou fingir que vou, mas não vou não.” Ele não ia, sabia que tomaria o drible.

 

Olha, é interessante isso. Depois que o Gerson saiu daquela embaralhada, o homem mandou (Flávio Costa) eu fazer aquele trabalho e o Gerson fazer o meu trabalho. Eu chegava muito mais perto do Mané. Quando ele tentava o drible, eu parava para dar o bote certo. Algumas vezes eu o pegava, outras não pegava. A gente ficou assim nessa. Quando ele fazia aquela de passar o pé por cima da bola, eu parava e ficava assistindo. Quando ele parava, eu dava o bote. Ele não tinha como se mexer e se embaralhava e aí eu pegava.

 

Jordan foi considerado o melhor marcador do fenomenal Garrincha. Ele nos disse como recebia esse elogio:

 

Mané tinha uma arrancada sensacional. Primeiro ele passava a perna esquerda em cima da bola para apanhar com a direita. Eu ficava junto. Quando ele passava, eu ficava junto porque sabia que ele não tinha perna esquerda. Ele não chutava com a esquerda. Eu vinha, vinha, vinha e quando ele fazia aquela de puxar com a direita eu já ia levando a minha perna direita na bola. À vezes ele passava, o que era normal, mas muitas vezes o desarmei.

 

Eu não ligava muito para a imprensa. Eu fazia o normal de sempre. Saber chegar nele numa bola. Quando enfrentei o Garrincha pela primeira vez, eu me surpreendi, mas o marquei bem. A imprensa me elogiou. Ele vinha com os dribles dele e eu nunca dei pontapé. Eu não sabia bater. Eu ia na bola. Dei muita sorte também. Num dos últimos jogos que eu fiz contra o Mané, quando terminou o jogo ele apanhou a bola e veio na minha direção e disse: “Negão, hoje você merece tudo. Ela é sua.

 

Tricampeão carioca de 1953, 54 e 55 e campeão do Torneio Rio São Paulo de 1961 pelo Flamengo, Jordan da Costa nos deixava no dia 17 de fevereiro de 2012. Nos campos do céu, os duelos entre ele e Garrincha permanecem para a eternidade.

 

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Álbum de figurinhas do time do Flamengo em 1954, ano do bicampeonato carioca
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Esquerdinha, Índio e Jordan campeões cariocas de 1953 ao lado do grande compositor Ari Barroso, famoso locutor esportivo e fanático rubro-negro, e Dario Melo Pinto, presidente do Flamengo

 

José Rezende é jornalista, torcedor do Fluminense, responsável pelo Blog Álbum dos Esportes e autor dos livros “Hei de Torcer até Morrer”, sobre o America-RJ, “Eternamente Bangu”, e co-autor, juntamente com o historiador Raymundo Quadros, do livro “Vai dar Zebra”, sobre a história dos clubes pequenos do Rio de Janeiro.

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